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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Resenha nº 132 - Fantasmas na Biblioteca, de Jacques Bonnet


Resultado de imagem para livro fantasmas na bibliotecaTítulo original: Des Bibliothèques Pleines de Fantômes
Título em português: Fantasmas na Biblioteca
Autor: Jacques Bonnet
Tradutor: Jorge Coli
Editora: Civilização Brasileira
Edição: 1ª
Copyright: 2008
ISBN: 978-85-200-1000-6
Páginas: 160
Origem: França
Bibliografia do autor (incompleta): Lorenzo Lotto, 1197; À l’enseigne de l’amitié, 2003; De la coïncidence des opposés et autres variations sur les contraires, 2005 ; Femmes au bain, le voyeurisme dans la peinture occidentale, 2006 ; Des bibliothèques pleines de fantômes (Fantasmas na Biblioteca), 2008 ; Quelques historiettes ou petit éloge de l’anecdote en littérature, 2010 ; Comment regarder Degas, 2012 ; Eugêne Atget, un photographe si discret, 2014 ; La femme entre les deux âges ou Misère du viellard amoreux (A mulher entre as dus idades ou Miséria do velho apaixonado), 2017.

Para quem gosta, de fato, de ler, é uma agradável experiência quando se consegue ter um bom livro que fala sobre livros – nossa paixão nada secreta. Afinal, isto nos dá uma sensação de pertencimento a uma confraria não oficial e sem localização exata no mundo, a Confraria dos Leitores. Normalmente, somos vistos, ainda mais nestes tempos do onipresente smartphone como seres estranhos, quase temíveis – umas vezes, como seres antiquados, outras vezes, talvez, como componentes de alguma Teoria da Conspiração livresca. E, quando encontramos este Fantasmas na Biblioteca, de Jacques Bonnet, numa livraria virtual, por apenas R$ 15,90 (incluído aí o frete), não conseguimos resistir. Sabemos, o preço baixo assim é porque é parte de um saldão, não é livro que se venda tão fácil. Por essas, salve a internet!

Difícil encontrar dados biográficos deste autor, em sítios brasileiros ou portugueses. Desta forma, tomei a meu encargo traduzir esta breve biografia, encontrada em francês com a mesma dificuldade. Jacques Bonnet nasceu em 1949, na França. Trabalhou por trinta anos como editor, principalmente na editora Flammarion (de 1985 a 1986). Atuou como professor em várias universidades francesas e estrangeiras e no Institut Politique de Paris. Publicou regularmente na seção Livres du Monde (Livros do Mundo), entre 1982 e 1985, e no jornal L’Express (1989-1994). Trabalhou por um tempo no Centro Georges Pompidou, em Paris, assumiu a função de redator-chefe do Cahiers du Syndicat de la Librairie; co-dirigiu um dossiê no famoso jornal satírico francês Canard Enchaîné. Desde 2005, Jacques Bonnet trabalha como tradutor de inglês e de italiano.
Fantasmas na Biblioteca não é um livro de ficção. Entretanto, para o leitor que ama livros, é um prato apetitoso. Lá no sítio do Grupo Editorial Record, encontramos a seguinte informação que nos ajuda a posicionar este autor diante de nossa paixão:
“Jacques Bonnet é bibliófilo, editor e tradutor. Francês, é uma autoridade quando se trata de livros raros. Ao lado de José Mindlin, Umberto Eco e Alberto Manguel, é considerado um dos maiores especialistas em bibliofilia e teoria da literatura.”
Alberto Manguel, de vez em quando, visita este meu blogue: já resenhei dele A Biblioteca À Noite e, recentemente, O Leitor Como Metáfora. O livro em questão segue a mesma linha. É dividido em nove capítulos, 1) Dezenas de milhares de livros; 2) Bibliomanias; 3) Arrumar e classificar; 4) Práticas de leitura; 5) De onde vêm?; 6) Ler as imagens; 7) Personagens reais e personagens fictícios; 8) O mundo ao seu alcance; 9) Fantasmas de bibliotecas.
A leitura é bastante tranquila, embora a quantidade de referências bibliográficas no corpo do texto enfade um leitor mais exigente. É que este tanto de inserções torna o texto mais lento, com a ressalva de que não estamos tratando aqui de um livro ficcional. É mesmo meio difícil de se definir o gênero da obra; talvez, possamos chamá-lo de ensaio misturado com história. Bonnet tem uma biblioteca particular de mais de vinte mil volumes.
Você viu aí em cima o termo “bibliófilo”. Ele designa aquele que tem amor pelos livros; amante ou colecionador de livros raros ou de boas edições. Já o vocábulo “bibliomaníaco” se refere aos fanáticos pelos livros, coleciona livros sem os ler, com a “paixão cega e indomável do avarento”. Há gradações ainda mais complicadas, que não cabe aqui, por não se tratar de um estudo aprofundado das filias e manias.
Fantasmas na Biblioteca, subtítulo A arte de viver entre livros, se inicia da seguinte maneira:
“No dia 1º de setembro de 1932 apareceu no jornal português O Século o anúncio de uma vaga de conservador-bibliotecário a ser preenchida no museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, pequena cidade litorânea a 30 quilômetros de Lisboa. No dia 16 de setembro, Fernando Pessoa mandou uma carta de candidatura àquele município. O documento de seis páginas está reproduzido na obra de Maria José de Lencastre, Fernando Pessoa, uma fotobiografia, coeditada em 1861 pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda e o Centro de Estudos Pessoanos, que comprei por 500 escudos em uma livraria de Coimbra no mês de novembro de 1983. Havia lá apenas um exemplar.” (página 11)
O primeiro capítulo vai nos falar da absoluta necessidade que têm os bibliófilos de encher prateleira e mais prateleiras de livros:
“Além disso, há os acasos que me fizeram exercer certo número de profissões do livro. Há um gosto pelas séries completas (por autor, assunto, coleção, época, país, etc.). A grande dificuldade em me separar de um livro (quem sabe se, no futuro, não terei necessidade de uma que, na hora, achei medíocre). Em todo caso, a escolha do que se deve guardar ou rejeitar requer uma energia que eu sempre economizei (com algumas exceções, é claro). E enfim a necessidade de ter à disposição todos os livros, depois todas as pinturas, músicas, filmes, como elemento de liberdade interior.” (página 23)
O capítulo dois vai adentrar a entranhada questão das bibliomanias – estamos no campo dos TOC’s, Transtornos Obsessivos-compulsivos – citando a biblioteca da abadia beneditina em O Nome da Rosa, de Umberto Eco (preciso reler este livro ótimo!), a do Auto de fé, de Elias Canetti, os 12 mil volumes “definitivos” constantes da biblioteca do Nautilus, do capitão Nemo, personagem da obra As Vinte Mil Léguas Submarinas (também preciso reler este). Ou, então, os bibliomaníacos que são todos os personagens do livro A Casa de Papel, de Carlos María Dominguez.
Bonnet cita textualmente as palavras do narrador de A Casa de Papel:
“Sempre me perguntei por que guardo livros que só me poderão ser úteis num futuro distante, títulos distantes de meus percursos mais costumeiros, lidos apenas uma vez e cujas páginas não abrirei tão cedo, talvez mesmo jamais. Mas como me desfazer, por exemplo, de O chamado da selva sem destruir uma das raras peças constitutivas de minha infância, de Zorba, O grego, que selou minha adolescência com lágrimas, de A 25ª hora, e de tantos outros, relegados há muito tempo às prateleiras mais altas, inteiros porém, e muda na fidelidade sagrada que lhes devotamos.” (página 34)
O capítulo três vai discorrer a respeito das dificuldades de organização de uma biblioteca. Talvez o leitor não tenha atinado ainda para isso (possivelmente, você não tem uma biblioteca gigantesca em casa), mas quando o número de livros se conta aos milhares, a dificuldade de catalogá-los de uma maneira racional é imensa. Se esta catalogação não for objetiva, o leitor simplesmente não encontra o volume desejado. E o pior, todas as categorizações falham no quesito precisão.
O quarto capítulo aborda as práticas da leitura:
“Mas você tem um método de leitura rápida?” Sim, é claro, e um só: faz cinquenta anos que passo grande parte do meu tempo lendo todo tipo de oba, em todo tipo de circunstância, para todos os fins. Como para qualquer atividade que se tornou familiar (manual, artística ou esportiva), ela oferece necessariamente uma relação algo especial com o objeto em questão, no caso, a coisa impressa (“Anos de trabalho são necessários antes que os mecanismos cerebrais da leitura, bem lubrificados, se deixem enfim esquecer” – Stanislas Dehaene). O importante não é ler depressa, mas ler cada livro com a velocidade que ele merece. É tão prejudicial passar tempo demais com alguns quanto ler outros rapidamente demais. Há livros que se dão a conhecer pelo folhear; outros que apreendemos somente depois da segunda ou terceira leitura; outros ainda que serão lidos a vida inteira com proveito.” (páginas 60/61)
De onde vêm? é o título do quinto capítulo. Eles nos vêm pela capa bonita que nos chamou a atenção, um título misterioso (acho Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway um dos títulos mais bem bolados), etc. e quando gostamos mesmo de um autor, procuramos outros livros dele, às vezes desesperadamente, pois tais exemplares estão esgotados. Bonnet cita, por exemplo, o caso de Hamsun (escritor com o livro Fome já resenhado aqui neste blogue); leu Pã, que
“me levou primeiro a ler todos os livros de Hamsun publicados em francês, o que não era fácil, pois a maioria estava esgotada na época. (Levei anos para conseguir Auguste, le Marin – Augusto, o Marinheiro), o último que me faltava ler; foi na Biblioteca Nacional, onde as obras solicitadas para o meu trabalho tardavam a chegar, e nunca esquecerei a emoção que me invadiu quando peguei enfim o livro, procurado havia anos, trazido por um carrinho na sala Labrouste: eu ia enfim saber saber o que tinha acontecido com a imprevisível Edwarda!” (página 75)
O depoimento se fecha com uma emocionada e poética passagem (não podia ser diferente):
“Os livros de minha biblioteca são como as casas antigas, carregadas da presença dos homens e das mulheres que lá viveram no passado, com seus quinhões de alegrias e sofrimentos, de amores e aversões, de surpresas e decepções, de esperanças e resignações. Pensando bem, eu só vivi em casas velhas...” (página 156)
Fantasmas na Biblioteca é livro para bibliófilos, bibliomaníacos e assemelhados. Para mim, claramente um destes estranhos seres extraterrestres, um prazer. Gostei de seguir Jacques Bonnet em seu périplo livresco; amei me sentir membro de uma quase silenciosa confraria misteriosa, a dos amantes dos livros. Isto é importante, pois eu, como todos, não gosto de ser sozinho no mundo.
Para quem ame livros, mas ame de verdade, super indico esta obra; para quem nem tanto os ame, também indico, com a licença de pular as páginas que lhe pareçam mais maçantes. Só para tentar entender este universo paralelo, vale a pena.
A seguir, antes de terminar, extraí um teste da Revista Estante, para você verificar se se enquadra na categoria de bibliófilo, citando os devidos créditos. Quem não gosta de fazer tais testes? Nem que seja por curiosidade. E, pelas treze caracterizações, descobri que não sou um bibliófilo. Será?! É, talvez seja por que eu não queira admitir...

