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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Resenha nº 94 - O fio das missangas, de Mia Couto

Resultado de imagem para livro o fio das missangasTítulo original: O fio das missangas
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª ed., 12ª reimpressão
Copyright: 2004
ISBN: 978-85-359-1381-1
Gênero Literário: Contos
Origem: Moçambique
Número de páginas: 154
Bibliografia do autor: Contos – Vozes Anoitecidas, 1986; Cada Homem É Uma Raça, 1990; Estórias Abensonhadas, 1994; Contos do Nascer da Terra, 1997; Na Berma de Nenhuma Estrada, 2001; O Fio das Missangas, 2004. Romances – Terra Sonâmbula, 1992; A Varanda do Frangipani, 1996; Mar Me Quer, 2000; Vinte e Cinco, 1999; O Último Voo do Flamingo, 2000; O Gato e O Escuro, 2001 (literatura infantil); Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, 2002; A Chuva Pasmada, 2004; O Outro Pé da Sereia, 2006; O Beijo da Palavrinha, 2006; Venenos de Deus, Remédios do Diabo, 2008; Antes de Nascer O Mundo, 2009; Pensageiro Frequente, 2010; A Confissão da Leoa, 2012; Mulheres de Cinza (primeiro volume da trilogia As Areias do Imperador), 2015; A Espada e A Azagaia (segundo volume da trilogia As Areias do Imperador), 2016. Crônicas – Cronicando, 1988; O País do Queixa Andar, 2003; Pensatempos- Textos e Opinião, 2205; E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções, 2009. Prêmios – Prémio Nacional de Ficção, 1995; Prémio Virgílio Ferreira, 1999; Prémio Mário António, 2001 (pelo livro O Último Voo do Flamingo); Prémio União Latina de Literaturas Românicas, 2007; Prémio Passo Fundo Zaffarini e Bourbon, 2007; Prémio Eduardo Lourenço, 2012; Prémio Camões, 2013; Neustadt International Prize for Literature, 2014.

António Emílio Leite Couto – o nosso Mia Couto – nasceu na cidade moçambicana de Beira, em 05/07/1955, onde também se escolarizou. Seu pseudônimo tem origem curiosa: ele gosta de gatos e aproveitou como o irmão pequeno pronunciava seu nome; ficou-lhe, então, Mia Couto. Iniciou a ser publicado já aos 14 anos de idade e três anos depois, mudou-se para a capital de Moçambique – à época Lourenço Marques –, hoje Maputo. Ele começou a cursar Medicina na faculdade, mas não terminou, indo até o terceiro ano. É considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique e seu romance, Terra Sonâmbula, é reconhecido como um dos dez melhores livros da literatura africana do século XX.
O fio das missangas contém 29 breves contos de alta carga poética, como se pode conferir no trecho abaixo, transcrito do conto Meia culpa, meia própria culpa:
“Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.” (página 39)
Esta mesma passagem de cima vai servir-nos para comentar outras coisas. Perceberam alguma semelhança de estilo com algum escritor brasileiro, leitores deste blogue? A influência de Guimarães Rosa é bastante nítida e confessada por Mia Couto. Mas não é simples cópia, apropriação indébita, plágio. O escritor moçambicano serve-se do português e o mistura com várias influências de dialetos e línguas nativas de Moçambique. Outro ponto de se notar no mesmo excerto é que o autor instaura uma voz eminentemente feminina a narrar suas histórias (ou estórias).
Couto justifica a escolha do título no introito do livro:
“A missanga, todos a vêem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo.”
Acompanhemos a poesia constante com que Mia Couto exerce sua escrita:
“Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai.  Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.” (página 53, A Despedideira)
Há nesses contos surpreendentes inversões de perspectivas, nas quais fatos corriqueiros são abordados de modo completamente inusitado, devidamente embrulhados com sarcasmo, como no seguinte destaque:
“Sou um qualquer da vulgar raça humana, sem comprovado pedigree, se tiver cabimento em jornal, será nas páginas de anúncios desclassificados. Já o meu cão, ao contrário, é de apurada raça, classe comprovada em certificado de nascença. O bicho é bastante congênito, cheio de hereditariedade. Retriever, filho de retriever, neto de bisneto. Na pura linha dos ancestrais, como os reis em descendência genealógica. Mais caricato é o nome, de tão humano, quase me humilha: Bonifácio. Nome de bicho? Vou ali e não venho.” (página 103, O dono do cão do homem)
Um dos processos de formação de palavras de que dispõe nossa língua portuguesa é o da aglutinação, como no caso, por exemplo, da palavra aguardente (água+ardente, com perda de um dos ‘aa’). Mia Couto utiliza este processo intensamente, criando novos termos como ‘saia almarrotada’ (alma+amarrotada), mulher eferográvida (esférica+grávida), etc. Também o nosso Guimarães Rosa se vale deste recurso, criando imagens complexas.
Em outras vezes, aparecem os jogos de palavras:
“As outras moças esperavam pelo domingo para florescer. Eu me guardava bordando, dobrando as costas para que meus seios não desabrochassem. Cresci assim, querendo que o meu peito mirrasse na sombra. As outras moças queriam viver muito diariamente. Eu envelhecendo, a ruga em briga com a gordura. As meninas saltavam idades e destinavam as ancas para as danças. O meu rabo nunca foi louvado por olhar de macho. Minhas nádegas enviuvavam de assento em assento, em acento circunflexo.” (destaque meu, página 31, A saia almarrotada)
Obviamente, não serão todos os leitores que vão se sentir motivados para a leitura deste O fio das missangas. Não por ser difícil, os textos não contam com palavras rebuscadas, o leitor médio não teria muito o trabalho de ir ao dicionário e desvendá-las. Entretanto, deverá estar disposto a apreender significados novos causados por deslocamentos de sentidos, o que torna a leitura invariavelmente mais reflexiva. Devo deixar claro aqui, não vai nenhuma crítica àqueles que prefiram narrativas de ação, de suspense, ou aquelas nas quais o enredo se destaca como o item mais importante a ser observado. Vejam, por exemplo, os romances policiais; ali, o enredo é tudo.
Inegavelmente, porém, o leitor de Mia Couto – como o de Guimarães Rosa – deverá investir tempo e percepção diante de novos modos de olhar fatos comuns do dia a dia. Por mim, não é todo dia que tenho disposição para literatura deste tipo; há de ser naqueles em que minha sensibilidade esteja receptiva, alinhada com tal proposta e eu esteja disponível para uma leitura mais acurada, mais minuciosa.
Por tudo isto, recomendo o livro. É uma obra extraordinária, de alto valor literário; a prosa poética é, na verdade, uma gênero literário híbrido: não se organiza em estrofes, mas em parágrafos; dos poemas, pode ter as rimas, a métrica, uma voz lírica, figuras de estilo e de pensamento.

