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domingo, 25 de novembro de 2018

Resenha nº 138 - O Segredo do Oratório, de Luize Valente


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Título Original: O Segredo do Oratório
Autora: Luize Valente
Editora: Record
Edição: 4ª
Copyright: 2012
ISBN: 978-85-01-09854-2
318 páginas
Gênero: Romance (Histórico)
Bibliografia da autora – Documentários – Israel: Notas e Raízes (em coautoria com Elaine Eiger), 1999; Caminhos da memória: A trajetória dos judeus em Portugal (em coautoria com Elaine Eiger), 2002; A estrela oculta do sertão (em coautoria com Elaine Eiger), 2005; Romances – O Segredo do Oratório, 2012; Uma praça em Antuérpia, 2015; Sonata em Auschwitz, 2017. Prêmios: Melhor documentário no Festival de Cinema Judaico de São Paulo, com A Estrela Oculta do Sertão, 2005; Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, com o romance O Segredo do Oratório, 2013.

A leitura do livro em mãos não estava engrenando. Sofri para concluir as trinta primeiras páginas. Não que o livro fosse ruim, longe disso. O primeiro conto já evidenciava a qualidade do texto. Mas, às vezes, é um livro certo num momento errado. Ou o tema, que no momento não nos sensibiliza. O fato é que mudei de livro, fui ler este O Segredo do Oratório, de Luize Valente. Já havia lido e resenhado o Uma  Praça em Antuérpia (resenha 124, neste blogue) e gostado muito. Lá estava o romance histórico, evidenciando muita pesquisa, mas com a mesma pegada de suspense. Desta vez, a história envolvia a legitimidade de uma descendente judia; ela queria reconhecida sua ascendência de cristã-nova, no Brasil. E enquanto nos atínhamos ao enredo empolgante, aprendíamos muita coisa a respeito deste tais cristãos-novos.

Luize Mendes Pinheiro Valente nasceu no Rio de Janeiro e é de ascendência portuguesa e alemã. Formada em jornalismo e pós-graduada em Literatura pela PUC-RJ, é fascinada por História, notadamente ligada às questões judaicas e os refugiados dos tempos de guerra. Como se vê em sua bibliografia acima, escreveu três romances: O Segredo do Oratório, Uma praça em Antuérpia e Sonata em Auschwitz. Seus livros já foram editados fora do Brasil; Uma praça em Antuérpia ganhou edição portuguesa pela editora Saída de Emergência, integrando a coleção História de Portugal em Romances. O Segredo do Oratório ganhou uma tradução holandesa pela Nieuw Amsterdam.

Em 2017, os direitos cinematográficos de O Segredo do Oratório e de Uma praça em Antuérpia foram adquiridos pelos produtores Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco) e Paula Fiuza (diretora do documentário Sobral).

Enredo: A professora Ethel Mendelstein vai a Recife dar uma conferência sobre os judeus submetidos à inquisição no Brasil, levando Ana como sua assessora. Mal sabe Ana que o destino lhe reserva uma verdadeira aventura, colocando-a em contato exatamente com Ioná, uma descendente judia que também já pesquisava, por conta própria, sua ascendência. Ioná quase derruba Ana na rua, sem saber quem ela é. Mais tarde, ao tentar um lugar para a conferência de Ethel, Ioná consegue fazer chegar por Ana um bilhete a ser entregue à conferencista. É o começo de tudo:
“Pegou a caneta e o bloco que sempre carregava na mochila. A perna como apoio, começou a escrever um bilhete. Tinha que ser breve para que ela não desistisse de ler só de olhar, tinha que ser instigante para que ela ficasse curiosa.
“Cara professora Ethel Mendelstein,
Meu nome é Ioná. Sou médica, nascida na Paraíba, e há um ano descobri que pertenço a uma família cristã-nova. Nenhuma grande surpresa para a senhora, já que os conversos chegaram ao território paraibano desde as primeiras expedições da colonização. O que me fez escrever este bilhete foi a revelação feita por uma tia-avó...” (página 32)
A professora Ethel, entretanto, não poderá dar atenção ao caso, por estar com viagem marcada para os EUA. Designa, então, sua assessora para ficar e apurar o que Ioná terá para dizer. Ana vê aquilo como uma possibilidade para, finalmente, deixar os muitos livros sobre o assunto e mergulhar numa pesquisa de campo.

Assim, Ana oferece ir de carro com Ioná para a cidadezinha de Córrego do Seridó, no interior paraibano. Uma viagem de 400 quilômetros, duas quase-estranhas dentro de um carro. E, enquanto viajam, Ana se inteira da história daquela marrana, que é como também são conhecidos os cristãos-novos.

A pressa de Ioná se justifica: ela recebera uma mensagem, no sentido de que viesse logo para aquela cidade, pois sua tia-avó (também de nome Ioná, como ela) estava à beira da morte. Apesar de todo o esforço, quando elas chegam a Córrego do Seridó, a parenta já havia falecido; conseguem apenas participar do enterro, em que vários rituais judaicos são reconhecidos por Ioná.
Mais tarde, ela fica sabendo que a tia-avó, prevendo a possibilidade de a sobrinha-neta não chegar a tempo, deixara-lhe instruções:
“— Sua tia-avó esperou o mais que pôde, mas Deus quis levá-la antes de sua chegada... Ontem, quando os anjos se aproximavam e quase se ouviam as trombetas do céu, pediu que as cantadeiras, o médico e o padre saíssem. Apontou o retrato e me fez prometer que o entregaria somente a você.” (página 110)
Os eventos a seguir levam Ana e Ioná a se hospedarem na casa do prefeito (que não por acaso é parente de Ioná) e depois, a visitarem uma propriedade erma, que em tempos melhores fora uma fazenda próspera. O atual proprietário, uma espécie de ermitão insociável e esquisitão faz parte do quebra-cabeça do passado de Ioná.

