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sexta-feira, 31 de março de 2017

Resenha nº 90 - Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves

Resultado de imagem para livro um defeito de corTítulo Original: Um Defeito de Cor
Autora: Ana Maria Gonçalves
Editora: Record
Copyright: 2006
ISBN: 978-85-01-07175-0
Edição: 12ª edição
Origem: Brasil
Número de páginas: 947
Gênero Literário: Romance histórico
Bibliografia: Romances - Ao lado e à margem do que sentes por mim (2002) e Um defeito de cor (2006)

Ana Maria Gonçalves é mineira de Ibiá-MG, nascida em 13 de fevereiro de 1947. Sua profissão inicial era publicitária e residiu em São Paulo por treze anos. Ao viajar para a Bahia, encantou-se pela Ilha de Itaparica, onde fixou residência por cinco anos. E foi lá que essa mineira descobriu seu talento de ficcionista. Atualmente, ela reside em New Orleans, no estado americano de Louisiana.
No prólogo do livro Um Defeito de Cor ela resgata essa história e nos diz que a sua principal obra é fruto de “serendipidade”. Por essa palavra estranha, oriunda do inglês serendipty, entende-se uma descoberta afortunada, ao acaso, capaz de influenciar o rumo de uma pesquisa, de uma decisão, de um projeto. Ana nos conta que, ao mexer em alguns livros de uma livraria, os livros caíram e o único que ela conseguiu segurar foi uma obra de Jorge Amado, o Bahia de Todos Os Santos – um guia de ruas e mistérios. Tal livro lhe deu um novo rumo na vida, pois que ela estava insatisfeita com a profissão de publicitária e aquele fato fortuito lhe abria as referências de uma Bahia histórica, cheia de cultura de matriz africana – uma proposta de atividade.