Pretendo voltar a ler este O fio das missangas com o mesmo cuidado e aplicação com que o li agora.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Resenha nº 93 - Perdido Em Marte, de Andy Weir

Resultado de imagem para livro perdido em marteTítulo original: The Martian
Título em Português: Perdido Em Marte
Autor: Andy Weir
Tradutor: Marcello Lino
Editora: Arqueiro
Edição: s/n
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-8041-335-9
Gênero literário: Romance (ficção científica)
Origem: EUA
Bibliografia: Conto – O Ovo (com tradução para o português e The Martian, 2011 – seu primeiro e até agora, único romance.

Andy Weir nasceu em 16/06/1972, na Califórnia, Estados Unidos. Seus poucos dados biográficos na internet dizem que este escritor sempre se interessou por ficção científica. Estudou ciência da computação na Universidade da Califórnia, em San Diego, não tendo, entretanto, se formado naquele curso. Aos 15 anos de idade iniciou-se no mundo do trabalho num laboratório e, desde então, atua como engenheiro de softwares.
Em 2011, autopublicou seu romance The Martian em formato digital pela gigante da área de livros, a Amazon Books (eles têm um programa de autopublicação digital, pela plataforma kindle). Os exemplares foram vendidos a 0,99 cents e logo bateram a casa dos 35 milhões vendidos. Direitos comprados pela Crown Publishing Group, o livro saiu no formato tradicional, em papel. Tornou-se um sucesso de vendas. Consta que, embalado pela enorme aceitação do seu trabalho pelo público, Andy está trabalhando no seu segundo romance.
Li as 335 páginas que compõem o texto deste Perdido em Marte em dois dias e meio, enquanto uma chuvinha persistentemente irritante caía lá fora, numa praia do Espírito Santo. Praia com chuva não dá, todo mundo sabe disso, e isso explica minha dedicação ao livro.
Mark Watney é um dos astronautas da missão Ares 3 que pretende colonizar o nosso vizinho planeta Marte. É um projeto para vários voos tripulados, rigorosamente planejado, com o envio primeiro de aparelhos que garantirão a sobrevivência do homem ali, com tanta segurança quanto possível. Não obstante, logo de cara acontece o primeiro grande problema: uma terrível tempestade de areia, que comumente varre a superfície do planeta, causa danos ao sistema de comunicação do acampamento e obriga o abortamento da missão. Mark sofre um acidente, seu traje é perfurado por uma vareta de metal, inutilizando a transmissão dos dados biológicos do seu traje espacial. Ainda de quebra, causa-lhe um ferimento no flanco. O grupo, sem contato com Mark, andando quase às cegas em meio a toda aquela areia suspensa no ar, acaba por dá-lo como morto e o deixa para trás, iniciando seu retorno à Terra.
Entretanto, Mark não morrera. O sangue que escorria da ferida em seu corpo coagula-se ao redor da vareta e veda a perda de oxigênio. O nosso astronauta, então, recupera pouco a pouco a consciência; examina o computador do seu traje, aquele que trasmite seus dados biológicos aos companheiros de jornada: está irremediavelmente quebrado. Experiente, sabe que sua única chance de sobrevivência imediata é retornar ao acampamento. Em segurança, dentro do alojamento, ele se aplica uma anestesia local, retira a vareta e dá os pontos necessários para a cicatrização. O tratamento incluirá repouso, alimentação e a ingestão de antibióticos.
A partir deste desastre inicial, o livro passa a narrar a história do ponto de vista de três núcleos: primeiro, o de Mark Watney e sua luta para sobreviver num planeta que “insiste em matá-lo”; segundo, o da nave Hermes, com o restante da tripulação de retorno à Terra; terceiro, a equipe da Nasa, que tudo monitora pelo sistema de comunicação e pelos satélites geoestacionários na órbita de Marte.
Perdido em Marte é dividido como um diário, com o tempo marcado não em anos (a duração do ano em Marte não é a mesma da Terra), mas em sóis; inicia-se em Sol 6:
“Estou ferrado.
Essa é a minha opinião abalizada.
Ferrado.
Seis dias após o início daqueles que deveriam ser os dois meses mais importantes da minha vida, tudo se tornou um pesadelo.
Nem sei quem vai ler isto. Acho que alguém vai acabar encontrando. Talvez daqui a cem anos.
Que fique registrado: não morri em Sol 6. O restante da tripulação certamente achou que eu tivesse morrido, e não posso culpá-los. Talvez decretem um dia de luto nacional em minha homenagem e minha página na Wikipédia vá dizer: “Mark Watney foi o único ser humano que morreu em Marte. ”
E, provavelmente, isso estará correto. Porque, sem dúvida, vou morrer aqui. Só que não em Sol 6, como todo mundo está achando. ” (página 9, capítulo 1)
São vários elogios rasgados a esse Perdido em Marte. Vários blogues, vários leitores, algumas análises em revistas como a Veja.
Lá fora a chuvinha chata e fina continuava. A leitura já estava bem adiantada, lá pelas páginas 80.
“Meu Deus, pensei com meus botões (expressão antiga essa, não? Hoje em dia usamos t-shirts que não têm botões), o que será que está acontecendo? ” Pouco a pouco, ia ficando convencido de que o livro em minhas mãos teria de ser lido à base de disciplina e do desejo ferrenho de ir até o fim. Queria, de fato, resenhá-lo, tinha assumido este prévio compromisso comigo mesmo. Além do mais, o livro é emprestado, já estou com ele há muito tempo e tenho o dever moral de devolvê-lo.
Já havia assistido ao filme do mesmo nome, com a direção de Ridley Scott. Dormi boa parte da sessão. Mas, é aquela história: filme é diferente de livro. Duas realizações culturais que requerem linguagens diferentes. Nem sempre um bom filme veio de um bom livro, ou vice-versa, etc., etc., etc.
Preferências livrescas não são mais que opiniões, e opiniões, cada um tem a sua. Não estava gostando do livro. E isso não tinha nada a ver com o gênero ficção científica. Aqui mesmo, resenhados no blogue, adorei o Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller, Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick...
Mark Watney é uma versão espacial, perdida em Marte, de McGyver. Isto equivale dizer que, do inverossímil, nosso herói consegue tirar soluções aparentemente tecnológicas (estão mais para “mágicas”), em sacadas geniais, impossíveis para os mortais comuns. E – é claro – os elementos a partir dos quais a mente privilegiada de Watney-McGyver enxerga a possibilidade de solução estão ali mesmo, na cena, convenientemente dispostos. Alguém lá em cima deve gostar muito, mas muito mesmo, de Mark Watney-McGyver.
Para sobreviver, nosso herói opta por plantar batatas. Elas são abundantes na ração dos astronautas, Mark é botânico. Resolve fácil o problema: pega um pouco de terra do planeta Terra (não tenho culpa se o nome do planeta é o mesmo do elemento que o compõe), mistura com a terra de Marte, adiciona escatologicamente bastante cocô. O próximo problema, o da irrigação do plantio, é uma das sacadas à McGyver:
"Cada molécula de hidrazina [o combustível dos motores] tem quatro átomos de hidrogênio. Portanto, cada litro de hidrazina contém hidrogênio suficiente para dois litros de água." (página 31)
Como se vê, a solução será conseguir a eletrólise de um combustível altamente explosivo como a hidrazina por meio de... uma descarga elétrica que poderá explodir tudo. Obviamente, Watney-McGyver tem pleno êxito na empreitada e consegue, afinal, a água necessária à irrigação dos tubérculos. 
“Preciso racionar as minhas AEVs [passeios lá fora, com o traje espacial], assim como estou fazendo com a comida. Não é possível limpar os filtros de CO². Uma vez saturados, não servem mais. A missão calculou uma AEV de quatro horas por tripulante por dia. Por sorte, os filtros de CO² são leves e pequenos, então a Nasa se deu ao luxo de mandar mais do que necessário. No total, tenho filtros de CO² para 1.500 horas de uso. Depois disso, qualquer AEV que eu fizer terá de ser administrada através da redução drástica do ar.” (página 18)
O livro tem inúmeros trechos assim, como o transcrito acima, altamente didáticos, mas eu não quero um livro didático no momento em que estou lendo Perdido em Marte. Descrição de reações químicas enxameiam o livro; tudo bem explicadinho. Eu posso entender a função de tais explicações: a necessidade de parecer sério, verdadeiro. Mas... isto produz um ritmo frouxo na narrativa. Ao texto falta uma respiração mais constante, mais adrenalínica. Esta inabilidade no controle da respiração do texto vai se tornar crítica na pressa com que o autor compõe as cenas finais do livro. Tudo acontece abruptamente agora, como se o autor quisesse se livrar logo da história.
Como disse, a narrativa é conduzida alternadamente pelos três núcleos dramáticos, o da Hermes, o de Watney em Marte e o da Nasa, na Terra. Todos personagens planos, sem conflitos internos. A maioria dos autores sabe dosar tais conflitos, normalmente reservando ao protagonista e ao antagonista uma maior intensidade psíquica. Portanto, me incomodou que todos – absolutamente todos – os personagens do livro sejam tão absolutamente planos. É intrigante que Mark Watney, após passar o diabo no adverso planeta Marte, psiquicamente seja o mesmo durante toda a história. Nada o modificou?! Nada lhe acrescentou nada?! Diante da morte certa, nenhum desespero?! Ascético demais para o meu gosto!
Andy Weir tenta tornar leve sua saga marciana com sarcasmo:
“Sim!” Eles disseram “sim”!
Não fico tão empolgado com um “sim” desde o baile de formatura!
Tudo bem, calma.
Tenho uma quantidade ilimitada de papel à disposição. Esses cartões eram para etiquetar lotes de amostras. Tenho cerca de cinquenta cartões. Posso usar os dois lados e, se necessário, posso reutilizá-los raspando a pergunta antiga.
A caneta vai durar muito mais que os cartões, portanto tinta não é um problema. Mas tenho que escrever sempre no Hab. Não sei de que porcaria alucinógena é feita essa tinta, mas tenho quase certeza de que evaporaria na atmosfera de Marte.” (página 112)
O problema é: levar esse sarcasmo a enésimo grau é terrivelmente estafante. Perde-se o efeito de imprevisto, que responde por boa parte da graça de um sarcasmo. Andy peca pelo excesso.
Estou em Sol 3, já não chove mais lá fora, mas o dia está nublado. Terminei de ler o livro por volta das duas horas da tarde. Pode ser, a minha intensa carga de leitura tenha tornado previsível o final previsível. Sem surpresas.
Perdido em Marte não é um livro horrível. Nem mesmo sofrível. Padece das mesmas coisas presentes em muitos Best-sellers. Muitas vezes, acontece o descuido do próprio autor, sabedor de que está produzindo para um público não desejoso de ater-se a detalhes de construção de enredo, de caracterização de personagens. É um livro bom se você ficar na complacente categorização de “entretenimento”.
Receio que o errado aqui seja eu. Não sou um profundo estudioso de literatura (atenção, estou assumindo que coisas como ficção científica, romance policial não sejam subgêneros, mas gêneros literários válidos), mas indiscutivelmente, minhas expectativas, meu gosto no tocante às leituras são fortemente influenciados pela experiência de vida, alguns conhecimentos mais técnicos, e uma forte carga de leitura.
Por fim, não resisto a um bom jeu de mot (jogo de palavra):  Mark Watney, “ao vencedor, as batatas! ”

