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sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Clube do Livro dos Anos 80

 

Caro leitor, se você tem 30 anos ou mais, já gostava de leitura, deve se lembrar do Círculo do Livro. Refresquemos a memória: era um sistema de “clube do livro”, que entregava os volumes selecionados para associados. Havia uma revista, com resumo de todos as obras disponíveis e o sócio tinha por obrigação pedir pelo menos um livro a cada trimestre.

Os vendedores iam a nossa casa fazer a entrega e levar o novo catálogo. Lugares onde não existiam vendedores eram atendidos por correio. O Círculo do Livro foi uma editora brasileira, com parceria firmada entre o Grupo Abril e a editora alemã Bertelsmann e inicou suas atividades em 1973.

Em 1982, as vendas alcançaram cinco milhões de exemplares vendidos; em 1983, eram oitocentos mil sócios espalhados pelo território brasileiro. Entretanto, na mesma década de 80, acontecia, além do apogeu da empresa, sua falência.

Eu era um dos associados. Recebia meus pedidos com regularidade. Eram livros bem-acabados, com capa dura e páginas costuradas, a preços bastante competitivos. Lembro-me que havia muitos outros associados ao Círculo do Livro na empresa onde eu trabalhava.

Não me importa o motivo pelo qual as atividades da editora foram encerradas. Dizem uns, pela má administração; outros dão como causa a retirada da Bertelsmann do negócio. Sinto pelo término do projeto, pois acredito que ele realmente contibuiu para a formação e manutenção de leitores brasileiros; mas, é claro, uma empresa não pode ser mantida por romantismo e, às vezes, nem o idealismo, por mais nobre, pode preservá-la. Foi uma pena. É uma pena.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Resenha nº 8 - Feliz Por Nada, de Martha Medeiros

Estou acabando de ler o Feliz Por Nada, de Martha Medeiros. Contrariamente ao que costumo fazer ao resenhar um livro – resenho-o normalmente após encerrar a leitura –, com esse estou fazendo diferente. Não conhecia o trabalho da escritora o que, se por um lado denuncia minha ignorância de uma autora conhecida, por ser colunista dos jornais Zero Hora e O Globo, por outro lado me deixa mais à vontade para os comentários a respeito dela.

Muitas vezes, nos deixamos levar por um conceito já firmado sobre algum autor e sentimos dificuldade em, por exemplo, sermos isentos o suficiente para dizer: “olha, esse autor é muito bom, mas especialmente esse livro não está à altura dele”.

Martha Medeiros escreve muito bem. Tem um estilo leve, seus textos são gostosos de ler. Nessas pouco mais de oitenta crônicas que compõem o livro passiei por temas variados. A obra já está na 36ª edição. E na verdade, ela nem é minha; minha esposa  ganhou-a de uma aluna, com uma singela dedicatória e eu me apossei dela.

Há comentários de coisas do dia a dia de uma mulher, dona de casa, mãe, jornalista e escritora literária. Todas essas vivências não excludentes contribuem nitidamente para os textos e temas de Martha. Comenta livros lidos, como não podia deixar de ser: o bom escritor é antes de tudo, um bom leitor. Tem até uma referência ao A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, que aguarda pacientemente na fila das minhas leituras programadas.

A crônica é, talvez, o mais generoso dos gêneros textuais; nela, pode-se criar um texto mais dissertativo, poético, casual, etc. Isso faz parecer fácil, não? Não é bem assim. Como também escrevo crônicas, sei: encontrar o tom certo, em um texto, de natureza curto e leve pode ser complicado. Já se disse, em questões textuais existe o efeito de simplicidade, arduamente trabalhado.

Vale transcrever um pequeno trecho da crônica que dá nome ao livro e que está reproduzido na 4ª capa:

“A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.”

Uma bela e simples reflexão, não? Se você é do tipo que não se dá trégua, vá a uma livraria próxima, compre o Feliz Por Nada, de Martha Medeiros e o leia com proveito!