A obsessão por decifrar seu passado e ser reconhecida como judia convertida levam a protagonista médica até os Estados Unidos, mais especificamente na cidade de New York, onde ela rastreia sobreviventes dos primeiros judeus egressos do Brasil, quando o governo holandês de Maurício de Nassau terminou em nosso país.

Esta parte da história tem-se que explicar melhor. Os cristãos-novos no Brasil vieram de Portugal. Nossos irmãos lusitanos eram bastante tolerantes com os judeus, durante a inquisição. Entretanto, quando Portugal se associa à Espanha, uma das cláusulas para tal aliança era os lusos submeterem os judeus ao Tribunal da Inquisição. A saída possível foi a imposição de os judeus perseguidos serem aceitos, desde que jurassem publicamente fidelidade ao catolicismo, renegando sua fé, sendo chamados, a partir daí, de judeus conversos ou cristãos-novos.

Mas mesmo este arranjo teve problemas. Para ficarem “definitivamente” a salvo de qualquer ameaça de extermínio, vieram em massa para o Brasil, sobretudo para a área do nordeste. A Holanda sempre foi um país que lhes garantia sobrevivência; assim, foram se proteger, em nossas terras, sob a força política de Maurício de Nassau, holandês.

Para se garantirem – só estavam a salvo nas áreas em que o poder holandês era forte, sobretudo nas cidades grandes – os cristãos-novos se “camuflaram” de católicos, numa espécie de sincretismo religioso, obedecendo publicamente a preceitos católicos, mas na intimidade de seus lares abraçando a fé judaica.

Defenderam-se dos católicos constituindo endogamias, ou seja, casamentos entre os da própria família – tios distantes com sobrinhas, primos com primas – a fim de preservarem seus costumes e sua fé manifestada nos recessos dos lares. Isto justificou porque Ioná encontrou, em Córrego do Seridó, tantos parentes em casamentos consanguíneos.

Outro personagem importante, além dos já apresentados (a professora Ethel, Ana e Ioná), é Pedro, um genealogista (alguém que é especialista no estudo das origens das famílias e na confecção de árvores genealógicas) e por quem Ana se afeiçoa. Um outro relacionamento confuso, complicado, acontece entre Ioná e Daniel – outro personagem, mas sem a importância de Pedro. Pedro vai auxiliar em muito a pesquisa das duas, pois não só tem profundos conhecimentos de genealogia dos judeus, como também tem bons relacionamentos com outros profissionais.

Já na cidade de New York, Ioná se hospeda na casa da  brasileira Eva. Ela a leva até um dos locais icônicos dos judeus egressos do Brasil:
“— O primeiro cemitério — continuou Eva — fica na parte baixa da ilha, em Chinatown. Foi fundado ainda no século XVII, em alguns anos depois da chegada dos judeus  fugidos do Recife – como você bem sabe – em 1654! Já  este aqui é de 1805 mas foi desativado com menos de trinta anos... e parte dele destruída por causa das obras de expansão  que cortaram a 11th. Muitos corpos foram transferidos para um outro cemitério da comunidade portuguesa, o terceiro, que fica  a dez ruas daqui, na 21st. Resistiu até meados do século XIX... por volta de 1850 a prefeitura proibiu enterros em Manhattan... a partir daí os cemitérios foram para o Queens, do outro lado do rio!” (página 260)
O que Ioná em crise busca na Big Apple, como ficou conhecida a grande cidade americana, é seu reconhecimento oficial como cristã-nova e, para isto, marca uma reunião com o tribunal rabínico, o Beit Din, onde poderá conseguir seu intento, apresentando sua história, seus argumentos e seus documentos.

A história poderia terminar por aqui e já seria uma boa história. Investigações, viagens, descobertas, a obsessão de Ioná, os problemas particulares de Ana, a aura de mistério a ser decifrado, envolvendo o oratório que aparece na fotografia deixada pela tia-avó que falecera, o estranho pedido desta para que Ioná fosse rezar por uma menina morta e enterrada na propriedade do primo esquisitão...

Mas Luize Valente é uma ótima escritora, sabe das estratégias de se escrever um romance; e, quase no final (não é um spoiler), a figura apaixonante do velho cristão-novo Menachen – em quem Ioná tinha esbarrado antes, se desculpando em português e com surpresa recebendo uma resposta dele também em português – uma pessoa para quem o acúmulo dos anos vividos trouxe uma sabedoria a toda prova:
“— Mas que coincidência encontrar o senhor aqui! Confesso  que ouvir o português na Sephardic House me deixou emocionada! No dia seguinte voltei lá mas acabei não entrando... – falou Ioná, sem jeito.
— Eu não acredito em coincidências, acredito em destino – respondeu ele sem estranhamento, como um velho conhecido. — E se você está aqui neste exato momento, a poucos minutos do surgimento da primeira estrela no céu, é um sinal para que este velho ermitão a convide para o Shabat! É uma honra ter em minha casa uma conterrânea de meus antepassados, da terra em que nunca estive! – As palavras saíram precisas, com forte acento português.
Ioná custou a acreditar que estivesse em frente de um judeu nascido nos Estados Unidos que nunca tinha cruzado o Atlântico ou descido as Américas.” (páginas 283/284)
O Segredo do Oratório, um grande romance histórico, feito por quem já havia mergulhado, em regime de coautoria, em algumas produções de documentários sobre os judeus. Este é um capítulo importante da história do Brasil, infelizmente desconhecido dos estudantes. Eu mesmo desconhecia quase por completo esta parte da história; fico feliz por resgatá-la, por meio de um romance tão bom.