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Resenha nº 92 - Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Resultado de imagem para livro quarto de despejoTítulo original: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática
Edição: 10ª edição
Copyright: 1992
ISBN: 978-85-08-17127-9
Gênero: Diário
Bibliografia: Quarto de Despejo (1960), Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963), Provérbios (1963); publicações póstumas: Diário de Bitita (1982), Meu Estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde Estaes Felicidade (2014).

Carolina Maria de Jesus, filha de pais negros e analfabetos, nasceu na cidade mineira de Sacramento, em 14 de março de 1914. Ela era filha ilegítima de um homem casado e foi maltratada durante toda a sua infância. Quando, aos sete anos de idade, a esposa de um rico fazendeiro ofereceu-se para lhe pagar os estudos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola. Ela parou de ir à instituição, mas tendo completado o segundo ano, sabia ler e escrever. Católica, apesar de ter sido expulsa da igreja junto com sua mãe (eram uma família ilegítima), tal opção religiosa vai aparecer no seu diário. Em 1937, após a morte de sua mãe, Carolina foi para São Paulo e passou a morar na favela; construiu sua própria casa, com papelão, lata, madeira e qualquer material de que pudesse se servir.
Em 1947, aos 33 anos, Carolina estava grávida e residindo na favela do Canindé, perto do Rio Tietê. Esta favela não existe mais, tendo dado lugar às obras da cidade. Sempre guerreira, ela era catadora de papel e com essa parca renda, sustentou seus filhos. Quando encontrava revistas e cadernos antigos em meio aos papéis que catava para vender, ela os guardava e depois escrevia em suas páginas. Esta constante atividade – a da escrita – angariou-lhe antipatia, pois não gostavam dela por ser alfabetizada em meio a analfabetos e pior ainda, ela escrevia sobre a vida na favela e sobre os favelados.
Carolina conseguiu emprego na casa do médico brasileiro precursor da cirurgia de coração, Dr. Euclydes de Jesus Zerbini. Ocupação providencial, pois além de lhe dar melhor suporte econômico, possibilitou-lhe o acesso aos livros da biblioteca do médico, em suas horas de folga. Carolina faleceu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos de idade.
Lida a obra, o que dizer dela? O que se pode dizer de Carolina Maria de Jesus e este seu desconcertante Quarto de Despejo, diante de sua biografia tão sofrida? Há quem não classifique este livro de literatura... O que seria ele, então?
Foi um autêntico sucesso quando de seu lançamento. Traduzido para 13 línguas, circulou o mundo encantando e chocando quem o lesse. Encantando, diante do talento dessa negra favelada, mãe solteira e mulher de uma fibra incrível; chocando, diante das misérias desta vida em favela, ou como o disse a própria Carolina, o quarto de despejo da cidade:
"3 de agosto... Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha. Eu estou com tanto sono que não posso parar de pé. E graças a Deus não estamos com fome. Hoje Deus está ajudando-me. Estou indecisa sem saber o que fazer. Estou andando de um lado para outro, porque não suporto permanecer no barracão limpo como está. Casa que tem lume no fogo fica tão triste! As panela fervendo no fogo também serve de adorno. Enfeita um lar.
Fui na dona Nenê. Ela estava na cosinha. Que espetaculo maravilhoso! Ela estava fazendo frango, carne e macarronada. Ia ralar meio queijo para por na macarronada!
Ela deu-me polenta com frango. E já faz uns 10 anos que eu não sei o que é isto.
... Na casa de dona Nenê o cheiro de comida era tão agradavel que as lagrimas emanava-se dos meus olhos, que eu fiquei com dó dos meus filhos. Eles haviam de gostar daqueles quitutes.” (páginas 105/106)
O jornalista Audálio Dantas, iniciante na época, fora destacado para fazer uma reportagem sobre a favela do Canindé, em São Paulo. Ele conheceu Carolina Maria de Jesus, sua história e ficou sabendo que ela escrevia. São vinte cadernos repletos de anotações. Audálio desistiu da sua reportagem. A história daquela mulher falava por si mesma. Resolveu dar às anotações o formato de um livro e o fez publicar.
O drama da vida da autora e da vida na favela são sua matéria-prima, como se pode ler:
“...Uma menina por nome Amalia diz a mãe que o espirito lhe pega. Saiu correndo para se jogar no rio. Varias mulheres lhe impedio o gesto. Passei o resto da tarde escrevendo. As quatro e meia o senhor Heitor ligou a luz. Dei banho nas crianças e preparei para sair. Fui catar papel, mas estava indisposta. Vim embora porque o frio era demais. Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.” (página 24)
Consciente, Carolina tem uma opinião firme sobre os políticos da época:
“Como é horrivel ver um filho comer e perguntar: ‘Tem mais? Esta palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cerebro  de uma mãe que olha as panela e não tem mais.
... Quando um politico diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na politica para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere nossa sensibilidade.” (página 38)
Para quem insiste em que Quarto de Despejo não seja literatura, eis um trecho em que ficam evidentes recursos literários, como no caso dessas prosopopeias (ou personificações):
“Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e o feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá.” (página 43)
A crítica social permeia o Quarto de Despejo todo, e em alguns trechos recebe um tratamento mais pontual:
“... A favela hoje está quente. Durante o dia a Leila e o seu companheiro Arnaldo brigaram. O Arnaldo é preto. Quando veio para a favela era menino. Mas que menino! Era bom, iducado, meigo, obidiente. Era o orgulho do pai e de quem lhe conhecia.
— Este vai ser um negro, sim senhor!
É que na Africa os negros são classificados assim:
— Negro .
— Negro turututú.
— É negro sim senhor!
Negro tú é o negro mais ou menos. Negro turututú é o que não vale nada. E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade. Mas o Arnaldo transformou-se em negro turututú depois que cresceu. Ficou estupido, pornografico, obceno e alcoolatra. Não sei como é que uma pessoa pode desfazer-se assim. Ele é compadre da Dona Domingas.” (página 51)
Impressionou-me um trecho em que a autora executa um jogo de percepções entre a visão onírica e a realidade cruel da favela:
“... Eu durmi. E tive um sonho  maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vestido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrels na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetaculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes pra minh’alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos.” (página 120)
Nota-se na transcrição acima a fé católica, a confiança em Deus, a não revolta pela sua condição de extrema pobreza. Ressalta dela uma idealização ingênua, mas não menos bonita.
Carolina não gosta dos políticos, como o Adhemar de Barros e o Juscelino Kubitschek, e onde está implícita uma crítica feroz à carestia de vida, que torna a vida dos favelados ainda pior:
“Tenho nojo, tenho pavor
 Do dinheiro de alumínio
 O dinheiro sem valor
 Dinheiro do Juscelino” (página 127)
Vale lembrar uns versos da música Como nossos pais, imortalizada na voz de Elis Regina:
Minha dor é perceber/Que apesar de termos/ Feito tudo o que fizemos/Nós ainda somos os mesmos/E vivemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos/Como os nossos pais”.
Quarto de Despejo hoje é uma obra quase esquecida do grande público. Circula nos meios acadêmicos. Parece que, passado todo aquele momento do pitoresco, do inusitado, os leitores viraram as costas para a obra. E, no entanto, o livro continua cruelmente atual, as coisas que Carolina Maria de Jesus nos disse naquela época são as mesmas coisas que ela continua nos dizendo. Sinal incontestável de que nada – ou pouco coisa – mudou. Por isso, vale a pena ler este contundente e necessário Quarto de Despejo.

domingo, 16 de abril de 2017

Resenha nº 91 - Laços de Família, de Clarice Lispector

Resultado de imagem para livro Laços de FamíliaTítulo Original: Laços de Família
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Copyright: 1960
Gênero Literário: Contos
Bibliografia: Romances – Perto do Coração Selvagem, 1943; O Lustre, 1946; A Cidade Sitiada, 1949; A Maçã no Escuro, 1961; A Paixão Segundo G. H., 1964; Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 1969; Água Viva, 1973; Um Sopro de Vida, 1978. Novela: A Hora da Estrela, 1978. Contos – Laços de Família, 1960; A Legião Estrangeira, 14964; Onde Estiveste de Noite?, 1974; A Via Crucis do Corpo, 1974; O Ovo e A Galinha, 1977; A Bela e A Fera, 1979. Literatura infantil – O Mistério do Coelho Pensante, 1967; A Mulher Que Matou Os Peixes, 1968; A Vida Íntima de Laura, 1974; Quase de Verdade, 1978; Como Nasceram As Estrelas, 1987. Crônicas – Para Não Esquecer, 1978; A Descoberta do Mundo, 1984. Correspondências – Correspondências, 2002; Minhas Queridas, 2007. Entrevistas – Entrevistas, 2007. Artigos de Jornal – Outros Escritos, 2005; Correio Feminino, 2006; Só Para Mulheres, 2006.