  1. Andas sempre, sempre, com um livro. Nunca se sabe quando irás ter uns minutos – ou uns segundos – para leres mais uma página, um parágrafo ou duas linhas
  2. A tua carteira fica mais leve sempre que passas por uma livraria. Não consegues resistir ao chamamento de um bom livro, mesmo que já tenhas esgotado o teu orçamento (e que ainda seja apenas dia 2).
  3. Os teus amigos sabem sempre o que vão receber de presente. Mas já desistiram de te oferecer livros, porque o mais provável é que já os tenhas lido. Em contrapartida, passaram a oferecer-te marcadores.
  4. Sabes que a adaptação de um livro ao cinema nunca fará justiça ao original. Por mais que tentes manter a mente aberta, à frase “o livro era mil vezes melhor” segue-se uma lista de todas as incoerências e falhas encontradas no filme.
  5. Achas que qualquer sítio é bom para ler. Os 10 segundos de uma viagem de elevador, a fila do supermercado, as escadas rolantes do metro ou mesmo enquanto andas pela rua. E andar de transportes públicos não se justifica só por razões ambientais.
  6. Estás a terminar um livro e já sabes o que vais ler a seguir. Na verdade, a tua lista to read tem livros suficientes para vários anos de leitura.
  7. Em casa nunca tens prateleiras suficientes. As tuas prateleiras têm sempre duas filas de livros e há mais empilhados nas outras divisões da casa, incluindo a casa de banho.
  8. És viciado no cheiro a papel e a tinta. Enterrar o nariz entre as páginas de um livro é tão natural como ler a badana.
  9. És a pessoa a quem os amigos telefonam quando querem saber o que ler a seguir. Isto quando não ligas aos amigos a avisar que têm mesmo de ler aquele livro.
  10. Já perdeste a conta às horas não dormidas. Porque precisas mesmo de ler só mais aquele capítulo. Mas, quando te apercebes, estás a terminar o livro. E já é manhã.
  11. Arrastas a leitura nas últimas páginas de cada livro. Porque não te queres separar dos novos amigos e sentes-te órfão de cada vez que acabas mais um livro.
  12. Quando fazes as malas para ires de férias, transportas mais livros do que roupa. E escolhes os destinos de acordo com as livrarias que queres conhecer.
  13. A tua melhor companhia numa esplanada, ao almoço, na praia ou no jardim é um livro. E irritas-te quando aparece um amigo ou conhecido a interromper-te a leitura.

(http://www.revistaestante.fnac.pt/13-sinais-mostram-es-um-bibliofilo/)

domingo, 21 de outubro de 2018

Resenha nº 131 - Harry Potter e A Pedra Filosofal, de J. K. Rowling


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Título original: Harry Potter and The Philosofer’s Stone
Título em português: Harry Potter e A Pedra Filosofal
Autora: J. K. Rowling
Tradutor: Lia Wyler
Editora: Rocco
S/Ed
Copyright: 1997
ISBN: 85-325-1101-5
Gênero literário: Romance Infanto-juvenil
Origem: Inglaterra
Bibliografia da autora (incompleta) – Série Harry Potter: Harry Potter e A Pedra Filosofal, 1997; Harry Potter e A Câmara Secreta, 1998; Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban, 1999; Harry Potter e O Cálice de Fogo, 2000; Harry Potter e A Ordem da Fênix, 2003; Harry Potter e O Enigma do Príncipe, 2005; Harry Potter e As Relíquias da Morte, 2007. Obras relacionadas à série Harry Potter: Animais Fantásticos e Onde Habitam (roteiro do filme), 2001; Quadribol Através dos Séculos, 2001; Os Contos de Beedle, O Bardo, 2008; Harry Potter e A Criança Amaldiçoada (roteiro escrito por Jack Thorne), 2016; Short Stories from Hogwarts of Power, Politics, and Pesky Poltergeists, 2016; Short Stories from Hogwarts od Heroism, Hardship and Dangerous Hobbies, 2016; Hogwarts: An Incomplete and Unreliable Guide, 2016; Animais Fantásticos e Onde Habitam (roteiro do filme), 2016. Contos: A Prequela de Harry Potter, 2008; Dumbledore’s Army Reunites at Quiddditch World Cup Final, 2014. Adultos: Morte Súbita, 2012. Série Cormoran Strike: O Chamado do Cuco (como Robert Galbraith), 2013; O Bicho-da-Seda (como Robert Galbraith), 2014; Vocação Para O Mal (como Robert Galbraith), 2015; Lethal White (como Robert Galbraith), a ser lançado.

Como pode alguém, em plena maturidade leitora, ler uma bobagem como Harry Potter e A Pedra Filosofal?! Para responder a esta questão preconceituosa, é preciso exatamente... ser um leitor maduro! Explico-me: um leitor maduro é aquele que consegue relativizar, é aquele que consegue partir de contextualizações do que lê. Ah, e tem aquele menino que insiste em coexistir com o homem maduro, que o abandona por instantes e se diverte com coisas simples e simplesmente encantadoras. A profissão de professor favorece isto, reconheço, pois, por dever de profissão, para encantar alunos temos de encantar nossa criança interna. Este Harry Potter é uma releitura. Sou capaz de me encantar com ele, com O Senhor dos Anéis, com As Crônicas de Nárnia. Leitores de fantasia talvez sejam pessoas diferentes. Não melhores, mas diferentes. E, olha, me diverti pra caramba com a leitura deste livro! Precisa mais justificativa?!

Joanne Rowling nasceu em 31/07/1965, em Yates, Gloucestershire, Reino Unido. É filha de Peter James Rowling, um engenheiro mecânico da famosa marca Rolls-Royce e Anne Rowling, uma técnica na área de ciências. Na época de sua infância, Rowling já gostava de escrever história, lidas para sua irmã. Em 1982, tentou ingressar na Universidade de Oxford, mas não obteve sucesso. Obteve o título de Bacharel em Artes em Francês e Estudos Clássicos, na Universidade de Exeter. Joanne casou-se duas vezes: a primeira, com o português Jorge Arantes, quando ela residiu na cidade do Porto, em Portugal, por 18 meses. Deste relacionamento, nasceu Jessica Isabel Rowling Arantes. Casou-se uma segunda vez, com Neil Murray, anestesista escocês. O “K”, ajuntado ao seu nome artístico vem da avó, Kathleen.
J. K. Rowling terminou de datilografar os originais de Harry Potter e A Pedra Filosofal em 1995. O trabalho foi apresentado a nada menos que doze editoras, sendo recusado por todas. Finalmente, recebeu a aprovação da Bloomsbury, uma editora de Londres. Consta que a decisão do editor foi fortemente influenciada pela sua filha Alice Newton, de oito anos, que se encantou com o primeiro capítulo da história e exigiu que lhe lessem o segundo.
Antes de entrar nos comentários do livro, propriamente ditos, vale fazer uma pergunta: que diabos é uma pedra filosofal? Era um artefato buscado por muitos alquimistas (alquimistas eram meio químicos, meio mágicos) da Idade Média. Atribuía-se a este artefato poderes de transformar qualquer coisa em ouro e até mesmo de prolongar a vida de quem o possuísse. Para explicar melhor esta questão importante para a compreensão do livro, deixemos falar a Wikipedia, verbete “Pedra Filosofal”:

“Ao longo da história, criações de pedras filosofais foram atribuídas a várias personalidades, como Paracelsus e Fulcanelli, porém é "inegável" que a lenda mais famosa refere-se a Nicolas Flamel, um alquimista real que viveu no Século XIV. Segundo o mito, Flamel encontrou um antigo livro que continha textos intercalados com desenhos enigmáticos. Porém, mesmo após muito estudá-lo, Flamel não conseguiria entender do que se tratava. Segundo a lenda, ele teria encontrado um sábio judeu em uma estrada em Santiago na Espanha, que fez a tradução do livro, que tratava de cabala e Alquimia, possuindo a fórmula para uma pedra filosofal. Por meio deste livro, Nicolas Flamel teria conseguido fabricar uma pedra filosofal. Segundo a lenda, esta seria a razão da riqueza de Flamel, que inclusive fez várias obras de caridade, adornando-as com símbolos alquímicos. Ao falecer, a casa de Flamel teria sido saqueada por caçadores de tesouros ávidos por encontrar pedras filosofais. A lenda conta que, na realidade, ambos, Flamel e sua esposa, não faleceram, e que em suas tumbas foram encontradas apenas suas roupas no lugar de seus corpos.”

Harry Potter era um bebê quando fora deixado na porta dos seus tios, os Dursley, moradores da Rua dos Alfeneiros, nº 4. A família era composta pelo Sr. Válter Dursley, a Sra. Petúnia Dursley e Duda, filho do casal. Começo triste, embora comum a muitas histórias. Entretanto, antes de Harry ser deixado na porta dos tios, coisas muito, muito estranhas vão acontecendo:
“Foi na esquina da rua que ele [o Sr. Dursley] notou o primeiro indício de que algo estranho ocorria – um gato lia um mapa. Por um instante o Sr. Dursley não percebeu o que vira – em seguida virou rapidamente a cabeça para dar uma segunda olhada. Havia um gato de listras amarelas sentado na esquina da rua dos Alfeneiros, mas não havia nenhum mapa à vista.” (página 8)
O estranhamento continua, no caminho do Sr. Dursley para o seu trabalho. Agora, é a vez de muita gente, estranhamente vestida, nas ruas. Medrosamente, Válter escuta tais pessoas mencionarem à meia voz os Potter e o nome do filho deles, Harry.
Este era um parentesco que o Sr. Dursley preferia não tornar público, pois, no seu conceito, os Potter eram gente muito esquisita. Não eram normais. E ele desejava ser o mais normal possível. Mas não tinha jeito: coisas estranhas continuavam acontecendo; certamente, aquele não seria um dia normal. Ao sair do serviço, às cinco da tarde, o Sr. Dursley deu, sem querer, um encontrão num velho, vestido com uma capa roxa:
“— Não precisa pedir desculpas, caro senhor, porque nada poderia me aborrecer hoje! Alegre-se, porque o Você-Sabe-Quem finalmente foi-se embora! Até trouxas como o senhor deviam estar comemorando um dia tão feliz!” (página 10)
E aí ficamos sabendo que trouxas é como os bruxos designam gente normal, sem poderes encantatórios, gente não bruxa.
E a coisa piora, com uma invasão disparatada de corujas, conforme os noticiários do dia:
“E, por último, os observadores de pássaros em toda parte registraram que as corujas do país se comportaram de forma muita estranha hoje. Embora elas normalmente cacem à noite e raramente apareçam à luz do dia, centenas desses pássaros foram vistos hoje voando em todas as direções desde o alvorecer. Os especialistas não sabem explicar por que as corujas de repente mudaram o padrão de sono”. (página 11)
Os Dursley são descritos de maneira pouco elogiosa: são estúpidos, permissivos com o filho mimado, gente sem imaginação, grudados à realidade de um mundo sem graça. E, ao serem obrigados a receber Harry Potter na sua casa, têm de aguentar irremediáveis mudanças em sua rotina. É que os pais de Harry morreram num embate com um ser muito poderoso e somente o menino se salvou, mesmo assim, com uma cicatriz na testa, em forma de relâmpago. E o pior, coisas irritantes acontecem na presença do estranho órfão. Duda não para de maltratar Potter. O tempo todo, Harry é lembrado de não pertencer, de fato, à família dos trouxas; ele dorme dentro de um armário, debaixo da escada.
Mesmo num prosaico passeio ao zoológico, as coisas estranhas continuam acompanhando Harry, como se fossem uma espécie de nuvem agourenta:
“A cobra inesperadamente abriu os olhos, que pareciam contas. Devagarinho, muito devagarinho, levantou a cabeça até seus olhos chegarem ao nível dos de Harry.
 E piscou.
 Harry arregalou os olhos. E olhou depressa a toda volta para ver se havia alguém olhando. Não havia. E retribuiu o olhar da cobra, piscando também.A cobra acenou com a cabeça na direção de tio Válter e de Duda, depois levantou os olhos par o teto. Lançou um olhar a Harry que dizia com todas as letras:
 — Isso é o que me acontece o tempo todo.
 — Eu sei – murmurou Harry pelo vidro, embora não tivesse muita certeza se a cobra poderia ouvi-lo –, deve ser bem chato.A cobra concordou com um aceno de cabeça enfático.
 — Mas de onde é que você veio? – perguntou Harry.
 A cobra apontou com o rabo uma placa próxima ao vidro. Harry espiou.
 Boa Constrictor, Brasil.
 — Era bom lá?
A jiboia apontou novamente a placa com o rabo e Harry leu: Este espécime nasceu em cativeiro.” (página 29)
Várias cartas chegam para Harry, interceptadas pelo tio Válter, que não quer nada com bruxarias e esquisitices. Entretanto, apesar da vigilância dele, Harry acaba sabendo que deverá ir para uma escola chamada Hogwarts, para aprender a lidar com a sua realidade... digamos, mágica. Hogwarts é um grande internato, divido entre quatro casas, com direito a brasões de armas, fantasmas e identificação próprios: Sonserina, Lufa-lufa, Grinfinória e Corvinal. Harry integrará a casa de Grinfinória.
Os relatos, as descrições nada convencionais vão deixando suas marcas no livro. Harry conhece Rúbeo Hagrid, um gigante, que vai orientá-lo em sua matrícula em Hogwarts. Potter vai então para Londres e, seguindo as instruções, descobre um tal Beco Diagonal (nenhum trouxa é capaz de ter acesso a este beco), onde funciona um verdadeiro shopping de rua, com artigos como varinhas mágicas, uniformes, livros de feitiço, de história de magia, diversos apetrechos para feitiçarias básicas ou avançadas, etc.
Comprado todo o material de que necessitará para o primeiro ano, ajudado sempre por Hagrid, Harry embarca sozinho no trem, na plataforma Nove e Meio (plataforma mágica, que se abre entre a nove e a dez, somente para os bruxos). Já em Hogwarts, instituição de ensino à qual Harry Potter tem acesso por viagem de trem, o pequeno bruxo faz amizades com Rony, Hermione Granger (que, a princípio, não vai muito com a cara de Harry), Nelville Longbottom; entra em contato com o bondoso e esperto professor Alvo Dumbledore. Surpreso, percebe que é famoso por ter sobrevivido ao ataque de Você-Sabe-Quem. Cultiva inimigos também, como o professor Snape, a turma de Draco Malfoy.
Muitas, muitas peripécias estranhas vão acontecendo com o nosso bruxo iniciante. Ele terá de aprender, nem sempre de maneira fácil, as regras daquele mundo paralelo. Aprende a jogar o Quadribol, um jogo cujo campeonato apaixona todos em Hogwarts. É disputado por bruxos a bordo de suas vassouras. Harry revela-se um ótimo apanhador e recebe de presente a melhor vassoura voadora do mundo, uma Nimbus 2000, novinha em folha.
Como qualquer estudante, infringe algumas regras, sofre punição por tais faltas. Há constantes discussões, às vezes tapas, entre os amigos de Harry e a turma de Malfoy. Mas Harry é um predestinado, tem poderes imaturos ainda, mas muito fortes.
Harry Potter e A Pedra Filosofal é o primeiro livro de uma série de sete. Esta saga fez a cabeça de muitos jovens pelo mundo todo, cumprindo a importante tarefa de iniciar leitores no mundo da literatura. Não é à-toa. Possui uma história bem contada, interessante, que apela à imaginação. Leitura de escapismo, sim, como insistem alguns, mas encantadora (com trocadilho, é claro).
A tal pedra filosofal estará no centro de uma trama que poderá abalar profundamente não só a instituição de Hogwarts, mas a vida de Harry Potter em particular, e o mundo dos bruxos, em geral. O grande vilão de toda a saga, de que este primeiro volume nos dá vários detalhes iniciais, é este Você-Sabe-Quem, o inominável, referido por seu nome verdadeiro somente pelos mais corajosos, como Voldemort, o assassino dos pais de Harry.
Livros infanto-juvenis procuram sempre trazer alguma mensagem boa, valores positivos, virtudes, uma vez que se destinam a jovens ainda em formação. E Harry Potter e A Pedra Filosofal cumpre bem este papel. Superação, solidariedade, amizade sincera, protagonismo, coragem, trabalho, estudos como fonte de conhecimento útil estão presentes. É muito bom ver-se o contato amigo entre Hagrid, Hermione Granger, Harry Potter, Rony, Nelville.
Parte do sucesso destes sete livros da saga, além da já referida história bem contada e os valores que ela tem, é o planejamento idealizado pela autora, J. K. Rowling. À medida que foram saindo os volumes, a história se atualiza, os personagens crescem e se adequam à evolução psicológica de seus leitores. Desta forma, a narrativa e suas referências vão ganhando maior profundidade a cada livro, mantendo a legião de leitores interessada por mais tempo.
E tanto a série tem seu valor que, estou eu aqui, neste blogue, resenhando um livro infanto-juvenil. Certo, você pode me dizer, era mesmo a sua proposta, você já disse, homenagear o mês das crianças e dos jovens. É verdade. Entretanto, mais do que isso, preciso lhe dizer, li este Harry Potter e A Pedra Filosofal pela segunda vez, e ambas com inegável prazer.
Fica a dica, a quem quiser dar a oportunidade de dar voz e coração à sua própria criança interna. Afinal, nem sempre de complexidades psicológicas, científicas, filosóficas ou políticas vivemos nós, os trouxas. Yuval Noah Harari, escritor do excelente Sapiens – Uma breve história da humanidade nos diz que a capacidade de fabulação é o que tornou o homem um ser superior aos demais. E capacidade de fabulação é o que não falta a este Harry Potter e A Pedra Filosofal.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Resenha nº 130 - Hiroshima, de John Hersey