Narrativas históricas têm esta característica: nos ensinam história de uma maneira prazerosa, humana. Não é à-toa que gostei tanto de ter lido o tijolaço Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, em que outra importante fatia de nossa história é desbravada, a revolta dos malês.

Coloco apenas um senão, algo que me soou como uma informação desnecessária para o leitor: Luize Valente insiste na importância de um ferro de marcar gado, visto na varanda da casa do prefeito de Córrego do Seridó. O leitor constata, a certa altura do texto, que tal ferro de marcar tem o feitio de uma chave, se se descartar a parte que queima o couro dos animais. Tal informação não serve para nada. Morre aí. Implicância minha? Pode ser, afinal, todos nós temos nossas perspectivas de leitura. É que eu esperava, sinceramente, induzido pelo clima de mistério do romance, que tal chave, disfarçada de ferro de marcar, servisse afinal para abrir alguma revelação até então oculta. O pretenso deslize em nada desmerece O Segredo do Oratório.

Recomendo esta leitura a quantos leiam este modesto blogue. Não acho, como li em um parecer de uma leitora, que este livro só interesse a quem seja judeu ou cristão-novo, ou a quem tenha interesse específico no assunto tratado. Não, é um livro muito bom, a gente o lê com prazer estético e histórico.

Talvez, no mês de dezembro seja a hora de ler o terceiro livro de Luize (já estou querendo fazê-lo), Sonata em Auschwitz. Tenho certeza, vou gostar; as leituras de Uma Praça em Antuérpia e O Segredo do Oratório me garantem isso.


sábado, 17 de novembro de 2018

Resenha nº 137 - A Conquista da Opinião Pública, de Patrick Charaudeau


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Título original: La Conquêt du Pouvoir : Opinion, Persuasion, Valeur
Título em português: A Conquista da Opinião Pública
Autor: Patick Charaudeau
Tradutor: Ângela M. S. Corrêa
Editora: Contexto
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-7244-960-1
Gênero: Análise do Discurso (Político)
Bibliografia do autor (incompleta): Langage et discourse: élements de semiolinguistique, 1983; A Palavra Confiscada: um gênero televisivo, 1997; Grammaire du Sens et de l’expression, 1992; Discurso das Mídias, 1997; Dicionário de Análise do Discurso, 2002; Linguagem e Discurso: Modos de Oranização, 2008;  Discurso Político, 2008.

Motivado pelo recente processo eleitoral brasileiro, adquiri este A Conquista da Opinião Pública – Como o discurso manipula as escolhas políticas. A leitura de um livro acadêmico requer sempre um investimento em esforço intelectual; portanto, deverá ser uma leitura mais detida, reflexiva. Há que se entender conceitos, argumentações e o arcabouço teórico no qual tais reflexões se darão. Muita gente acha extremamente chato este tipo de leitura. Concordo, ele requer disciplina e nos prende ao campo sisudo da teorização metódica. Mas, nem por isso deverá ser chato. E, à medida que o lia, ia me encantando com a excelência do livro que tinha em mãos. Afinal, o livro pertence à minha área de formação e eu já contava com conhecimentos de Análise de Discurso – vertente francesa. Patrick Charaudeau é um especialista no assunto e criador mesmo desta tendência a que pertence o exemplar, a semiolinguística.

Patrick Charaudeau é um linguista francês, especialista em Análise de Discurso. Nasceu em 1939, contando hoje, portanto, com 79 anos de idade. É fundador da Teoria Semiolinguística de Análise de Discurso. É professor da Universidade Paris-Nord (Paris XIII). Junto com outro linguista de peso, Dominique Maingueneau, publicou o Dicionário de Análise de Discurso.

Mas, afinal de contas, o que é essa tal de Análise de Discurso, me indagará o leitor deste blogue. E aí está uma dificuldade, meu caro leitor. Não é intenção deste blogue tratar de assuntos acadêmicos, ainda mais da área linguística, vasta e desconhecida do grande público. Mas, este é um dos livros que li e, seguindo este contrato - resenhar livros que leio -, pensei em resenhá-lo. Vamos tentar, portanto, dar uma ideia desta importante teoria que hoje não se restringe mais aos estudantes de Letras e se derrama sobre as Ciências da Comunicação e as Ciências Políticas.

Segundo o próprio Dicionário de Análise do Discurso, no verbete próprio,
“análise do discurso [é uma] disciplina relativamente recente, que constitui o objeto deste dicionário. À análise do discurso podem-se atribuir definições as mais variadas: muito amplas, quando ela é considerada como equivalente de “estudos do discurso”, ou restritivas quando, distinguindo diversas disciplinas que toma o discurso como objeto, reserva-se essa etiqueta para uma delas.” (página 43, op.cit.)
Não adiantou muito, não é mesmo? Vamos ver se damos uma ideia melhor.

Análise do discurso é uma área dos estudos da linguagem que aborda o que se diz e o que se escreve do ponto de vista da mensagem que se quer passar, examinando o que foi dito, o que não está dito, mas compõe a intencionalidade do sujeito, levando em conta a cultura (contextualização) da produção do texto; estuda como esta mesma mensagem poderá ser recepcionada pelo ouvinte.

 Examina o discurso produzido pelas pessoas mais ou menos como um psicanalista examina o discurso do seu paciente, fazendo relações entre o que ele está dizendo, o que ele não quer dizer, mas cujos rastros o denunciam e até mesmo suas manipulações verbais.