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, Ucrânia, em 10/12/1920 e faleceu no Rio de Janeiro, em 09/12/1977. Naturalizada brasileira, declarava-se pernambucana, sendo considerada a maior escritora de origem judia, desde Franz Kafka. Foi contista, romancista, cronista, autora de literatura infantil, tradutora, novelista e jornalista. Ela veio para o Brasil com sua família, ainda pequena. Após breve estada em Maceió, a família fixou residência em Recife, onde a futura escritora cresceu. Cursou a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 23/01/1943, Clarice casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente. Seu primeiro filho nasceu em Berna, Suíça, em 1948; o segundo nasceu nos Estados Unidos, em 1953. Clarice separou-se de Maury em 1959; motivo alegado: as constantes viagens dele.
Falar de Clarice Lispector é tarefa das mais difíceis: temos de achar o equilíbrio entre o demônio do pouco e o demônio do excesso. Trata-se, sem dúvida, da maior escritora brasileira de todos os tempos. Dona de uma escritura personalíssima, desconcertante muitas vezes, basta lermos algumas linhas e o estilo clariciano já se marca. Portanto, vamos nos ater a este absolutamente envolvente livro de contos que é Laços de Família.
São treze breves contos: 1) Devaneio e Embriaguez duma Rapariga, 2) Amor, 3) Uma Galinha, 4) A Imitação da Rosa, 5) Feliz Aniversário, 6) A Menor Mulher do Mundo, 7) O Jantar, 8) Preciosidade, 9) Os Laços de Família, 10) Começos de Uma Fortuna, 11) Mistério em São Cristóvão, 12) O Crime do Professor de Matemática, 13) O Búfalo.
Li este Laços de Família cinco vezes, esta última exclusivamente para trabalhar a resenha que me propus fazer. E, em todas as vezes, os contos de Clarice Lispector conseguem me colocar numa situação de suave encantamento, como se os lesse pela primeira e surpreendida vez. Impressiona a característica comum a esses textos, formando um todo absolutamente equilibrado, soando como variantes enriquecedoras de um mesmo bloco, de um mesmo sentir o mundo.
Faz parte das estratégias da autora não a análise das coisas do mundo externo – aliás, em seus contos quase não há movimentos externos – mas a análise do mundo interno dos seus personagens. Ou melhor me expressando, seus temas vão buscar na interpretação dos acontecimentos sua razão de ser. Clarice não teoriza sobre psicologia ou filosofia; simplesmente disseca o sentir de suas criaturas, e mesmo quando o foco é um personagem masculino, o olhar do narrador é intrinsecamente feminino. Flui deles um contundente sentir, mediado pela sensibilidade feminina.
Tenho minhas preferências em relação aos contos coletados em Laços de Família. O Búfalo, A Menor Mulher do Mundo, A Galinha, O Crime do Professor de Matemática, Amor e Feliz Aniversário são meus trabalhos preferidos.
Os eventos que vão detonar as sensações e sentimentos dos personagens são os mais prosaicos possíveis. Fatos miúdos, sem importância aparente são capazes de jogar a psiquê das criaturas num torvelinho. Um exemplo disso está nas páginas 14, conto Devaneio e Embriaguez de Uma Rapariga:
“Mas que sensibilidade! Agora não apenas por causa do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando nas escamas. Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adiante: porque era protegida por uma situação, protegida como toda a gente que atingiu uma posição na vida. Como uma pessoa a quem lhe impedem de ter a sua desgraça. ”
A escrita de Clarice tem profundas raízes poéticas, o que fica bastante exposto no conto Amor, por exemplo (página 29):
“E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.”
Em Uma Galinha, a ave que seria o almoço dominical de uma família foge em voos curtos pelo telhado do vizinho. Um rapaz, por ser mais ágil, persegue-a, pois “era um caçador adormecido”. Consegue pegar a galinha. De susto, ela põe um ovo e a reação familiar:
“Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, de tão pequeno num prato, solevava a abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer nosso bem!” (página 32)
Em Feliz Aniversário, narra-se a festa de aniversário de oitenta e nove anos da matriarca da família. Ela a tudo e a todos observa, calada. O alheamento é característico da senilidade e a família finge estar ali de boa vontade, como forma de homenagem à velha. E ela se sai com um rompante que deixa dúvidas aos presentes sobre se ela está consciente ou não:
“Como?! Como tendo sido tão forte pudesse dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independentemente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas era o que era; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com a força insuspeita cuspiu no chão. ” (página 61)
A Menor Mulher do Mundo é um conto diferente, caminhando para o estranho. Um explorador, Marcel Pretre, encontra na África uma mulher da tribo dos pigmeus. Pigmeus já são pequenos, mas estes são menores dos menores. Entre eles, Marcel encontra um ser menor mesmo dentre eles, a menor mulher do mundo. Ela mede escassos 45 centímetros de altura. E está grávida. Esta é a "deixa" para o narrador de Clarice tecer um série de considerações, tanto para o próprio explorador quanto para várias mulheres ao redor do mundo, ao lerem a notícia e darem com a foto de Pequena Flor nos jornais.
No trecho que se segue, o fato abordado toca o horror:
“A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro, e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara do tempo de orfanato. Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la consolando-a.” (página 71)
Uma outra passagem, do mesmo conto, desta vez na relação de Pequena Flor com seu explorador:
“É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade. Vaidade que diminuiria quando ela acrescentasse que também amava muito o anel do explorador e que amava muito a bota do explorar. E quando este desinchasse desapontado, Pequena Flor não compreenderia por quê. Pois, nem de longe, seu amor pelo explorador – pode-se mesmo dizer ‘profundo amor’, porque, não tendo outros recursos, ela estava reduzida à profundeza...” (página 74)