Martha Medeiros. Feliz Por Nada. Editora L&PM, 211 páginas, 36ª edição, 2011.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Resenha nº 7 - Zorro, de Isabel Allende

Quando me emprestaram esse livro, preparei minha disciplina para ler algo sobre um personagem que não me atraía muito. Afinal, pensei, Zorro seria apenas um romance de capa e espada sobre o desgastado alter ego de Dom Diego de la Vega. Entretanto, lá no fundo do meu ser leitor, eu já me dizia aos ouvidos internos: “é um livro de Isabel Allende, provavelmente você vai encontrar mais do que espera”. Dito e feito. Mais uma vez, minha intuição não falhou. Aos poucos, vou me tornando um fã dessa escritora peruana de vivência chilena. Dela, já li Casa dos Espíritos, há muito tempo; Inés de Minha Alma e agora, Zorro.

Muito mais do que mais um livro sobre o Zorro/Dom Diego de la Vega, esse é um bom livro, bem escrito, embora não o considere o melhor da escritora. Isabell revisita o mito, tornando-o mais consistente, ressignificando-o. É um romance de formação, isto é, um romance em que o leitor vai acompanhando a construção do personagem, seguindo-lhe todo o processo da meninice, da adolescência e da maturidade.

O narrador participa da própria história que conta, na maior parte das vezes em terceira pessoa, com variações para a primeira. Algumas pistas são deixadas ao correr do texto sobre a quem pertenceria essa voz narradora, que só será revelada ao final da história. Não serei eu, caro leitor, a estragar o término pela antecipação da notícia. Leia-o — estou recomendando-o — degustando um texto de alta qualidade pelo capricho na construção dos personagens, não só de Dom Diego, mas de Nuria, Juliana e Isabel de Romeu, de Bernardo, da índia Toypurnia, de Coruja Branca, Alejandro de la Vega, do capitão Santiago de León, de Rafael de Moncada, do corsário Jean Lafitte, etc. Ainda, levará de presente um enredo coerente, que nos prende a atenção do começo ao fim do livro.

Indo da Califórnia a Barcelona e de volta à Califórnia, muitos fatos vão acontecendo; não falta, ainda, o fino humor de Allende; ela não poupa ninguém. Ironiza cada um dos personagens, que como a gente, têm sempre aspectos bons e ruins.

Mas, se você espera uma obra superficial, bobinha, sobre aventuras de capa e espada, cheia de lutas entre valorosos espadachins, ou entre o superior Zorro e seus fracos opositores, mude de perspectiva. Espertamente, Isabel não segue por esse caminho batido, por esse clichê. Ao contrário, ela dá ao personagem mítico uma infância e uma adolescência. Ou seja, numa frase, a escritora confere identidade e humanidade ao Zorro.

É narrada a profunda amizade entre Diego de la Vega e seu irmão do coração, Bernardo. Ambos têm sangue indígena correndo nas veias. Há toques românticos, como o amor dedicado de Bernardo à Coruja Branca e de Diego à Isabel de Romeu. Uma pitada de misticismo, ou se quiserem, de espiritualidade, com direito a ritos de passagens,  tão presentes na cultura dos indígenas perpassa algumas páginas desse Zorro.

Zorro – Começa a Lenda, Editora Betrand Brasil, 417 páginas

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Resenha nº 6 - Leite Derramado, de Francisco Buarque de Hollanda