Resultado de imagem para livro HiroshimaTítulo original: Hiroshima
Título em português: Hiroshima
Autor: John Hersey
Tradutor: Hildegard Feist
Edição: 1ª
Reimpressão: 8ª
Editora: Cia. das Letras
Copyright: 1973
ISBN: 978-85-359-0279-2
Páginas: 172
Gênero: Literatura de não ficção
Bibliografia do autor: Men on Bataan, 1942; Into the Valley, 1943; A Bell for Adano , 1944; Hiroshima, 1946; The Wall, 1950; The Marmot Drive, 1953; A Single Pebble, 1956; The War Lover, 1959; O comprador de crianças - no original The Child Buyer, 1960; Here to Stay, 1963; White Lotus, 1965; Too Far To Walk, 1966; Under the Eye of the Storm, 1967 ; The Algiers Motel Incident, 1968; Letter to the Alumni, 1970; The Conspiracy, 1972; My Petition for More Space, 1974 ; The Walnut Door, 1977; Aspects of the Presidency, 1980; The Call, 1985; Blues, 1987; Life Sketches, 1989; Fling and Other Stories, 1990; Antonietta, 1991; Key West Tales, 1994.

06 de agosto de 1945. 08:15. A cidade japonesa de Hiroshima iniciava mais um dia sem novidades em sua rotina. Com o formato de um leque, o local é cortado pelo rio Ota; ele o divide em canais, formando ilhas. Hiroshima crescera em torno de um castelo feudal do século XVI e recebeu o estatuto de cidade em 1589. De um momento para o outro, sem que as pessoas pudessem conceber o perigo mortal – muitas ainda dentro de suas casas – um clarão mais forte do que o sol invadiu o espaço da cidade. Uma onda misteriosa, potente, chegou, literalmente reduzindo as habitações a escombros. O ruído de uma explosão sem igual chegou depois. A Humanidade tinha assim a notícia de que o mundo entrara na Era Atômica. Os dados oficiais dão conta de 250.000 mortos e feridos. Corpos crestados, derretidos pelo então incompreensível poder de uma única bomba. Little boy, como fora apelidada, era uma bomba atômica de fissão nuclear. A triste familiaridade da população de outras cidades com os voos dos B-29 americanos cobrou um alto preço. Hiroshima ainda não sofrera incursões aéreas. As sirenes, naquele dia, não tocaram. Por que tocariam? Um único avião, ainda que uma fortaleza aérea, poderia representar tão grande perigo?