O conto O Crime do Professor de Matemática envereda por outro lado: o professor em questão tinha de se livrar do seu cão, pois iria mudar-se para outro lugar. Abandona-o. Não consegue se livrar do sofrimento imposto por sua consciência: abandonara um amigo que confiava nele. Encontra, então, um outro cão morto, na rua. Recolhe-o num saco e leva-o para um lugar tranquilo para enterrá-lo. O ato do enterro alivia sua consciência, pelo método da substituição e ele então se recorda:
“‘Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua’, pensou então com auxílio da saudade. ‘Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu – como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei’, refletiu curioso. ” (página 121)
Mas, o ponto alto de todo o livro, na minha modesta opinião, a ideia genial vai se estruturar, pouco a pouco, no último conto do livro, O Búfalo. Este é uma pérola, uma pequena obra-prima da literatura brasileira. Uma mulher, cheia de ódio por uma desilusão amorosa, busca algo em um zoológico que materialize seu sentimento. Não obstante, todas as manifestações que encontra são de amor: “até o leão lambeu a testa glabra da leoa. ” Aquilo era amor. Em outros, encontra apenas agressão. Em certo momento, dá com um búfalo dentro de um cercado:
“E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olharam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. ” (página 135)
Soberba a imagem, não? Um búfalo tranquilo de ódio... só mesmo Clarice!
As poucas 138 páginas que compõem o livro Laços de Família não se entregam facilmente ao raciocínio inicial, à sensibilidade amornecida. Estes 13 contos são como um bom e precioso vinho, que se sorve lentamente, de gole em gole, para deixarmos o paladar, a visão e o odor aproveitarem todas as nuances.
E o curioso é que Clarice Lispector é a autora mais citada na internet, muitas vezes com frases que não são suas. Ela consegue trabalhar seu texto magnificamente em dois planos: temos um sentido superficial, de apreensão imediata, mas o que importa mesmo é o sentido profundo. Enganosamente fácil, o estilo de Lispector se aproxima, de alguma forma, das parábolas com seus significados e ensinamentos em nível mais aprofundado. Metáforas, comparações, que só se deixam apreender na releitura atenta.
Vou terminando esta resenha antes que me perca em mais excessos de admiração.
Recomendo fortemente a leitura não só desse conto, leitor, mas da obra toda. Entretanto, há de ser assim – leitura com tempo, com fruição. Deveria ser proibida a leitura das obras dessa autora por obrigação. Não dá. Clarice tem de ser acessada primeiro pelo sentir, pelo prazer. Depois, sim, o raciocínio, a análise vai encontrando os porquês, as relações, as razões de tanto encantamento.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Resenha nº 90 - Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves

Resultado de imagem para livro um defeito de corTítulo Original: Um Defeito de Cor
Autora: Ana Maria Gonçalves
Editora: Record
Copyright: 2006
ISBN: 978-85-01-07175-0
Edição: 12ª edição
Origem: Brasil
Número de páginas: 947
Gênero Literário: Romance histórico
Bibliografia: Romances - Ao lado e à margem do que sentes por mim (2002) e Um defeito de cor (2006)

Ana Maria Gonçalves é mineira de Ibiá-MG, nascida em 13 de fevereiro de 1947. Sua profissão inicial era publicitária e residiu em São Paulo por treze anos. Ao viajar para a Bahia, encantou-se pela Ilha de Itaparica, onde fixou residência por cinco anos. E foi lá que essa mineira descobriu seu talento de ficcionista. Atualmente, ela reside em New Orleans, no estado americano de Louisiana.
No prólogo do livro Um Defeito de Cor ela resgata essa história e nos diz que a sua principal obra é fruto de “serendipidade”. Por essa palavra estranha, oriunda do inglês serendipty, entende-se uma descoberta afortunada, ao acaso, capaz de influenciar o rumo de uma pesquisa, de uma decisão, de um projeto. Ana nos conta que, ao mexer em alguns livros de uma livraria, os livros caíram e o único que ela conseguiu segurar foi uma obra de Jorge Amado, o Bahia de Todos Os Santos – um guia de ruas e mistérios. Tal livro lhe deu um novo rumo na vida, pois que ela estava insatisfeita com a profissão de publicitária e aquele fato fortuito lhe abria as referências de uma Bahia histórica, cheia de cultura de matriz africana – uma proposta de atividade.