Chico Buarque de Hollanda vem construindo sua carreira de escritor de maneira sólida. Antes de sua atual fase de romancista, já havia escrito as peças Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d’água (1975) e Ópera do malandro (1979). Em 1974, veio a novela Fazenda Modelo. Seus romances se iniciam com Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e este Leite Derramado (2009).
José Saramago, em entrevista à Folha de São Paulo, teceu elogios ao livro Budapeste. Acrescentou: “Sei que ele está terminando um livro, mas não pode escrever uma linha abaixo de ‘Budapeste’.”
E, de fato, Chico Buarque se saiu muito bem, atingindo as expectativas de Saramago. Leite Derramado é um ótimo romance, construído de maneira enxuta e densa: em exíguas 195 páginas, traça a saga da família Assumpção, desde os ancestrais lusitanos, passando pelo império dos baronatos brasileiros até os tempos modernos. E faz isso pela ótica de um descendente da família Assumpção: Eulálio Montenegro Assumpção é um ancião, preso ao leito do hospital que, em regime de flash back, nos dá sua visão da história do Brasil. As memórias são às vezes repetitivas, desconexas, como o seriam se expressas por alguém que já vai perdendo o domínio das lembranças.
São impressões sobre uma elite racista, autoritária e decadente. O depoimento do ancião não tem destinatário claro. Dirige-se tanto às enfermeiras que cuidam dele, quanto ao público em geral. Ele conta seu amor por Matilde, um tanto ingênuo e sensual. Há outros personagens, entrevistos nas recordações descontínuas, por vezes contraditórias, de Eulálio: Dubos, o francês, Balbino, ex-escravo, Amérigo Palumba.
Leite Derramado recebeu o Prêmio Jabuti e Prêmio Portugal Telecom de Livro do Ano de 2010. Li apenas os dois últimos romances, Budapeste e Leite Derramado; pessoalmente, gosto mais do Budapeste.
Eulálio Montenegro Assumpção é um velho preso a uma cama de hospital. Diariamente, é cuidado por enfermeiras, que vêm em turnos cuidar dele. Conversa com elas, contando-lhes suas memórias. Mas, como suas lembranças vêm em flashes, nem sempre coerentes, isso resulta numa narrativa entrecortada, fragmentada, num ir e vir constante. Aos poucos, vai sendo traçado um quadro da história do Brasil dos dois últimos séculos, vistos por alguém pertencente à elite. É uma saga familiar, contando a ascensão e queda dos Assumpção, desde um barão do império até os dias atuais. Não resta nada da antiga grandeza e poder.
Leite Derramado, editora Companhia Das Letras, 195 páginas, 2010





terça-feira, 24 de abril de 2012

Resenha nº 5 - Trem Noturno Para Lisboa, de Pascal Mercier

Resultado de imagem para livro trem noturno para lisboaExcelente romance suíço, com mais de dois milhões de exemplares vendidos no mundo, como anunciado na capa. “Um deleite para a alma. Um dos melhores livros que li nos últimos tempos.”, no parecer de ninguém menos que Isabel Allende.
O livro provocou alguns comentários infelizes de leitores menos avisados: foi chamado de livro sem enredo, extenso demais em suas elocubrações filosóficas. A verdade é que há enredo, embora mínimo; mas romances fortemente filosóficos ou psicológicos têm essa característica. A sequência de ações importa muito pouco, pois o foco recai, no caso do romance filosófico, nas ideias expostas; no caso do psicológico, na análise de situações sociais e indivíduos.
Há belas passagens, como por exemplo:
“Como é difícil para um pai se afirmar diante dos filhos! E como é difícil suportar a ideia de que nos inscrevemos em tuas almas com todas as nossas fraquezas, a nossa cegueira, nossos equívocos e a nossa covardia! Originalmente, essa ideia surgiu quando pensei na hereditariedade da doença de Bechterev que, graças a Deus, não passou para vocês.” (pág. 306)
“Vivo em mim próprio como num trem em movimento. Não entrei nele por livre e espontânea vontade, não pude escolher e sequer conheço o local de destino. Um dia, num passado distante, acordei no meu compartimento e senti o movimento. Era excitante, escutei o barulho das rodas, pus a cabeça para fora da janela, senti o vento e me deliciei com a velocidade com que as coisas passavam por mim. Eu queria que o trem jamais interrompesse sua viagem. De maneira nenhuma eu queria que ele parasse para sempre em algum lugar”. (pág. 389)
“Podemos estar certos de que, no leito de morte, e como parte do derradeiro balanço, uma parte tão amarga quanto cianeto, constataremos que desperdiçamos energia e tempo demais para curtir a irritação, obcecados em nos vingarmos dos outros naquele solitário teatro de sombras que apenas nós, os que o encenamos, impotentes, conhecemos. O que é que podemos fazer, então, para melhorar esse balanço? Por que nossos pais, professores e outros educadores nunca mencionaram isso? Por que nunca verbalizaram um pouco dessa imensa significação? Por que, nesse território, não nos foi dada uma bússola que pudesse ajudar-nos a evitar tamanho desgaste da alma em inúteis e autodestrutivas irritações?” (pág. 398)
“Nossa vida não passa de umas formações fugidias de areia movediça, constituídas por uma rajada de vento e apagadas pela próxima. Construções da futilidade que se dissipam antes mesmo de se constituírem.” (pág. 435)
Raimundo Gregorius é um professor de línguas clássicas, cultíssimo. Leva uma vida completamente presumível e sem surpresas; seu casamento também caiu na rotina de todos os dias. Entretanto, certo dia, debaixo de uma chuva torrencial, vê uma moça encostada à grade de uma ponte. Julga que ela vai se atirar de lá e corre a socorrê-la. É portuguesa de nascimento e para Gregorius os sons do português são apaixonantes. Encontra um livro do médico português Amadeu de Prado o Um ourives das palavras. Dedica-se a decifrar o texto numa língua que ainda não conhece e, tocado pelo texto belíssimo e intelectualmente inquietador, sai de sala no meio de uma aula e toma um trem noturno para Lisboa. Rastreia todos os passos de Amadeu, conhece seus amigos, sua história de vida, sua irmã e a mulher por quem fora apaixonado. A vida de Gregorius vira de ponta cabeça.
O nome do autor, Pascal Mercier, é o pseudônimo de Peter Bieiri, nascido em 1944, em Berna, Suíça. Vive atualmente em Berlim, onde é professor de Filosofia. Sob seu verdadeiro nome publicou, em 2001, o ensaio Das Handwerk der Freiseit.
Trem noturno para Lisboa é desses livros tornados referência numa biblioteca. É leitura recorrente e recomendável para aqueles desejosos de novas reflexões a respeito dos valores humanos e sociais.
O sucesso da obra tem sido tanto, que seu título se transformou em uma alusão à vontade ou à necessidade de mudança de vida: vou tomar um trem noturno para Lisboa.
Absolutamente imperdível!
Trem noturno para Lisboa. Editora Record,460 páginas, 8ª edição, 2011