O campo em que esta teoria é particularmente interessante é exatamente na interação entre uma ou mais pessoas e seu público. O discurso político se presta a este tipo de análise, porque o político, pelo próprio jogo sócio-discursivo, submete seu público a intencionalidades ocultas, no sentido de obter determinado resultado favorável a ele. Então, tentará não se expor demais, não dizer mesmo coisas que possam comprometer sua campanha:
“A questão do político – ou da política – é, ao mesmo tempo, simples e complexa. Simples, se for abordada pelo viés da opinião: trata-se de ser a favor ou contra um projeto de sociedade, a favor ou contra tal partido, a favor ou contra um determinado político (homem ou mulher). Se essa opinião for expressa num voto, na participação em uma manifestação, numa ação militante ou simplesmente durante uma discussão, a questão política se reduz à de uma tomada de posição mais ou menos argumentada.” (página 9)
Ora, concepção muito cara à análise do discurso é que quando nos comunicamos, o fazemos considerando determinado papel e dizemos o que esta instância social deve dizer. Se sou um professor no exercício da profissão, digo as coisas que devo dizer como profissional, uma vez que a sociedade (pais, alunos, outros profissionais) espera de mim exatamente isso. Já no exercício de pai, por exemplo, assumo outro discurso que me valide como pai.

Portanto, podemos deduzir disto duas coisas: primeiro, exerço vários papéis dentro de cenários sociais cambiantes; segundo, para cada um destes papéis tenho discursos diferentes. E mais, como nem sempre posso dizer tudo aquilo que em off penso, importa que todo discurso é uma manipulação do interlocutor.

Manipulação é uma palavra que ganhou sentido bastante pejorativo, como um meio de alguém enganar o outro. Não é esse sentido em que ela é usada aqui; para Aristóteles, manipulação era uma estratégia para se fazer o bem. Realmente, há coisas inadequadas para se dizer dentro de certo cenário social. Já pensou, leitor, se um presidente for para os meios de comunicação e, num rasgo de sincericídio, dizer abertamente: “meus caros eleitores, o Brasil está com a economia completamente quebrada”? Ao contrário, esconderá esta constatação e emitirá votos de confiança na recuperação econômica do país (e, se você for bom entendedor, constatará que sim, a própria emissão de votos de confiança na recuperação é evidenciação de que ela vai mal).

Patrick Charaudeau examina a questão da nossa identidade. Diz ele que
“A questão da nossa identidade, entre o individual e o coletivo, não é simples. Desejaríamos ser únicos, mas dependemos dos outros. Acreditamos ter uma opinião pessoal, mas logo percebemos que ela não é exclusivamente nossa. Em outros momentos queremos nos sentir em comunhão com os outros, mas, ao mesmo tempo, ao ver como funciona o grupo, temos medo de perder nossa singularidade. É uma ilusão acreditar que nossa identidade é única e homogênea. Somos, simultaneamente, o que não é o outro e o que ele é. E mesmo quando gostaríamos de nos ver como únicos, o olhar do outro se encarrega de nos enviar uma imagem de nós mesmos, um aspecto de nossa identidade que varia em função dos diferentes olhares que pousam sobre nós.” (páginas 23/24)
Todos nós manipulamos e somos manipulados. Pelo nosso discurso e pelo discurso do outro. A tal pretendida “transparência”, dentro da ótica da análise do discurso, não é possível. O jogo de esconde-mostra, do dito e do não dito, faz parte da atuação em sociedade. Muitas vezes, e você mesmo já deve ter notado isto em algum momento de sua vida, semiocultamos algo porque não queremos ferir a suscetibilidade de alguém, mas queremos passar a mensagem para outra pessoa, próxima. Nosso discurso sai ambíguo, mas com pistas para que a terceira pessoa, fora do diálogo, perceba o que quero dizer.

Para tornar o que digo um pouco mais claro, transcrevo um excelente trabalho de um dos humoristas mais inteligentes deste país, Millôr Fernandes:
A Vaguidão Específica

"As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica."Richard Gehman

- Junto com as outras?
- Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.
- Sim senhora. Olha, o homem está aí.
- Aquele de quando choveu?
- Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
- Que é que você disse a ele?
- Eu disse pra ele continuar.
- Ele já começou?
- Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.
- É bom?
- Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
- Você trouxe tudo pra cima?
- Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera.
- Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.
- Está bem, vou ver como.
       - Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.

Para além do humor evidente do texto, perceba como um diálogo pode ser fortemente obscuro, com os falantes alternando, a seu turno, falas cheias de “buracos de entendimento”. É a intimidade das pessoas, a interação entre sujeitos que se conhecem bastante, que completa o que falta, que preenche esses buracos.

Em toda democracia há um contrapoder. Temos o poder exercido pelos governantes, pelo poder constituído, mas sempre será necessário a estes representantes eleitos uma necessidade de não dizer mais do que será preciso, sob pena de fornecer lenha à fogueira:

“Não existe democracia sem contrapoder. Mas de onde vem o contrapoder? Ele não vem somente do que se chama de “oposição”. Num regime democrático, por não ser majoritária, seu peso fica enfraquecido. A oposição pode ter sempre uma certa influência, de cima para baixo, quando do trabalho das comissões parlamentares, ao votar ou não votar emendas às leis, e pelos comentários que pode fazer sobre ações do governo, comentários aos quais as mídias darão mais ou menos visibilidade. O contrapoder também, e talvez principalmente, o que vem da instância cidadã. Este é o lugar da opinião, que discute e é mandatária de representantes segundo um princípio de confiança.” (páginas 157/158)
Outro dia, vi um representante do futuro governo emitir o parecer que “as pesquisas não retratam a verdade, precisam de mudança de metodologia”. É parte do problema. As pesquisas têm validade relativa, elas apenas são um instantâneo, mostram uma fotografia de um momento. Basta que tal candidato pise na bola e diga algo que seu eleitorado não goste para, num momento pouco adiante, ele cair nas pesquisas. Além do mais, os institutos de opinião e pesquisa parecem, deliberadamente, não considerar que seus pesquisados podem mentir. E mentem: se a explicitação do voto ao candidato que se quer lhe trouxer problemas (candidato com alto índice de rejeição, por exemplo), o consultado ocultará sua verdadeira intenção de voto.