Numa entrevista, Ana Maria disse que levou cinco anos para escrever seu livro, divididos entre a pura pesquisa, nove meses em que estabeleceu o texto inicial  e mais dois, para reescrever, depurar o romance – que ela afirma ter reescrito dezenove vezes, com redução de quinhentas páginas. É importante divulgar isso, principalmente para aqueles que pensam que um autor, qualquer seja, senta-se diante do computador e produz seu texto de modo quase mágico. Sabemos, os que escrevemos, isso não se dá dessa forma. Muita pesquisa, muito esforço. Ana disse também que, na fase de produção do texto em si, escrevia 30 horas seguidas. Há o incrível trabalho de lidar com a construção de mais de 480 personagens que perpassam as páginas da obra.
Um defeito de cor é um livro que tem tudo para ser considerado, em algum momento, um verdadeiro clássico da literatura brasileira do século XXI – assim como se tornou Os Tambores de São Luís, de Josué Guimarães, publicado em 1975, um dos clássicos do século XX. Herdeiro direto daqueles romanções do século XIX, construído de maneira clássica, com começo, meio e fim, esta obra de Ana Maria conta, ainda, com a organização por longos capítulos – dez ao todo, espraiando-se por novecentas e quarenta e sete páginas – divididos por subtítulos. Da mesma opinião é Millôr Fernandes, afirmando ter sido Um defeito de cor um dos melhores livros que lera.
Uma enorme quantidade de histórias evolui ao redor do fio condutor (ou plot), narrando a história de uma mulher negra, chamada Kehinde, conhecida também pelo seu “nome de branco”, Luísa. Trata-se de ninguém menos que Luísa Mahin, mãe do abolicionista, jornalista, poeta e advogado Luís Gama; esta é uma história real. Luísa nasceu na Costa Mina, África, no início do século XIX. Raptada aos oito anos de idade, é enviada para o Brasil como escrava. Essa mulher forte, de caráter profundamente independente, participa da Revolta dos Malês, pela qual os escravos muçulmanos queriam implantar no Brasil, mais precisamente na Bahia, um califado. Rapidamente, os fatos a respeito de Luísa Mahin se misturaram ao mito.
Mas falemos diretamente do romance Um defeito de cor. Por que esse título estranho? Os negros não podiam ocupar cargos públicos ou empregos, se não houvesse uma declaração oficial a lhes caracterizar um defeito de cor. Funcionava como um humilhante documento pelo qual o solicitante renegava sua condição de negro.
O romance é excepcionalmente construído. Como nos grandes romances do século XIX, em que narrativas longas forneciam um painel complexo e bastante abrangente do assunto no qual mergulhavam, o livro da mineira de Ibiá nos fornece um portentoso relato da situação do negro escravo no Brasil e – o que é melhor – contado a partir das vivências de uma escrava. Desfilam descrições e comentários sobre Salvador daquela época, com seus engenhos de cana-de-açúcar e, mais tarde, as plantações de cacau. Também há descrições da vida em São Sebastião (mais tarde, conhecido como Rio de Janeiro); ali, na paisagem carioca, os maneirismos franceses, as madames e os cavalheiros da corte são colocados em contraponto com as péssimas condições de higiene, de miséria de uma parte daquela sociedade. Descreve-se a atividade dos tigres, escravos com a função de carregarem os barris cheios de água suja e dejetos humanos para os jogarem ao mar. Sente-se o fedor das ruas menos charmosas do Rio de então.
A política também tem voz, bem como a crítica social. Aos negros se reservava o pior daquela sociedade. Eles podiam comprar sua liberdade, mediante uma carta de alforria, mas mesmo isso não lhes era garantido, pois, uma vez libertos, poderiam voltar facilmente ao regime de escravidão. Escravos não podiam ter direitos, eram simplesmente animais comprados para servirem a seu dono; logo, tudo o que possuíssem podia ser tomado. Acontecem tentativas de revolta, desumanamente sufocadas a poder de espadas e de mortes por meio de torturas terríveis. Na África, acontece a política de bastidores ora entre franceses e africanos, ora entre ingleses e nativos, com acordos nem sempre muito honestos, visando garantir o poder das partes envolvidas.
Toda a sensualidade das mulheres e homens de cor é exposta no livro. Entretanto, essa característica não é vista de um modo negativo. Não é demais nos lembrarmos de que os negros não eram cristãos, possuindo sua galeria de deuses e deusas próprios, numa cultura valorizadora das forças da natureza, daí a naturalidade com que encaram seus próprios impulsos.
Está aí outro grande ponto do livro: Ana Maria Gonçalves, ao criar seus personagens, respeita-lhes integralmente o caldo de cultura, vale dizer, a religião (ou as religiões, para ser mais justo com as várias etnias escravizadas). A galeria de divindades, com exus, eguns, egunguns, etc. é de estontear quem não esteja afeito ao assunto.
Os fenômenos mediúnicos são abundantes nos cultos descritos no livro:
“Formávamos uma roda e cantávamos para Sogbô, e uma das vodúnsis que não estavam incorporadas colocou no meio do salão uma panela de barro cheia de dendê borbulhante, de tão quente, onde outra vodúnsi começou a jogar pedaços de uma ave que não consegui distinguir qual era, pois já tinha sido cortada no quarto de sacrifícios. Logo o cheiro de carne queimada superava o do dendê, e foi então que a vodúnsi feita para Sogbô entrou no salão, rápida como o raio do seu vodum, e parou ao lado da panela. De olhos bem abertos, mas não mais que os meus, pois eu já estava imaginando o que ia acontecer, e sem nenhuma proteção, ela enfiava os braços dentro da panela e mexia o azeite, usando as mãos como colher para catar os pedaços de carne. Aquilo me causou tão má impressão que desviei os olhos quando percebi que ela ia tirar as mãos de dentro da panela, com medo de não gostar de ver o que poderia ter sobrado delas. Mas quando percebi que as pessoas continuaram a cantar e ainda com mais alegria, criei coragem. As mãos da vodúnsi estavam intactas...” (página 627)
A negra Luísa é posta, pela sinhá, como “escrava de ganho”, isto é, tem permissão por escrito para trabalhar na rua, sendo estipulada uma quantia a ser paga à sua dona:
“Na segunda-feira, por volta das seis horas da manhã, resolvi deixar a vergonha de lado e disputar os fregueses no grito, como faziam os vendedores que não tinham ponto fixo. Achei que o Terreiro de Jesus seria um bom lugar, porque por lá passava um grande número de pessoas, não apenas pretos, mas também os brancos e mulatos que trabalhavam nos escritórios e casas de comércio da região. ” (página 248)