John Hersey nasceu na China, em 17/06/1914 e morreu em 24/03/1993, na cidade americana de Key West, Florida. Era filho dos missionários Roscoe e Grace Baird Hersey. Sua família retornou aos Estados Unidos quando John tinha dez anos de idade. Formou-se pela Universidade Yale, fez pós-graduação em Cambridge. Trabalhou com jornalista, cobrindo as guerras na Europa (Sicília) e na Ásia (Guadalcanal), produzindo artigos para as revistas Time, Life e New Yorker. Sempre escreveu bons artigos, mas tornou-se mundialmente famoso pela sua reportagem sobre Hiroshima. Esta foi publicada apenas um ano depois da explosão da bomba atômica e ocupou inteiramente a edição da New Yorker. Consta que o sucesso foi espetacular. A tiragem da publicação se esgotou. Albert Einstein tentou encomendar mil exemplares, mas não foi possível atendê-lo.
No posfácio Jornalismo com H, Matinas Suzuki Jr. nos diz que
“Hiroshima é uma espécie de Cidadão Kane do jornalismo. Como o filme de Orson Welles, esse texto lidera todas as listas de “melhor reportagem” já escrita.  O autor John Hersey precisou de 31.347 palavras para explicar como uma única explosão matou 100 mil pessoas, feriu seriamente o corpo de mais 100 mil e machucou a alma da humanidade.” (página 161)
Hiroshima, posteriormente, foi publicado em forma de livro e esta edição da Cia. das Letras, que tenho em mãos, inclui a complementação da reportagem inicial, feita quarenta anos depois. Há um posfácio, como dito acima, que acrescenta importantes informações à edição.
Uma grande parte do impacto causado pelo texto de John Hersey se deve à instauração de um narrador-observador rigoroso ao tratar os fatos, mas que não emite, na maioria das vezes, juízos de valor. Como se fosse uma câmara de cinema, que apenas grava o que detecta. Outra parte se deve ao ponto de vista narrativo que o autor escolheu: o depoimento de seis pessoas, seis hibakusha – termo japonês aproximadamente traduzido como “sobreviventes”. Tal técnica narrativa confere ao trabalho, ao mesmo tempo, um forte viés de humanidade (são depoimentos de quem sofreu na carne e na alma os efeitos da explosão nuclear) e veracidade (as informações são cruzadas e apontam, em essência, para o mesmo ponto). Ainda, John Hersey foi extremamente feliz em escolher o gênero híbrido de reportagem-literatura. Não tornou os fatos mais palatáveis, mas seu texto é fluente. Tanto assim que o li quase que de uma sentada, não consegui largá-lo.
Como evidência da objetividade do texto de Hersey – de propósito evitei a palavra neutralidade, pois tal não existe em qualquer obra humana – transcrevemos parte do depoimento de uma das seis pessoas envolvidas pela explosão, o reverendo Kiyoshi Tanimoto:
“Então um imenso clarão cortou o céu. O reverendo se lembraria nitidamente de que o clarão partiu do leste em direção ao oeste da cidade em direção às montanhas. Parecia um naco de sol. Os dois amigos reagiram, apavorados – e tiveram tempo para reagir (pois mais de três quilômetros os separavam do centro da explosão). O sr. Matsuo subiu os degraus da frene, entrou na casa e praticamente se enterrou entre as trouxas de roupa. O sr. Tanimoto deu três ou quatro passos e se jogou entre duas grandes pedras do jardim, agarrando-se firmemente a uma delas. Com o rosto encostado na pedra, não viu o que aconteceu. Sentiu uma pressão repentina, e estilhaços de madeira e de telhas choveram sobre ele. Não ouviu barulho nenhum. (Praticamente ninguém em Hiroshima se lembra de ter escutado qualquer barulho produzido pela bomba.  Entretanto, um pescador que estava em sua sampana no mar Interior, perto de Tsuzu – o homem com que a sogra e a cunhada do pastor moravam –, viu o clarão e ouviu uma tremenda explosão, ele se encontrava a quase 32 quilômetros de Hiroshima, porém o estrondo foi maior do que quando os B-29 bombardearam Iwakuni, a apenas oito quilômetros de distância). (páginas 11/12)
Não há como transcrever para esta resenha todos os outros cinco depoimentos, caro leitor, sob pena de me tornar extremamente longo e cansativo. Cada relato tem sua própria característica, cada um a sua carga de sofrimento. Os dramas foram muitos, e não se restringiram à explosão e destruição de uma boa parte da cidade; nem se atrelou “apenas” ao sofrimento advindo da perda inapelável de pessoas amadas. Não.
Os efeitos da bomba, melhor dizendo, da radiação liberada pela fissura dos átomos fez ainda inúmeras vítimas tempo depois. Queimaduras profundas, ferimentos que não fechavam, dores de cabeça, enjoos e vômitos, diarreias constantes, queda de cabelo, anemia e redução de glóbulos brancos (e com ela, a anomalia do sistema imunização das pessoas), fraqueza generalizada ... uma lista de horrores.
Os outros personagens foram a Srta. Toshiko Sasaki, o Dr. Masakazu Fujii, a Sra. Hatsuyo Nakamura, o Padre Wilhelm Kleinsorge, o Dr. Terufumi Sasaki. Eis como nos relata John Hersey o estado destas pessoas, um ano depois da explosão de Hiroshima:
“Um ano depois da explosão a srta. Sasaki era uma aleijada; a sra. Nakamura viva na pobreza; o padre Keinsorge estava novamente hospitalizado; o dr. Sasaki não dava conta do trabalho como antes; o dr. Fujii perdera o hospital de trinta quartos que levara muitos anos para construir e não planejava reconstruí-lo; o sr. Tanimoto continuava com sua igreja em ruínas e já não tinha sua excepcional vitalidade. A vida dessas seis pessoas, que estavam entre as mais afortunadas de Hiroshima, nunca voltaria a ser a mesma. Suas opiniões sobre as próprias experiências e sobre o uso da bomba atômica evidentemente não eram unânimes.” (página 93)
Os sobreviventes – há pouco citei o termo hibakusha; literalmente, “pessoas afetadas pela explosão” – não tiveram vida fácil. O vocábulo japonês, uma perífrase para evitar exatamente um termo, pois, como nos informa Hersey, “os japoneses tendiam a evitar o termo sobreviventes, cuja ênfase no fato de estar vivo podia sugerir algum desrespeito para com os mortos sagrados”. Este é outro ponto importantíssimo no texto de John: ele fala de dentro da cultura japonesa, evitando o olhar do estrangeiro.
Continuando, eis o quadro da situação dos hibakusha, tempos depois:
“Por mais de uma década os hibakushas viveram num limbo econômico, aparentemente porque o governo japonês se recusou a arcar com qualquer responsabilidade moral pelos atos hediondos dos americanos vitoriosos. Embora logo se evidenciasse que muitos hibakushas sofriam consequências de sua exposição às bombas bem diferentes em natureza e grau daqueles de sobreviventes dos horripilantes bombardeios incendiários de Tóquio e outros lugares, o governo não tomou nenhuma providência especial para socorrê-los – até que, ironicamente, uma onde de fúria varreu o Japão quando os 23 tripulantes e a carga de atum de um navio pesqueiro, o Dragão Afortunado nº 5, foram afetados pela radiação da bomba de hidrogênio que os americanos testaram no atol de Bikini, em 1954.” (página 99)
Eis aqui, amigo leitor, duas evidências muito claras de que não se pode crer na possibilidade de um texto cem por centro neutro: no trecho acima transcrito, o narrador objetivo de Hersey se trai exatamente nos adjetivos, essa classe de palavras vinculada à transmissão de afetividade e emoção: “hediondos” e “horripilantes”. Não é, neste caso, a transcrição de depoimento, mas um comentário do narrador... não absolutamente objetivo.
Como se não bastasse, os hibakushas sofreram preconceitos sociais. Não conseguiam emprego, porque se divulgara que eles possuíam males escondidos no corpo, que a qualquer momento lhes impediria de trabalhar. Eram francamente segregados.
Uma das passagens que me impressionaram muito, advindas da cultura japonesa, está na descrição abaixo, sobre uma comunicação do fim da guerra, via rádio, do imperador (o Tenno):
“Havia um alto-falante nos destroços da estação. Muitos civis, todos com ataduras, alguns se apoiando no ombro das filhas, outros amparando-se com bengalas, escutaram a transmissão e, ao compreender que era o imperador que lhes falava, exclamaram, com os olhos cheios de lágrimas: ‘Que bênção maravilhosa o Tenno se dirigir a nós, em pessoa, e podermos ouvir sua voz! Estamos plenamente satisfeitos em meio a tamanho sacrifício.’ Quando souberam que a guerra terminara – quer dizer, que o Japão fora derrotado –, naturalmente ficaram decepcionados, mas, com o espírito tranquilo, obedeceram à ordem imperial de fazer um sacrifício sincero pela paz duradoura do mundo – e o Japão tomou seu novo caminho”. (página 71)
Estranha para nós, esta atitude é plenamente explicável pela cultura japonesa, em que do imperador emanava um poder absoluto sobre a vida e a morte de seus súditos. Então, temos a forte hierarquia, o reconhecimento do poder imperial, a sagração dos antepassados (culto aos mortos) e as diretrizes do budismo. Para o budista, pelo menos para uma das vertentes, o sofrimento aqui e agora proporciona ao seguidor de Buda uma reencarnação melhor, depurada. Este conjunto de crenças – não as estou questionando, mas tentando explicar as reações daquelas pessoas, apoiado no que me diz o livro – leva aquela gente a exercer o desapego, isto é, a se conformar com os fatos acontecidos e suas consequências. Claro que muitos não tiveram reações tão espiritualizadas, como vimos no contágio radioativo do pesqueiro Dragão Afortunado Nº 5. Mas, de resto, compreendo melhor agora o que motivava os kamikazes, pilotos suicidas desta segunda guerra, que pilotavam seus aviões diretamente sobre os navios inimigos, em rota de colisão. Não se discutia ordens emanadas do imperador.
Podemos achar tanta coisa muito estranha, deslocada assim do contexto cultural. Entretanto, no ocidente também temos coisas como a infalibilidade papal, que vigorou para os católicos, pelo menos até o Papa Francisco contestá-la. De novo, não estou fazendo juízo de valor, apenas relacionando fatos e atitudes.
Temos estes casos de terroristas muçulmanos, verdadeiros homens-bomba. Sabem que vão morrer e, ainda assim, morrem satisfeitos por vislumbrarem algum tipo de recompensa num outro mundo.
Hiroshima é, sem dúvida, um grande livro. John Hersey é, sem dúvida, um senhor jornalista. Suas opções ao escrever esta que é considerada a melhor reportagem de todos os tempos foram amplamente acertadas.
Não é que a leitura de Hiroshima dê prazer. Ao contrário, ela incomoda. E incomoda porque, lá no fundinho de nossa alma, temos dois sentimentos distintos, mas que correm para o mesmo estuário: primeiro, pertencemos todos a uma humanidade (solidariedade básica), e embora possamos “amolecer” nossa consciência, fatos de tais envergaduras não são possíveis de minorar (contundência); segundo, sabemos que a maldade não está vencida totalmente por nós mesmos (quem de nós não é capaz de alguma violência – às vezes, desarrazoada, vejam-se as brigas de trânsito).
Não é, portanto, leitura que se faça por prazer. É leitura que se faz pela importância do acontecido. Tais fatos nunca mais devem ser perpetrados. Até porque, como diz a brilhante frase dita pelo gênio Albert Einstein, “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com paus e pedras.” Evidentemente, uma frase de efeito, mas verdadeira. Com a atual reserva atômica instalada para fins bélicos, se acontecer uma terceira guerra mundial, não haverá vencedores. Seremos todos perdedores, perderemos os avanços civilizatórios e retornaremos à era das cavernas.
Tal a importância de se ler Hiroshima, de John Hersey. Eu o recomendo enfaticamente, caro leitor. Incomoda, dói, é amargo, mas é necessário. Como alguns dos melhores remédios.


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Resenha nº 129 - Em Busca de Sentido, de Viktor E. Frankl


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Título original: Trotzdem Ja zum Leben sagen

Título em português: Em Busca de Sentido
Autor: Viktor E. Frankl
Editoras: Sinodal/Vozes
Tradutores: Walter O. Schlupp/Carlos C. Aveline
Edição: 43ª (revista)
Copyright: 1977 (parte 1); 1984 (partes 2 e 3)
ISBN: Sinodal 978-85-233-0886-5; Vozes 978-85-326-0626-6
Gênero: Ensaios
Páginas: 184
Bibliografia do autor (incompleta): Em Busca de Sentido, 1946; A Vontade de Sentido, 1969; A Presença Ignorada de Deus, 1943; Psycotherapy And Existentialism, 1967; Um Sentido Para A Vida, 1978; O Sofrimento de Uma Vida Sem Sentido, 1977; O Que Não Está Escrito Nos Meus Livros; O Homem Incondicionado, 1968.

Ao longo da leitura deste Em Busca de Sentido, fui passando por emoções insuspeitadas. Sim, porque, de propósito, evitei qualquer informação sobre o autor, sobre sua logoterapia, sua biografia. Parti, portanto, do solo mais ignorante possível. Das primeiras páginas, a impressão que me assaltou foi a de estar diante de um livro bem escrito, mas de autoajuda, gênero ao qual não me ajusto bem. Insisti. Foi a melhor atitude. Paulatinamente, a narrativa da primeira parte, Em Busca de Sentido, me fez inquieto e, em alguns momentos, triste. Ali, o doutor Frankl falava sobre sua experiência como prisioneiro de campo de concentração. Auschwitz sempre pesa sobre minha memória construída por alguns livros lidos como a sucursal do inferno. Não era, entretanto, um relato qualquer. Viktor Frankl era já um médico, especialista em neurologia e deste ponto de vista ele estabelecia suas observações. Passei da admiração àquele respeito silencioso, reverente – algo perigoso, eu sei, pois ele facilmente nos leva a estabelecer gurus – em relação ao autor. A profunda humanidade, a compreensão deste espírito livre sobre a realidade terrível, que nem os horrores de Auschwitz conseguiram domar, entretanto, fizeram desta leitura uma emocionada constatação de que este livro – Em Busca de Sentido – faz e fará todo o sentido para a minha vida. É daqueles livros-referência. Não me importo, se me criticarem por acharem a filosofia-psicoterapia do doutor Viktor Frankl autoajuda.