Para que você, caro leitor, não fique tristinho com tantas reflexões, incomodado com a ideia da manipulação, transcrevo um último trecho, para sua degustação (e possível vingancinha):
“A massa não constitui mais um amálgama homogêneo de indivíduos com opinião e comportamento únicos. A massa explodiu numa multiplicidade de grupos que tomaram consciência de sua existência, de seus direitos e, assim, de seu direito de reivindicar, e, fenômeno ainda mais recente, graças à cumplicidade das mídias, de seu poder de pressão junto à autoridade política. À medida que o nível de vida aumenta, que a educação se desenvolve e que o saber se expande, a consciência cidadã torna-se mais esclarecida, mas ao mesmo tempo mais complexa.” (página 168)
Excelente leitura, a deste A Conquista da Opinião Pública. Não é livro para andar na mão de leitores iniciantes, é certo. Mas sempre se poderá tirar algum proveito dele, mesmo em não se sendo da área de linguística. Pode-se não ter compreensão do alcance da teoria da análise do discurso; entretanto, para aqueles que gostam de ler textos argumentativos bem escritos, este é uma mão na roda para se inteirar melhor do que está em jogo nas campanhas, nos processos políticos postos a funcionar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Resenha nº 136 - O Homem Mais Inteligente da História, de Augusto Cury


Título original: O Homem Mais Inteligente da História
Autor: Augusto Cury
Editora: Sextante
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-431-0435-5
Gênero literário: Romance
272 páginas
Bibliografia do autor (incompleta): Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, 2003; Filhos Brilhantes, Alunos Fascinantes, 2007; O Mestre dos Mestres, vol. 1, O Mestre da Sensibilidade, vol. 2, O Mestre da Vida, vol. 3, O Mestre do Amor, vol. 4, O Mestre Inesquecível, vol. 5 – todos de 2006; O Vendedor de Sonhos: O Chamado, 2008; O Vendedor de Senhos e A Revolução dos Anônimos, 2009; O Semeador de Ideias, 2009. De Gênio e Louco Todo Mundo Tem Um Pouco, 2009; O Código da Inteligência, 2008; O Código da Inteligência: Guia de Estudo, 2009; O Código da Inteligência e A Excelência Emocional, 2011; Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século, 2013; Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século, para Filhos e Alunos, 2015; Ansiedade – Autocontrole – Como Controlar o Estresse e Manter o Equilíbrio, 2016; Os Segredos do Pai-Nosso, 2007; A Sabedoria Nossa de Cada Dia: Os Segredos do Pai-Nosso, 2007; Petrus Logus – O Guardião do Tempo, 2014; Petrus Logus – Os Inimigos da Humanidade, 2016; O Homem Mais Inteligente da História, 2016; O Homem Mais Feliz da História, 2017; Amor e Sacrifício, 2018.

Uma querida amiga me emprestou este O Homem Mais Inteligente da História, de Augusto Cury. Conheço o autor superficialmente, de tanto ver seus livros expostos em gôndolas de livrarias e pela frequência dele entre os livros mais lidos do ano. É indiscutivelmente, um autor que tem seu público, respeito isso. Entretanto, provavelmente, se minha amiga não o tivesse emprestado, não o teria lido, por impulso próprio. Teria perdido, desta forma, uma boa oportunidade de conhecer Augusto Cury; normalmente, o autor é relacionado a livros de autoajuda e este não é, decididamente, um gênero que eu frequente. O Homem Mais Inteligente da História, lido sem qualquer tipo de preconceito, foi uma grata surpresa. Tanto assim, que estou considerando seriamente se compro um exemplar para releitura, seguido do volume dois, O Homem Mais Feliz da História e do volume três, Amor e Sacrifício. Estou pensando.

Augusto Jorge Cury nasceu em 02/10/1958, em Colina, São Paulo. Fez o curso de medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, tem doutorado internacional em Administração de Empresas pela Florida Christian University (2013). Possui, ainda, título livre em psicanálise e dedicou-se à pesquisa sobre as dinâmicas da emoção. Conta também com pós-graduação pelo Centre Medical Marmottan, em Paris, e na PUC de São Paulo. É considerado o autor mais lido dos últimos dez anos no Brasil; recebeu o prêmio de melhor ficção do ano de 2009 da Academia Chinesa de Literatura, pelo livro O Vendedor de Sonhos, adaptado para o cinema em 2016, em produção brasileira dirigida por Jayme Monjardim.

Com a publicação de Inteligência Multifocal, em 1999, ele apresentou mais de trinta elementos essenciais para a formação da inteligência humana, como o processo de interpretação e fluxo vital da energia psíquica. Desenvolveu o projeto Escola da Inteligência, que tem como principal objetivo a formação de pensadores por meio de aprendizagem das funções intelectuais e emocionais mais importantes, como pensar antes de agir, proteger a emoção, colocar-se no lugar dos outros, expor e não impor as ideias.

O psiquiatra Marco Polo é famoso e respeitado; cientista especializado no funcionamento da mente e autor do primeiro programa mundial de gestão de emoção, participa de uma reunião na ONU. É desafiado a estudar a inteligência de ninguém menos que Jesus Cristo. O dificultador: Marco Polo é ateu.

Quando a plateia o instiga, ele decide abraçar o desafio, impondo a condição de fazerem uma abordagem à luz da ciência e não da religião. É seu mote: "quando a fé entra, a ciência sai". Mergulha fundo nos estudos sobre a mente e a personalidade de Jesus; parte para um debate com Michael, neurocientista, Dr. Alberto, teólogo católico, Dr. Thomas, teólogo protestante e Sofia, secretária de Marco Polo e moderadora do evento.