Kehinde/Luísa não é uma escrava qualquer, pois aprende a ler com o mussurumin (muçulmano) Fatumbi, contratado para servir de preceptor à sinhazinha:
“Eu e a sinhazinha passávamos a maior parte do tempo no quarto, ela fingindo estudar e eu estudando de fato, com os livros que não estavam em uso. Um dia antes da chegada do padre Notório, pedi ao Fatumbi que escrevesse para eu copiar o Pai-Nosso e a Ave-Maria, que achei muito mais fáceis de rezar depois de ler e entender. Mostrei para a Esméria e ela disse que nunca poderia imaginar que ali, naquele monte de tracinhos que não diziam nada, pelo menos para ela, estavam orações tão bonitas. ” (página 93)
Fazem parte deste imenso painel dos acontecimentos do Brasil naquele século XIX os relatos sobre as experiências pioneiras do padre Bartolomeu de Gusmão e a Passarola (o Padre Voador, como também ficou conhecido, foi um precursor de Santos Dumont em suas pesquisas sobre o voo com um aparelho mais pesado que o ar, no caso o protótipo cognominado "Passarola"), Tiradentes, em algumas de suas visitas à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (e, posteriormente, sua execução), o contato de Luísa com o escritor Joaquim Manoel de Macedo (autor do romance A Moreninha), a renúncia de Dom Pedro I em favor de Dom Pedro II.
Em retorno ao Brasil, já velha e cega, Luísa é a narradora de sua própria história, sempre em primeira pessoa, contando em tom missivista toda a sua vida ao filho Luís Gama – filho este que desaparece, vendido pelo pai como escravo, por dívida de jogo – mesmo tendo nascido homem livre. Este fato trágico, que Luísa encara como falha sua ao confiar o filho ao pai, vai persegui-la a vida toda. Ela nunca se conforma: não desiste de procurar o filho e a cada desafio da vida sai-se com uma força e uma inteligência admiráveis.
Exerce várias profissões; como escrava de ganho, especializa-se na confecção e venda dos famosos cookies, pois tinha trabalhado em casa de ingleses; já liberta, é dona de padaria, vendedora de panos-de-costa importados da África (um pano arranjado sobre os ombros, caindo pelas costas, tendo como função distinguir o posicionamento feminino na comunidade), dona de construtora de imóveis na África.
No plano amoroso, as coisas são igualmente complicadas para nossa narradora. Relacionamentos tendo por base apenas o impulso sexual, amores reais, relativamente duradouros uns, outros menos. Apesar da batalha que foi sua vida, Luísa ainda teve muito filhos: Banjokô, Luís Gama, João, Maria Clara. Os dois primeiros, no Brasil; os dois últimos, na África. Luís Gama, como disse, foi quem se saiu melhor, apesar de ter sido vendido pelo pai e é dele que vou acrescentar mais algumas informações.
A bem da exatidão, quando dizemos que ele fora advogado, queremos dizer advogado prático ou rábula – termo usado para o autodidata que atuava como advogado sem ter o diploma correspondente.
Ele é considerado hoje como um dos expoentes do romantismo, tendo escrito os poemas que compõem o livro Trovas Burlescas e Outros Poemas, com organização da professora Lígia Ferreira. Apesar da contribuição literária importante, o filho de Luísa Mahin é pouquíssimo conhecido. É a primeira voz na literatura brasileira a se assumir como negra. Orfeu de Carapinha, talvez sua obra mais conhecida (ou menos esquecida), é francamente manifestada por um eu-lírico em primeira pessoa, que se identifica claramente como negro. E, fato absolutamente inédito, Luís Pinto Gama, após 133 anos de sua morte, recebeu o título de advogado, outorgado pela Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, pela sua atuação em favor da liberdade, igualdade e respeito. Este é um parêntese nesta resenha, que julgo importante, pois talvez não tenha a oportunidade de referir-me a este escritor, de resto, vinculado à trajetória de Um defeito de cor.
Ana Maria Gonçalves instaura uma narradora esperta, uma ótima contadora de histórias. O texto me atraiu desde o início, quando comprei o livro e o folheei, como sempre faço. Ganhou-me ainda na livraria. O texto, bastante mais longo do que se possa deduzir de suas novecentas e quarenta e sete páginas, é composto em caracteres pequenos, com margem estreita à esquerda e à direita. Não obstante, a história é extremamente envolvente: só consegui largá-lo agora, ao final da leitura, e não sem pesar.
O talento narrativo da Luísa criada pela autora me lembra daquela Xerazade (ou, se preferirem, Scherazade) de Mil e Uma Noites, sempre adiando o final da história, buscando um pretexto para enfiar mais um episódio e manter a atenção do soberano, como na estratégia textual usada abaixo, na fala da narradora:
“Aliás, já está quase na hora de começar a falar disso e encerrar a penúltima parte desta história, mas antes preciso contar algumas coisas e mais uma vez vou tentar ser breve, como tenho prometido desde o início, sem cumprir. ” (página 873)
Ana Maria põe na boca de sua narradora uma digressão contundente sobre a condição do negro, que se cola à voz da própria autora, ela também uma negra:
“Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim. Aliás, em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela era nossa terra e éramos em maior número. O que pensei naquela hora, mas não disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais perfeita e vencedora que o padre. Não tenho defeito algum e, talvez para mim, ser preta foi e é uma grande qualidade, pois se fosse branca não teria me esforçado tanto para provar do que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e compensado com tanto êxito. Eu me sinto muito mais orgulhosa de ter nascido Kehinde do que sentiria se tivesse nascido padre Clement, um bom homem, com certeza, mas que se submetia à necessidade de agradar aos brasileiros ricos de Lagos, Porto Novo e Uidá para se estabelecer com segurança e conforto nessas cidades. ” (página 893)
Para terminar, como cheguei a esse Um defeito de cor? Ou, reproduzindo a fala de uma pessoa muito querida, “como você consegue descobrir esses livros? ”. Resposta à primeira pergunta: assisti a uma resenha no canal do Youtube Bons livros para ler, feita pelo sociólogo e livreiro Luiz Guilherme de Beaurepaire; resposta à segunda: quando amamos com paixão alguma coisa, estamos atentos a ela – incluindo aí a serendipidade abordada por Ana Maria Gonçalves.