Viktor Emil Frankl nasceu em Viena, Áustria, a 26/03/1905 e faleceu em Viena, a 02/07/1997. Foi médico psiquiatra. Em sua juventude, manteve correspondência com o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Já em 1921, Frankl deu sua primeira conferência sobre o tema A respeito do sentido da vida. Em 1925, já como estudante de medicina, encontrou-se com Freud e se aproximou de Alfred Adler. Um ano mais tarde, foi expulso da Association de Psycologie Individuelle, por discordâncias com Adler.
Em setembro de 1942, Viktor Frankl, sua esposa e família são presos, por serem judeus, e mandados para campos de concentração. Só foi libertado ao final da guerra e toma, então, conhecimento de que perdera sua família e sua esposa para o Holocausto nazista. Torna-se diretor da policlínica de neurologia de Viena. Em 1948 doutora-se em filosofia, defendendo a tese “O Deus Inconsciente”. Em 1955, torna-se professor de neurologia na Universidade de Viena. Elabora, em grande parte usando suas anotações e observações nos campos de concentração, a chamada logoterapia; em 1970, ele passa a lecionar numa universidade dos Estados Unidos e funda o primeiro Instituto de Logoterapia do mundo. Recebeu o título de doutor honoris causa de diversas universidades ao redor do globo, inclusive pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como conferencista, deu palestras em vários lugares, tendo passado pelo Brasil em 1984 (Porto Alegre), 1986 (Rio de Janeiro) e 1987 (Brasília).
A logoterapia é frequentemente chamada de a terceira escola de terapia vienense. A primeira, a de Freud, centrada nos desejos reprimidos do inconsciente; a segunda, a de Alfred Adler, para quem as neuroses se originam das nossas ânsias pelo poder. A de Viktor parte de uma outra premissa, a da vontade de sentido. Explicando, se alguém não vê sentido em sua vida, isto lhe trará uma série de problemas, podendo levá-lo ao suicídio. Para Frankl, se não se vê sentido para a vida, não se verá, igualmente, um sentido para o sofrimento. Sob este ângulo, toda a terapia deste psiquiatra se orienta para levar o paciente a descobrir ou construir um sentido e sublimar o sofrimento. Esta explicação faz-se necessária para se entender o livro.
Em Busca de Sentido – Um psicólogo no campo de concentração nos relata os três sofridos anos passados pelo doutor Viktor, principalmente em Auschwitz:
“Este livro não trata de fatos e acontecimentos externos, mas de experiências pessoais que milhares de prisioneiros viveram de muitas formas. É a história de um campo de concentração visto de dentro, contada por um de seus sobreviventes. Não vamos descrever os grandes horrores (já bastante denunciados, embora nem sempre se acredite neles), mas sim as inúmeras pequenas torturas. Em outras palavras, tentarei responder à seguinte pergunta: “De que modo se refletia na mente do prisioneiro médio a vida cotidiana do campo de concentração?” (página 15)
Sempre deste ponto de vista, o autor vai pontuando a rotina horrorosa do campo. Desde o momento em que os prisioneiros chegam e são selecionados, uns para a direita, outros para a esquerda. Depois se sabe, aqueles que foram selecionados à direita são os que tiveram sorte (?), serão mantidos vivos, para trabalhos forçados. Os outros, muito doentes ou com deficiências graves, irão para a morte direta. Os que permanecem são despojados de suas roupas, seus pertences, sua identidade e são tatuados com um número. Daí para frente, nem a um nome terão direito; serão apenas um número.
“Os sapatos, com os quais em princípio podíamos ficar, foram um capítulo à parte. Calçados de relativa qualidade acabavam sendo tirados da gente, recebendo-se em troca um par que não servia. Deram-se mal aqueles que seguiram o conselho, aparentemente bem-intencionado, dos prisioneiros veteranos da guarda na antessala de cortar o cano alto de suas elegantes botas e disfarçar esse “ato de sabotagem” passando sabão no corte. A SS parecia estar esperando justamente por isso e mandou que todos se apresentassem para a vistoria dos sapatos. Quem entrasse em suspeita de ter cortado o cano de sua bota era obrigado a entrar num pequeno quarto contíguo. Pouco depois se ouviam os estalos do açoite e os berros dos torturados.” (página 30)
O sofrimento constante, as pequenas torturas de todos os dias, executadas pelos capos, os vigilantes diretos, acabam por levar uma boa parte dos prisioneiros a um estado de apatia. 
“Na maioria dos prisioneiros, a preponderância dos instintos primitivos e a peremptória necessidade de se concentrar sobre a pura e simples preservação da vida constantemente ameaçada suscitam uma depreciação radical de tudo aquilo que não serve a esse interesse exclusivo. Assim se explica a ausência absoluta de sentimentos por parte do prisioneiro quando avalia os acontecimentos.” (página 49)
Frankl anota que os impulsos sexuais exaltados, tão comuns em prisioneiros comuns, não se manifestam num campo de concentração. O doutor está entre aqueles que, de algum modo, têm uma esperança no futuro, construída dia a dia – encontram um sentido para suas miseráveis vidas. Sob o subtítulo Quando nada mais resta, ele nos relata:
“Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a fio, vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente nos apoiamos um no outro, erguendo-nos e arrastando-nos mutuamente. Nenhum de nós pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um só pensa em sua mulher. Vez por outra olho para o céu onde vão empalidecendo as estrelas, ou para aquela região no horizonte em que assoma a alvorada por trás de um lúgubre grupo de nuvens. Mas agora meu espírito está tomado daquela figura à qual ele se agarra com uma fantasia incrivelmente viva, que eu jamais conhecera antes na vida normal. Converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e animar ao mesmo tempo; e – tanto faz se é real ou não a sua presença – seu olhar agora brilha com mais intensidade que o sol que está nascendo.” (página 55)
E segue, na mesma página, um pouco abaixo:
“Compreendo agora o sentido das coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia – e em fé humana: a redenção pelo amor e no amor!”
Enfatizando sempre a vivência interior, única ênfase que pode manter a pessoa em relativo estado de sanidade neste parque de horrores, Frankl vai fazendo suas observações e construindo as premissas do que mais tarde, já fora do campo de concentração, se transformará num corpo teórico consistente e coeso, a logoterapia.
Em dado momento, ele cita Dostoiévski, o grande escritor russo (sempre ele!), depoimento, aliás, que está transcrito para a quarta capa do livro: “Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento.” E Frankl conclui,
“A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro, configurar a sua vida de modo que tenha sentido. Pois não somente uma vida ativa tem sentido (...) Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá.”
Dois pequenos ensaios vão completar o volume Em Busca de Sentido. O primeiro deles, Conceitos Fundamentais de Logoterapia, como se depreende, vai nos explicar as bases de funcionamento desta terapia calcada na construção de sentido para a vida do paciente. Não cabe aqui resenhar este ensaio, mas apenas para o leitor ter uma ideia, o terapeuta fala, por exemplo, da vontade de sentido. Este conceito vai se contrapor, dentro da psicanálise freudiana, ao impulso da libido, do prazer; dentro da psicoterapia individual de Adler, à vontade de poder. Ou seja, nos limites da logoterapia, buscamos um sentido para nossa vida e este sentido é individual, mutável e intransferível. Ele se torna possível de alcançar quando temos uma vontade de sentido. E o sentido da vida pode ser amar alguém, manter-se no trabalho, realizar um trabalho intelectual (como aconteceu com Viktor, que escrevia suas observações em qualquer pedacinho de papel no campo de concentração).
O doutor Frankl aborda a frustração existencial. Discorda de Freud neste e em outros tantos pontos. Enquanto o pai da psicanálise afirma que, aquele que questiona a própria existência é um neurótico, o logoterapeuta diz que este questionamento é essencialmente humano, de alguém que busca para si um sentido para a vida. Frankl cunha o termo neuroses noogênicas – do termo grego noos, mente – para designar qualquer coisa pertinente à dimensão especificamente humana. É um pouco longo, mas acho que vale a pena transcrever o trecho inteiro da exemplificação de um caso tratado pelo doutor:
“Um diplomata americano de alto escalão dirigiu-se a meu consultório em Viena a fim de continuar o tratamento psicanalítico iniciado cinco anos antes com um analista em Nova Iorque. Logo de início, perguntei-lhe por que ele pensava que deveria ser analisado, por que, em si, começara com a análise. Revelou-se que o paciente estava descontente com sua carreira e tinha extrema dificuldade em concordar com a política exterior dos Estados Unidos. Seu analista, no entanto, lhe havia dito repetidamente que ele devia tentar reconciliar-se com seu pai, porque o governo dos Estados Unidos bem como seus superiores eram “nada mais” que imagens paternas, e, consequentemente, a insatisfação com seu emprego se devia ao ódio inconsciente contra o pai. Uma análise que já vinha durando cinco anos induzira o paciente a aceitar cada vez mais as interpretações de seu analista, até que, de tantas árvores de símbolos e imagens, ele não mais conseguiu ver a floresta da realidade. Após algumas poucas entrevistas, ficou claro que sua vontade de sentido estava sendo frustrada por sua profissão e que ele na realidade ansiava engajar-se em outra espécie de trabalho. Como não tinha motivo para ele não largar sua profissão e abraçar outra, assim o fez, com os mais gratificantes resultados.” (página 127)
A última divisão do livro é outro ensaio, desta vez sobre o que em logoterapia se entende por A Tese do Otimismo Trágico:
“Vamos começar perguntando-nos o que se deve entender por “otimismo trágico”. Em resumo, significa que a pessoa é e permanece otimista apesar da “tríade trágica”, como é chamada em logoterapia a tríade daqueles aspectos da existência humana que podem ser circunscritos por: 1) dor; 2) culpa; 3) morte.” (página 161)
No primeiro caso, o da dor, recomenda Viktor, temos de considerá-la (a dor, o sofrimento) como evitável e inevitável. Se for inevitável, há que se encontrar um sentido para ela; se for evitável, há que se removê-la.
O segundo caso, o da culpa. Vale a pena a transcrição das palavras do doutor Frankl a um conjunto de criminosos presos:
“Vocês são seres humanos como eu, e como tais tiveram a liberdade de cometer um crime, de tornar-se culpados. Agora, no entanto, vocês têm a responsabilidade de superar a culpa erguendo-se acima dela, crescendo para além de vocês mesmos e mudando pessoalmente para melhor.” (página 171)
O terceiro caso, a morte, o terapeuta nos diz que, se ele fala de morte, também fala de vida, pois nos instantes de que a vida é feita estamos morrendo, igualmente:
“Mas porventura não é essa transitoriedade algo que nos estimula e desafia a fazer o melhor uso possível de cada momento de nossas vidas? Certamente sim, e daí surge meu imperativo: Viva como se você estivesse vivendo pela segunda vez e como se tivesse agido tão erradamente na primeira vez como está por agir agora.” (página 172)
Para concluir, Viktor Frankl não aceita a culpa coletiva. Ele nos diz que as responsabilidades são individuais.
Em Busca de Sentido, um livro simplesmente maravilhoso. A logoterapia é contestada pelos freudianos, junguianos e adlerianos por muitas colocações de Frankl, entre as quais a valorização da dimensão espiritual do homem. Ele não condena a religião, nem combate a ideia de Deus.
Nada sei de psicologia, leitor, nem sou sequer um estudioso da matéria. Entretanto, este livro, em particular, lançou luzes sobre algumas decisões de minha vida e sou grato ao autor por isto. Adquiri um profundo respeito por este doutor Viktor Emil Frankl. Afinal, alguém que sofreu o que ele sofreu em um campo de concentração, por três anos sem trégua, tendo perdido toda sua família, esposa e mesmo assim, nunca ter-se posto como vítima da Maldade Humana (assim mesmo, com maiúsculas, como se fosse uma entidade supra-humana) dá autoridade e coerência ao seu método psicoterápico.
E, respondendo porque este livro, que vendeu milhões de exemplares no mundo todo, não figura sequer no segundo lugar entre as preferências dos sobreviventes do holocausto (o primeiro lugar é O Diário de Anne Frank), Frankl responde que pode ser porque em seu livro, nenhuma vez figura a palavra judeu. Em nenhum trecho ele vocifera contra os alemães. Ele compreende o humano, com suas oscilações entre o mal e o bem, entre o acerto e o erro.
Em Busca de Sentido é, por tudo o que se disse acima, uma destas obras preciosas. A leitura dela me fez sentir quase um privilegiado por ter investido tanto esforço, tanto tempo em me tornar um leitor razoavelmente maduro. E digo razoavelmente porque este é um processo sem fim. Enquanto eu ler, estarei em maturação. E isto está para mim, após a leitura deste volume, mais claro que antes.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Resenha nº 128 - O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway


Imagem relacionadaTítulo original: The Old Man and The Sea
Título em português: O Velho e O Mar
Autor: Ernest Hemingway
Tradutor: Fernando de Castro Ferro
Ilustrações: Ênio Squeff
Editora: Círculo do Livro
Copyright: 1980
Páginas: 116
Gênero: Novela
Literatura Americana
Bibliografia do autor: Romances – The Torrents of Spring (As Torrentes da Primavera) 1925; The Sun Also Rises (O Sol Também Se Levanta), 1926; A Farewell to Arms. (Adeus às Armas), 1929; To Have and Have Not (Ter e Não Ter), 1937; For Whom the Bell Tolls (Por Quem os Sinos Dobram), 1940; Across the River and Into the Trees (Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores), 1950; The Old Man and the Sea (O Velho e o Mar), 1952; Adventures of a Young Man (Aventuras de um Homem Jovem), 1962; Islands in the Stream (As Ilhas da Corrente), 1970; The Garden of Eden (O Jardim do Éden), 1986. Não ficção – Death in the Afternoon (Morte à tarde), 1932; Green Hills of Africa (As Verdes Colinas de África), 1935; The Dangerous Summer (O Verão Perigoso), 1960; A Moveable Feast (Paris é uma Festa), 1964; True at First Light (Verdade ao Amanhecer), 1999; Ernest Hemingway Selected Letters 1917-1961, 2003; Under Kilimanjaro (As Neves do Kilimanjaro), 2005. Contos e pequenas estórias – Three Stories and Ten Poems, 1923;  In Our Time, 1925 ; Men Without Women, 1927; The Snows of Kilimanjaro, 1932 ; Winner Take Nothing, 1933; The Fifth Column and the First Forty-Nine Stories, 1938; The Essential Hemingway, 1947; The Hemingway Reader, 1953; The Nick Adams Stories, 1972 ;The Complete Short Stories of Ernest Hemingway, 1976; Collected Stories, 1995.

Reler um livro, ainda mais reler um após muito tempo, ainda mais um clássico, é uma experiência fascinante. A leitura de O Velho e O Mar é triplamente gratificante: reler um clássico, reler uma edição do antigo Círculo do Livro (tão boas memórias) e reler um livro que, decididamente, fez minha cabeça. De fato, quando comecei a escrever, este era um dos textos de que me lembrava com mais frequência: sobriedade, economia de adjetivos, descrições objetivas. Ernest Hemingway é indiscutivelmente um autor e tanto.