Partirão do estudo do Evangelho de Lucas, numa interessante composição interpretativa entre dois teólogos e dois ateus:
“Chegando ao local do evento, sentaram-se na última fileira como no dia anterior. Sofia respirou lentamente. Olhou para Marco Polo e o viu tenso. Havia 55 pessoas presentes. Logo reconheceram os preletores: o professor doutor Alberto Mullen, teólogo do Vaticano, tão respeitado que algumas pessoas torciam para que um dia ele fosse papa. O outro conferencista era Thomas Hilton, protestante, doutor em teologia por Harvard, escritor renomado.” (página 56)
A eles se juntará, a convite de Marco Polo, o neurocientista Dr. Michael Herman.

A proposta de análise de Marco Polo partirá de um conjunto de dez habilidades básicas de Jesus:
  1. Habilidades de gestão e emoção;
  2. Capacidade de filtrar estímulos estressantes;
  3. Competência para debelar focos de tensão e se reinventar no caos;
  4. Capacidade para libertar seu imaginário e desenvolver a criatividade;
  5. Resiliência e limiar para suportar frustrações;
  6. Prazer sustentável e capacidade de contemplar o belo;
  7. Capacidade de pensar antes de reagir e autocontrole;
  8. Capacidade de ser empático e de construir pontes interpessoais;
  9. Habilidade de formar pensadores e mentes brilhantes;
  10. Capacidade de ser autor da própria história e consciência crítica.

Em sua vida particular, entretanto, Marco Polo vive seus problemas. Sua esposa contrai uma doença rara, de difícil tratamento. Seu filho adolescente, Lucas, em decorrência de tais dificuldades, torna-se um usuário de drogas.

No plano mais geral da narrativa, o debate entre os quatro convidados começa; aos poucos, as análises de Marco Polo vão dando o tom, não de ateus contra religiosos, mas numa integração de pareceres que convergem para uma avaliação firmada sob a psicologia, sociologia e psicopedagogia.

A personalidade de Marco Polo se impõe, na condução do debate:
“Marco Polo era um pesquisador raro. Usava muito mais do que o método socrático para fomentar perguntas: usava a arte da dúvida como um bisturi para penetrar em camadas mais profundas dos textos que lia, para revivê-los, dissecar suas implicações e enxergar seus limites e alcances. Tudo isso para ver os fatos com a menor contaminação possível. Por isso não se poupava, questionava suas proposições a cada instante. Queria enxergar o mundo como ele é, não como gostaria que fosse.” (página 162)
As análises sobre Jesus vão, pouco a pouco, transformando não só a concepção comum sobre o Cristo, como também vão mexendo em suas vidas – do ponto de vista intelectual e emocional. Afinal, reverem o que sabem sobre o nazareno altera tanto a vida daquelas cinco pessoas diretamente envolvidas no debate, quanto as de milhares de outras, que acompanham os estudos via internet.

Uma pitada de suspense é acrescentada à narrativa: atentados começam a acontecer, no sentido de fazer aquela sequência de revisões sobre a figura intocável de Jesus cessarem:
“O tumulto foi grande, pessoas caíram umas por cima das outras. Pânico, choro, gritos por todos os lados. Marco Polo teve de proteger Sofia para ela não ser pisoteada. Felizmente ninguém se machucou. Mas, se não fosse pelo atraso, as consequências seriam terríveis. Não apenas os debatedores estariam mortos, mas muitos membros da plateia também.
A polícia especializada em ataques terroristas teve de revistar cada canto da universidade. Era a primeira vez que uma bomba explodia dentro da instituição. Os debatedores foram longamente interrogados. Sofia chorava apoiando-se no ombro de Marco Polo.” (página 250)
O Homem Mais Inteligente da História foi nitidamente concebido como primeiro elemento de uma série, pois termina, isto é, não termina, com a suspensão da narrativa em um enorme “gancho”, a ser retomado no segundo volume, O Homem Mais Feliz da História. Esta forma de compor uma série é diferente da de formatar as séries modernas: atualmente, mesmo fazendo parte de uma trilogia, cada volume tem o seu final, constituindo um volume independente.

Este livro é o que podemos chamar de roman à thèse:

« Le roman à thèse est une expression utilisée en littérature pour classer des romans dans lesquels la réflexion philosophique, politique, scientifique ou religieuse prime sur l'histoire. Ce sont des romans mettant en scène des personnages destinés à illustrer ou représenter des concepts ou des courants philosophiques. Il s'agit d'un genre didactique qui naît principalement au xviiie siècle, avec les Lumières, à travers des auteurs tels que Denis Diderot ou Voltaire. L’œuvre se veut réaliste, « fondée sur une esthétique du vraisemblable et de la représentation » (Wikipedia).

“Romance de tese é uma expressão utilizada em literatura para classificar os romances nos quais a reflexão filosófica, política, científica ou religiosa preponderam sobre a história. Estes são os romances que põem em cena personagens destinados a ilustrar ou representar os conceitos ou as correntes filosóficas. Trata-se de um gênero didático que nasce principalmente no século XVIII, com os iluministas, por meio de autores tais como Denis Diderot ou Voltaire. A obra se quer realista, “fundada sobre uma estética da verdade e da representação.” (tradução livre)

E, por conta desta característica de roman à thèse, temos alguns problemas neste O Homem Mais Inteligente da História, segundo minha leitura.