segunda-feira, 20 de março de 2017

Resenha nº 89 - Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adchie

Resultado de imagem para livro sejamos todos feministasTítulo: Sejamos Todos Feministas
Título Original: We Should All Be Feminists
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Christina Baum
Edição: 1ª edição, 5ª reimpressão
Editora: Companhia das Letras
ISBN:978-85-359-2547-0
Origem: Nigéria
Número de páginas: 63
Gênero Textual: Palestra (transcrita)
Bibliografia: Romances: Meio Sol Amarelo (2008); Hibisco Roxo (2011); Americanah (2014). Conto: The thing around your neck (2009). Palestras: The danger of the single story – O perigo de uma história única, TED – Ideas Worth spreading (2009) e We should all be feminists – Sejamos todos feministas (2012) – TEDXEuston.

Caso raro em toda a minha experiência leitora, Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora que conquistou minha apreciação antes mesmo de eu ter lido uma só página de sua obra. Esta autora nigeriana, nascida na cidade de Enugu, em 1977, me fez prestar atenção nela por meio da famosíssima palestra no Youtube, O perigo de uma história única. Já havia ouvido falar dela, já havia visto livros seus em ilhas expostas em livrarias – mas, de fato, meu contato para valer foi a partir da citada palestra. 
Foi, portanto, muito fácil incluí-la nesse meu projeto de homenagem às mulheres - projeto este que ocupará todas as resenhas programadas para este mês.
Meio sol amarelo foi ganhador do prêmio literário Orange Prize, tendo sido também adaptado para o cinema em 2013. Traduzida para mais de trinta línguas, Chimamanda apareceu em inúmeros periódicos, como as revistas New Yorker e Granta. Esta última, Granta, é a bíblia da literatura de língua inglesa.
Então, tenho em mãos o opúsculo Sejamos todos feministas. Pequeno grande livro. Como da outra vez (na palestra que deu origem ao livro), ela nos oferta seu ponto de vista sobre tão delicado tema, o feminismo. Ao mesmo tempo que Adichie nos dá um texto emocional, a partir de suas vivências como negra e mulher, numa sociedade fortemente machista como a da Nigéria, como a americana – e, de resto, com a mesma característica em qualquer país do mundo, uns mais, outros menos, sua exposição também conta com um forte apoio contextualizado e um conjunto de argumentos dignos de nota:
“Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar “normal” que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens. ” (página 17)
Seu feminismo advém de uma visão balanceada, de uma compreensão de haver papéis diferentes para homens e mulheres, não sendo aquele feminismo raivoso, que propõe a queima de sutiãs em praça pública:
“Homens e mulheres são diferentes. Temos hormônios em quantidades diferentes, órgãos sexuais diferentes e atributos biológicos diferentes – as mulheres podem ter filhos, os homens, não. Os homens têm mais testosterona e em geral são fisicamente mais fortes do que as mulheres. Existem mais mulheres do que homens no mundo – 52% da população mundial é feminina –, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. ” (página 20)
Na sequência argumentativa, a autora conclui:
“Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência: quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar. ” (página 21)
Contraditando a ideia de que o machismo existe porque a cultura assim o estabelece, Chimamanda dá um verdadeiro xeque-mate argumentativo:
“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura. ” (página 48)
E, lucidamente, nossa autora fecha seu texto redefinindo e atualizando o conceito de feminismo:
“A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar’. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar. ” (página 50)
Sejamos todos feministas, desta forma, se configura como uma proposta de valorização do ser humano. Homens e mulheres, mais verdadeiros consigo mesmos e com os outros, têm maior chance de convivência harmônica e produtiva. Trata-se de respeitar as diferenças, no que forem diferentes; valorizar a universalidade, no que forem universais.
A luta pelo reconhecimento do feminino não é de hoje; Christine de Pizan, já no século XIV escreveu o que é reconhecido como o primeiro tratado feminista, O Livro da Cidade das Mulheres, em Paris; Simone de Beauvoir tornou-se famosa ao produzir O Segundo Sexo, só para citar algumas batalhadoras. A elas vem somar-se Chimamanda Ngozi Adichie, com este depoimento cuja leitura mais que recomendo.