Ernest Miller Hemingway nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21/07/1899. Morreu em Ketchum, Idaho, EUA, em 02/07/1961. 61 anos de idade, portanto. Escritor americano, foi correspondente de guerra em Madrid, Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola. Viveu também em Paris por um tempo, ao se casar com Elizabeth Hardley Richardson, sua primeira mulher. Nesta época, aproximou-se dos escritores Ezra Pound, Gertude Stein, Scott Fitzgerald. Ele fez parte da batizada “Geração Perdida”, por Gertrude Stein. Era uma comunidade de escritores expatriados, como se pode deduzir.
Na década de 1930, resolveu partir com um amigo para uma pescaria em alto mar, perto de Cuba. Voltou amiúde, entre os meses de maio e julho, quando acontecia a pesca ao marlim. Bastante instável em assuntos amorosos, Hemingway teve relacionamentos com várias mulheres: só de casamentos oficiais, foram quatro.
Viveu também na Espanha, por quatro anos. Em Pamplona, Ernest fascinou-se pelas tauromaquias, isto é, as touradas, tendo chegado a participar de algumas delas, como toureiro amador. Esta experiência vai ser muito bem utilizada em O Sol Também Se Levanta. Neste país, em 1946, o escritor se casa pela quarta vez e alistou-se no conflito civil espanhol, ao lado das forças que combatiam o fascismo. Este material vai compor sua considerada obra-prima, Por Quem Os Sinos Dobram.
Retornando a Cuba com a sua quarta esposa, Ernest Hemingway escreve seu livro O Velho e O Mar, que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de Ficção. Recebeu ainda o Prêmio Nobel de 1954 pela excelência de sua narrativa. Cada vez mais instável emocionalmente, e muito doente (tinha diabetes, hemocromatose, hipertensão, depressão, perda de memória), põe fim à sua vida, em Idaho, repetindo o ato desatinado do pai, que havia se suicidado com um tiro de pistola e, por sua vez, suicida-se com um tiro de fuzil de caça, em julho de 1961.
Uma biografia tumultuada. Homem inquieto, escritor magnífico e bastante produtivo, Ernest Hemingway realmente não é para fracos.
O Velho e O Mar é um livro absolutamente fantástico. Curto, ouso classificá-lo como uma novela. Identifiquei alguns temas que perpassam a obra: a solidão do homem, o valor da amizade pura, a dedicação a um propósito, a inevitabilidade da luta humana diante dos sacrifícios da vida. E é admirável como ele consegue colocar tanta coisa em um livro de apenas 116 páginas, na edição do Círculo. Vejamos a introdução desta história de pescaria, que não é somente uma narrativa sobre a captura de peixes:
“O velho chamava-se Santiago. Dia após dia, tripulando sua pequena canoa, ia pescar na corrente do Golfo. Mas nos últimos oitenta e quatro dias não apanhara um só peixe. Nos primeiros quarenta dias levara em sua companhia um rapazinho para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do rapaz, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie. Resolveram que o filho fosse trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana. O rapaz ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a canoa vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho do arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente.” (página 9)
Creio não exagerar ao eleger este primeiro parágrafo da obra como um dos melhores que tenho lido. Um exemplo de concisão, em curto espaço temos informações valiosas para entender a história que se seguirá. Aí já fica patente o valor da amizade pura, entre o velho e o rapazinho, a pobreza de Santiago, as forças sociais que o discriminam como velho e azarento, a impotência do personagem diante do “destino” (forças da vida).
Mas um dia, Santiago parte com sua frágil embarcação determinado a trazer um peixe – e dos grandes, se possível. Para tanto, arrisca-se a ir muito além dos outros barcos, onde julga ter melhor sorte. Consegue fisgar um marlim ou espadarte, um daqueles peixes que têm uma espécie de espada aguda na frente da cabeça.
“Podia ficar à deriva”, pensou ele, “e dormir um pouco com a ponta da linha atada no pé, para me acordar se algum peixe mordesse. Mas hoje é o octogésimo quinto dia, e devo pescar o melhor possível.”
“Neste momento, quando examinava as linhas, viu uma das varas verdes dobrar-se violentamente.
— Pronto. – E arrumou os remos, tentando não balançar o barco. Pegou a linha e segurou-a suavemente entre o polegar e o indicador da mão direita. Não sentiu nenhuma força nem peso e continuou a segurar a linha com suavidade. Depois, sentiu outro puxão. Dessa vez era um puxão ligeiro, quase suave, e ele sabia exatamente o que era. A uns cento e cinquenta metros de profundidade, um espadarte estava comendo as sardinhas que cobriam a ponta do anzol que se projetava da cabeça do atum que servia de isca.” (página 37)
A quase totalidade da história, daí para frente, se resumirá à luta do velho Santiago contra o peixe que lhe resiste. Vem-nos à tela da memória a dantesca luta entre o capitão Ahab e a enorme baleia branca, Moby Dick, da obra do americano Herman Melville. Mas esta não será uma luta dantesca, ao contrário, é discreta: sem testemunhas que não sejam uma ou outra ave passando à procura do que comer, é o enfrentamento de um velho alquebrado pela idade, com os olhos prejudicados pela exposição excessiva ao sol e um espadarte não tão épico como uma baleia. Será a luta particular, íntima, de um homem contra as forças da natureza, representadas aqui pelo peixe que não se deixa pescar.
Durante o livro todo, notamos três níveis diferentes de – digamos assim, diálogos – em diferentes ocasiões: o diálogo explícito mesmo, marcado por travessões e retomadas de fala de um interlocutor, como os que o velho mantém com Manolín, o rapazinho do começo da história; o solilóquio, quando o velho conversa em voz alta consigo mesmo e, por fim, o diálogo interno, em forma de pensamento, silencioso: vejamos.
“— Se os outros me ouvissem falando sozinho, julgariam que estou louco – disse em voz alta. – Mas, como não estou louco, não me importo. Os ricos têm aparelhos de rádio em seus barcos, para ouvirem música e notícias de beisebol.
“Mas agora não é o momento próprio para pensar em beisebol. Agora só devo pensar numa coisa, aquela coisa para a qual nasci. É capaz de haver um dos grandes, naquele cardume. Até agora só consegui apanhar um peixe extraviado, uma albacora que esta se alimentando. O cardume está se afastando muito depressa. Tudo o que vem hoje à superfície viaja com uma grande rapidez e sempre para noroeste. Será por causa da hora? Ou será qualquer indicação de mudança de tempo, que eu desconheça?” (página 16)
Neste trecho acima transcrito, aparece também um outro tema, a conformação diante do próprio destino, o velho crê que ele é pescador porque nasceu para sê-lo e nada poderá modificar tal condição.
Santiago é um pescador experimentado, conhecedor dos segredos de seu ofício, como fica muito claro no trecho que se segue:
“Durante a noite dois porcos-marinhos aproximaram-se do barco, e o velho ouviu-os rolando na água e soprando. Notou a diferença entre o soprar do macho e o da fêmea.
— São bons – murmurou o velho. – Brincam e se divertem um com o outro e amam-se. São nossos irmãos, tal como os peixes-voadores.” (página 44)
Neste trecho não só transparece o profundo conhecimento do pescador sobre criaturas do mar, mas também o respeito, o carinho para com essas criaturas, quando ele as compara aos humanos. E, também, ressalta aí um tom de melancolia difusa. Sou partidário de que não devemos utilizar dados da vida do autor, ou de suas características, para explicar passagens da obra, mas igualmente reconheço que neste caso, o de Ernest Hemingway, essa questão da “melancolia difusa” era bastante frequente em sua vida, como vimos em sua biografia, para que não transpareça em pelo menos algumas de suas obras. O Velho e O Mar é obra do final de sua vida, quando estava já sofrendo de muitos problemas, incluindo a depressão.
A longa luta entre o velho e o espadarte vai depauperando as forças de um e de outro. Mais depressa as do nosso personagem humano, porque as tem poucas. A linha lhe fere as palmas das mãos, ele as desloca para os grossos calos. O peixe puxa a linha, ele curva o corpo para trás, a lhe opor resistência. A fome o contempla e ele consegue, habilmente, com uma das mãos, retalhar em postas um peixe que conseguira apanhar, dentro do barco, e comê-lo cru. Mastiga-as lentamente, sabendo que precisará tirar forças quando já não as tem muitas. O barco singra pelo mar, dentro da noite escura, e o velho teme que o peixe resolva, de uma hora para outra, afundar cada vez mais no mar, ao invés de ir para frente. Se isto acontecer, ele sabe, terá perdido a presa.
Há um momento de estranha magia, em que o velho decide por dormir alguns minutos para recompor suas energias, enquanto o peixe lá embaixo lhe dá uma trégua:
“Mais tarde começou a sonhar com as longas praias amarelas e viu o primeiro leão sair da floresta na escuridão da noite; depois apareceram os outros leões e o velho apoiou o queixo na madeira da proa do navio que estava ancorado ao largo, na brisa da noite, e ali ficou à espera de ver mais leões, sentindo-se feliz e confortado.” (página 73)
Leões são símbolos de força, de majestade; eram levados pelos romanos para serem combatidos por lutadores nas areias do famoso Coliseu. Aqui também representam a juventude, a força física que Santiago já não tem.
Há claramente, além da luta do velho contra o peixe, uma outra luta silenciosa, extraordinária, do seu espírito pertinaz contra seu frágil corpo de velho. É bem uma luta que merece ser lutada: a da determinação contra a fragilidade.
Santiago avalia seu adversário e sente admiração por ele, pela sua força, pela luta pela própria vida:
“Você está me matando, peixe”, pensou o velho pescador. “Mas tem o direito de fazê-lo. Nunca vi nada mais bonito, mais calmo ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Eu não me importo que qualquer outro o mate.” (página 81)
Dá vontade de antecipar o final, ainda mais se pensando que esta é uma obra conhecida, todo mundo sabe o final da história. Mas, não. Não é verdade que todos já saibam do final, mesmo em sendo uma obra clássica. Ao realizar um spoiler, eu trairia o objetivo destes meus trabalhos aqui no blogue: convidar as pessoas ao encantamento pela leitura.
Li, certa vez, uma definição bem-humorada de um clássico: “clássicos são aqueles livros que alguém está sempre relendo”. Ou seja, esta frase algo sarcástica nos diz que os tais clássicos que andam nas mãos de poucos, que os releem. Prefiro entender esta assertiva de outra forma: clássicos são tão bons que os leitores nunca se contentam com apenas uma leitura.
O Velho e O Mar. A primeira vez que o li foi há muito tempo; de lá para cá, vivi, li muita coisa, meu mundo de referências se enriqueceu. Que mistério haverá nos textos literários, que bruxarias, que sortilégios lançarão estes autores sobre suas obras? Quantos sub-textos haverão?
Leitor amigo, considere a possibilidade de ler este O Velho e O Mar. Não ligue para a narrativa lenta, pouco condizente com a velocidade vertiginosa do nosso tempo. Espraie-se num sofá, esteja sozinho e disposto a iniciar uma viagem aos valores humanos talvez meio esquecidos. Persistência, superação, dedicação – esta é uma obra como poucas. Deixe-se contagiar pela respiração do texto, sinta a imensidão das águas do mar, da fragilidade de uma pequena canoa que qualquer marola pode virar. Sinta suas mãos ensanguentadas pela fricção da linha. Então, puxe-a devagar, para que ela não se rompa, traga o peixe à superfície. A recompensa será enorme, uma espécie de epifania.
Nota 10.