Alguns diálogos me pareceram terrivelmente artificiais, como por exemplo:
“Países ricos podem ter um povo com baixos níveis de felicidade e vice-versa. O que acham da tese da FIB?
— Fascinante – disse Sofia.
— Encantadora – assegurou o Dr. Thomas.
— Espetacular – confirmou o Dr. Alberto.
— Admirável – declarou Michael.” (página 260)
Durante o debate, contando com ateus e religiosos, mesmo em se tendo proposto que Jesus seria analisado sob a luz da ciência, tanto os ateus quanto os religiosos abrem mão, generosamente demais, de suas posições longa e densamente construídas diante da argumentação apresentada por Marco Polo. Que ele, ateu, tenha se convencido, após profundo estudo, é aceitável; não será, do meu ponto de vista, o aceite sem intensa contra argumentação dos outros, no calor do debate.

Outro ponto a discutir, sempre dentro da minha leitura, é que não temos propriamente personagens, mas sim tipos. Explico-me: a diferença entre personagens, propriamente ditos e os tais tipos, é que aqueles são mais densos, mais individualizados; já estes, são planos, sem densidade psicológica. Isso é normal acontecer num roman à thèse e é exatamente por isso que, em sentido amplo, esta classificação acaba por se contagiar de um sentido pejorativo. Enredo e construção de personagens perdem para a defesa de ideias ou ideais.

Você leitor esperto, já identificou no tamanho do drama avaliativo em que me meti com a leitura deste O Homem Mais Inteligente da História. Não demora, e você dispara:

E aí, gostou do livro?

A resposta parece vir de cima do muro: sim e não. Vou tentar colocar ordem na casa, sem saber se o convenço ou não.

Gostei, sim: a análise da inteligência de Jesus é muito interessante, traz para a discussão uma série de observações em que não pensáramos antes. As propostas são inteligentes, feitas com propriedade, por quem milita com o assunto.

Não, não gostei: como romance, do ponto de vista de um artefato literário, o livro sofre de alguns pontos mal realizados. Alguns, já abordei: personagens planos demais, parecem uns extensão dos outros; além do mais, as cenas ditas dramáticas não têm a carga de dramaticidade que deveriam ter; o enredo tem flutuações ao longo da história, com muitos altos e baixos.

Pela apresentação das ideias, pelas análises, eu compraria a trilogia toda – ou talvez preferisse os cinco volumes de não ficção, a caixa contendo os “Mestres” (aborda, à maneira de ensaio as teses de Cury) relacionada na bibliografia de Augusto Cury.

Difícil emitir uma opinião mais embasada sobre o autor, pois não li outros volumes ficcionais dele, tão lido e publicado no exterior. Parece que o melhor dos seus trabalhos é O Vendedor de Sonhos. Virou filme, que também não vi.

Enfim, se você é um leitor curioso como eu, que aceita ler alguma interpretação diferente da canônica sobre a figura sempre interessantíssima de Jesus Cristo, leia o livro. É o que tenho para hoje.

sábado, 3 de novembro de 2018

Resenha nº 135 - Os Leões de Bagdá, de Brian K. Vaughn e Niko Henrichon


Resultado de imagem para livro os leões de BagdaTítulo original: Pride of Baghdad: The Deluxe Edition
Título em português: Os Leões de Bagdá: Edição de Luxo
Roteiro: Brian K. Vaughn
Desenhos: Niko Henrichon
Editora: Panini Books (Vertigo)
Copyright:2018
ISBN: 978-85-8368-284-4
Gênero: Graphic Novel
Origem: América do Norte
Páginas: 168
Bibliografia Brian K. Vaughn: Runway (Fugitivos), 2003; Pride of Baghdad, 2006; Y: The Last Man, 2002 ; Ex-Machina, 2004. Prêmios : Eisner Award em 2005, 2013 e 2014.

Sempre tive uma ligação muito forte com revistas em quadrinho. Lembro-me de ter muitos exemplares de O Fantasma, Roy Rogers, Cavaleiro Negro, Zorro, Tio Patinhas, Mickey, Pato Donald. Havia também o Batman, o Super-homem, Flash Gordon, Príncipe Valente. A maioria delas, em branco e preto. Eu as levava sempre para trocar por outros exemplares, na porta de um cinema de bairro, pertencendo ao meu primeiro clube de leitura, ainda que informal. Minhas professoras, na época, vivam dizendo que não devíamos ler este tipo de literatura, certamente elas viciavam e deixavam os leitores preguiçosos, por causa do grande foco nas imagens. Devorava tanto aquelas revistas quanto os livros mesmo, e sou prova de que a arte sequencial – como é chamada agora – nunca tornou leitores preguiçosos. Depois, veio uma fase em que me distanciei destas publicações; hoje, volto a me aproximar delas com o mesmo gosto de antes. As Graphic Novels – Romances Gráficos – são edições maravilhosas, bem-cuidadas: Sandman, de Neil Gaiman, Jornada nas Estrelas, Guerra nas Estrelas.

Os Leões de Bagdá, com argumento de Brian K. Vaughn, desenhos de Niko Henrichon e letreirismo de Todd Klein é uma festa para os olhos. Em 168 páginas belas, conta-se a história verídica de quatro leões que fugiram do zoológico da cidade de Bagdá, bombardeada pelo exército americano na Guerra do Iraque, conflito que teve seu início em 23 de março de 2003. Brian utilizou a realidade dos fatos, até certo ponto, emprestando à história um tom de fábula distópica, em que os personagens centrais são o leão Zill, as leoas Safa e Noor e o filhote macho, Ali; o antagonista será o enorme urso preto, Fajer. É uma produção luxuosa, de capa dura, contendo ainda muito material de apoio, como dossiê de personagens, o argumento escrito por Brian, os comentários feitos pelo roteirista sobre a simbologia da fábula.

Ficam muito claras as águas onde Brian bebe: Neil Gaiman, uma pitada do desenho da Disney, O Cão e A Raposa; algo de O Rei Leão, pincei também ecos de O Corvo, célebre poema de Edgar Allan Poe, referências ao 1984 e A Revolução dos Bichos, ambos de George Orwell. A maior parte destas observações estão explícitas no próprio esboço dos personagens e roteiro do livro.