Andanças Literárias

Bate às portas a Bienal do Livro, em sua versão 2012, na Expominas, de 18 a 27/05/2012. Como nunca é demais fazer propaganda de livros num país que quase não lê, vale a pena falar um pouco sobre o evento.

A Bienal deste ano vai contar com mais expositores de livros, uma parte reservada aos quadrinhos. É sinal de que a exposição pegou mesmo em Minas Gerais. A Feira do Livro, na Serraria Souza Pinto, já estava acanhada para o mercado mineiro.

Além do mais, a grande mostra bianual já é tradição em outros lugares do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, etc. Nós também precisávamos de uma, que contemplasse o nosso público leitor.

Quem já visitou a Bienal e gosta realmente de livros, sabe que o ambiente ali é mágico. São estandes numerosos, expondo livros de todos os gêneros, tamanhos e cores; respira-se uma atmosfera diferente, parece que tantas pessoas manipulando os livros forma uma “corrente de simpatia” à leitura. É fascinante, sobretudo, vermos os pequenos interessados em livros, jovens participando ativamente das discussões com os escritores. Eles são leitores em formação e depende do interesse, da motivação deles tornarmo-nos uma país onde se lê mais e melhor.

Sempre reservo algum dinheiro para comprar livros na Bienal. Se em qualquer livraria já é, para mim, uma compulsão levar algo para casa, imaginem num acontecimento desse porte.

Pretendo fazer uma coisa diferente, dessa vez: vou fotografar as minhas andanças por lá e depois exponho as fotos nesse blog.

sábado, 14 de abril de 2012

Anônimos

 

Cleuber Marques da Silva

Um guardanapo

Branco-amassado

Largado sobre a mesa

Recém-usada de um bar

Sobre ele um beijo

Em batom vermelho

Entre copos bebidos

Farelos diversos

O guardanapo

Vermelho-enfeitado

Ao lado do toco aceso

De um sonolento cigarro

Não manchado

Vive entre a proximidade

De um incêndio

E a solidão de um desejo