O enredo: na Guerra do Iraque, caçando Saddam Hussein, os aviões americanos despejam bombas sobre a capital, Bagdá, e quatro leões fogem do zoológico da cidade. Perambulam pelas ruas, cheias escombros, famintos e magros. Entram no palácio da família Hussein e lá têm de enfrentar um gigantesco urso negro. Terão também, de enfrentar o exército americano.

Os Leões de Bagdá começa com um pássaro, possivelmente um corvo, repetindo à exaustão “o céu está caindo! O céu está caindo!” O ambiente é ainda o zoológico, onde tratadores garantem a subsistência dos animais ali presos. Os diálogos entre os animais são inteligentes e ajudam a caracterizar a personalidade de cada um destes personagens.

Assim, Zill é um leão que viveu em liberdade, na África, por pouco tempo; é agradecido pela comida que lhe dão, apesar de sentir um pouco de saudade dos tempos livres. É o patriarca da família leonina.

Safa é uma leoa mais velha, ex-amante de Zill, cega de um olho, de uma refrega com um leão nos tempos da África. Ela não entende como os outros leões pensam em deixar a segurança do zoológico.

Noor é a atual amante de Zill, mãe do pequeno Ali. Extremamente protetora em relação ao seu filhote, Noor mal se lembra dos tempos africanos, mas tem certeza de que a liberdade é preferível à segurança e conforto do zoo.

Ali é um filhote buliçoso, à cata de aventuras (leia-se, presas), não conhecendo nada do que seja a vida selvagem. Inconsequente, como são normalmente os muito novinhos, tem, entretanto, respeito pelos seus familiares.

Fajer, por fim, é o antagonista da história, um urso negro e que não poupa ninguém. Muito forte e selvagem, fugiu do zoo quando uma bomba arrebentara com o seu espaço; não suporta dividir seu território com qualquer outro animal (o encontro se dá no palácio dos Hussein).

Os traços com que são desenhados estes personagens não os antropomorfiza; são representações reais de leões, andando de quatro, tendo relações sexuais, atacando suas presas. Entretanto, possuem uma psique humana e têm o dom da comunicação por palavras.

Noor representa os jovens reformistas iraquianos, aqueles que desejam, de fato, uma democracia. Ela tenta, há muito tempo, convencer os outros animais do zoo de que é possível fugir, desde que todos se juntem num mesmo projeto; ela prega no deserto, entretanto, pois ninguém leva em conta o que ela pretende.

Safa, a leoa mais velha do bando, simboliza aqueles iraquianos que são fanáticos por Saddam Hussein. Quando, após a destruição do zoo, e liderados por Noor, os leões se afastam do seu cativeiro, ela simplesmente os segue, sem qualquer convicção, porque sabe que, se ficar entre os escombros do zoo, ela não terá chance de sobrevivência.

O filhote Ali representa as crianças iraquianas, que, em seu alheamento infantil, não entendem o que acontece realmente, quem seja Saddam Hussein ou mesmo George Bush, presidente americano que ordenou o ataque às terras iraquianas. Seu mundo de referência é sua família.

Fajer, o urso-antagonista, encarna os leais a Saddam e os terroristas dispostos a fazer qualquer coisa para se vingar do inimigo. Ainda no campo dos antagonistas, o próprio zoológico representa as forças repressivas e cerceadoras de Saddam Hussein, mantendo em cativeiro todos os personagens.

Tanto os tratadores quanto os soldados do exército americano são identificados por detalhes – um braço, homens de costa, vultos ao longe – sem qualquer identificação, a não ser pelo uniforme e armamento.

Os Leões de Bagdá é uma obra de cunho social e político – político, aqui, em seu sentido mais amplo, aproximando-se do sentido de engajamento. Mas, é bem mais do que isso: propõe a aguda oposição liberdade/cativeiro. O jogo de interesses entre Noor (defensora da liberdade, ainda que corra risco de morte) e Safa, clara defensora do cativeiro com benesses (segurança, conforto) é discutido ao longo da história.

Entretanto, como disse Brian em seu roteiro, ele, Brian, não tem interesse em resolver a questão posta, não toma partido nem da liberdade com risco, nem do cativeiro confortável. A questão incômoda é colocada nas mãos do leitor, para que ele se posicione.

Parece que, no início, conforme relata o roteirista, pensou-se em colocar uma coruja para repetir “o céu está caindo”; entretanto, depois optou-se pela figura esguia de um corvo e aí é impossível não se pensar no mesmo corvo simbólico de Poe, repetindo seu exaustivo “never more (nunca mais)”.

Os Leões de Bagdá é um lídimo representante das Graphic Novels atuais. São muito evidentes as características literárias presentes na obra. Os diálogos são bem estruturados, há uma preocupação, um cuidado artesanal, tanto no nível de linguagem quanto nos desenhos. Uma paleta de cores integrada ao que retrata cada capítulo só acrescenta elementos expressivos à mensagem que se quer construir.

Cada um dos seis capítulos, em que não há identificação por título, há uma abertura com um quadrinho ocupando a página toda.

Recomendo entusiasticamente a leitura deste Os Leões de Bagdá. Felizmente, temos aqui no Brasil editoras especializadas na produção de caprichada literatura em quadrinhos, dos quais a mais nova tem um nome, no mínimo, curioso: Pipoca & Nanquim. Na França, por exemplo, as Graphic Novels contam com uma importante produção e distribuição, inclusive com excelentes adaptações de clássicos da literatura, como pude comprovar numa livraria visitada em Paris.

A Bélgica é, talvez, o maior centro de produção destes livros de arte sequencial. Há até um museu dos quadrinhos; que pena, quando passei por lá era feriado e o museu estava fechado.