Numa entrevista, Ana Maria disse que levou cinco anos para escrever seu livro, divididos entre a pura pesquisa, nove meses em que estabeleceu o texto inicial  e mais dois, para reescrever, depurar o romance – que ela afirma ter reescrito dezenove vezes, com redução de quinhentas páginas. É importante divulgar isso, principalmente para aqueles que pensam que um autor, qualquer seja, senta-se diante do computador e produz seu texto de modo quase mágico. Sabemos, os que escrevemos, isso não se dá dessa forma. Muita pesquisa, muito esforço. Ana disse também que, na fase de produção do texto em si, escrevia 30 horas seguidas. Há o incrível trabalho de lidar com a construção de mais de 480 personagens que perpassam as páginas da obra.
Um defeito de cor é um livro que tem tudo para ser considerado, em algum momento, um verdadeiro clássico da literatura brasileira do século XXI – assim como se tornou Os Tambores de São Luís, de Josué Guimarães, publicado em 1975, um dos clássicos do século XX. Herdeiro direto daqueles romanções do século XIX, construído de maneira clássica, com começo, meio e fim, esta obra de Ana Maria conta, ainda, com a organização por longos capítulos – dez ao todo, espraiando-se por novecentas e quarenta e sete páginas – divididos por subtítulos. Da mesma opinião é Millôr Fernandes, afirmando ter sido Um defeito de cor um dos melhores livros que lera.
Uma enorme quantidade de histórias evolui ao redor do fio condutor (ou plot), narrando a história de uma mulher negra, chamada Kehinde, conhecida também pelo seu “nome de branco”, Luísa. Trata-se de ninguém menos que Luísa Mahin, mãe do abolicionista, jornalista, poeta e advogado Luís Gama; esta é uma história real. Luísa nasceu na Costa Mina, África, no início do século XIX. Raptada aos oito anos de idade, é enviada para o Brasil como escrava. Essa mulher forte, de caráter profundamente independente, participa da Revolta dos Malês, pela qual os escravos muçulmanos queriam implantar no Brasil, mais precisamente na Bahia, um califado. Rapidamente, os fatos a respeito de Luísa Mahin se misturaram ao mito.
Mas falemos diretamente do romance Um defeito de cor. Por que esse título estranho? Os negros não podiam ocupar cargos públicos ou empregos, se não houvesse uma declaração oficial a lhes caracterizar um defeito de cor. Funcionava como um humilhante documento pelo qual o solicitante renegava sua condição de negro.
O romance é excepcionalmente construído. Como nos grandes romances do século XIX, em que narrativas longas forneciam um painel complexo e bastante abrangente do assunto no qual mergulhavam, o livro da mineira de Ibiá nos fornece um portentoso relato da situação do negro escravo no Brasil e – o que é melhor – contado a partir das vivências de uma escrava. Desfilam descrições e comentários sobre Salvador daquela época, com seus engenhos de cana-de-açúcar e, mais tarde, as plantações de cacau. Também há descrições da vida em São Sebastião (mais tarde, conhecido como Rio de Janeiro); ali, na paisagem carioca, os maneirismos franceses, as madames e os cavalheiros da corte são colocados em contraponto com as péssimas condições de higiene, de miséria de uma parte daquela sociedade. Descreve-se a atividade dos tigres, escravos com a função de carregarem os barris cheios de água suja e dejetos humanos para os jogarem ao mar. Sente-se o fedor das ruas menos charmosas do Rio de então.
A política também tem voz, bem como a crítica social. Aos negros se reservava o pior daquela sociedade. Eles podiam comprar sua liberdade, mediante uma carta de alforria, mas mesmo isso não lhes era garantido, pois, uma vez libertos, poderiam voltar facilmente ao regime de escravidão. Escravos não podiam ter direitos, eram simplesmente animais comprados para servirem a seu dono; logo, tudo o que possuíssem podia ser tomado. Acontecem tentativas de revolta, desumanamente sufocadas a poder de espadas e de mortes por meio de torturas terríveis. Na África, acontece a política de bastidores ora entre franceses e africanos, ora entre ingleses e nativos, com acordos nem sempre muito honestos, visando garantir o poder das partes envolvidas.
Toda a sensualidade das mulheres e homens de cor é exposta no livro. Entretanto, essa característica não é vista de um modo negativo. Não é demais nos lembrarmos de que os negros não eram cristãos, possuindo sua galeria de deuses e deusas próprios, numa cultura valorizadora das forças da natureza, daí a naturalidade com que encaram seus próprios impulsos.
Está aí outro grande ponto do livro: Ana Maria Gonçalves, ao criar seus personagens, respeita-lhes integralmente o caldo de cultura, vale dizer, a religião (ou as religiões, para ser mais justo com as várias etnias escravizadas). A galeria de divindades, com exus, eguns, egunguns, etc. é de estontear quem não esteja afeito ao assunto.
Os fenômenos mediúnicos são abundantes nos cultos descritos no livro:
“Formávamos uma roda e cantávamos para Sogbô, e uma das vodúnsis que não estavam incorporadas colocou no meio do salão uma panela de barro cheia de dendê borbulhante, de tão quente, onde outra vodúnsi começou a jogar pedaços de uma ave que não consegui distinguir qual era, pois já tinha sido cortada no quarto de sacrifícios. Logo o cheiro de carne queimada superava o do dendê, e foi então que a vodúnsi feita para Sogbô entrou no salão, rápida como o raio do seu vodum, e parou ao lado da panela. De olhos bem abertos, mas não mais que os meus, pois eu já estava imaginando o que ia acontecer, e sem nenhuma proteção, ela enfiava os braços dentro da panela e mexia o azeite, usando as mãos como colher para catar os pedaços de carne. Aquilo me causou tão má impressão que desviei os olhos quando percebi que ela ia tirar as mãos de dentro da panela, com medo de não gostar de ver o que poderia ter sobrado delas. Mas quando percebi que as pessoas continuaram a cantar e ainda com mais alegria, criei coragem. As mãos da vodúnsi estavam intactas...” (página 627)
A negra Luísa é posta, pela sinhá, como “escrava de ganho”, isto é, tem permissão por escrito para trabalhar na rua, sendo estipulada uma quantia a ser paga à sua dona:
“Na segunda-feira, por volta das seis horas da manhã, resolvi deixar a vergonha de lado e disputar os fregueses no grito, como faziam os vendedores que não tinham ponto fixo. Achei que o Terreiro de Jesus seria um bom lugar, porque por lá passava um grande número de pessoas, não apenas pretos, mas também os brancos e mulatos que trabalhavam nos escritórios e casas de comércio da região. ” (página 248)
Kehinde/Luísa não é uma escrava qualquer, pois aprende a ler com o mussurumin (muçulmano) Fatumbi, contratado para servir de preceptor à sinhazinha:
“Eu e a sinhazinha passávamos a maior parte do tempo no quarto, ela fingindo estudar e eu estudando de fato, com os livros que não estavam em uso. Um dia antes da chegada do padre Notório, pedi ao Fatumbi que escrevesse para eu copiar o Pai-Nosso e a Ave-Maria, que achei muito mais fáceis de rezar depois de ler e entender. Mostrei para a Esméria e ela disse que nunca poderia imaginar que ali, naquele monte de tracinhos que não diziam nada, pelo menos para ela, estavam orações tão bonitas. ” (página 93)
Fazem parte deste imenso painel dos acontecimentos do Brasil naquele século XIX os relatos sobre as experiências pioneiras do padre Bartolomeu de Gusmão e a Passarola (o Padre Voador, como também ficou conhecido, foi um precursor de Santos Dumont em suas pesquisas sobre o voo com um aparelho mais pesado que o ar, no caso o protótipo cognominado "Passarola"), Tiradentes, em algumas de suas visitas à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (e, posteriormente, sua execução), o contato de Luísa com o escritor Joaquim Manoel de Macedo (autor do romance A Moreninha), a renúncia de Dom Pedro I em favor de Dom Pedro II.
Em retorno ao Brasil, já velha e cega, Luísa é a narradora de sua própria história, sempre em primeira pessoa, contando em tom missivista toda a sua vida ao filho Luís Gama – filho este que desaparece, vendido pelo pai como escravo, por dívida de jogo – mesmo tendo nascido homem livre. Este fato trágico, que Luísa encara como falha sua ao confiar o filho ao pai, vai persegui-la a vida toda. Ela nunca se conforma: não desiste de procurar o filho e a cada desafio da vida sai-se com uma força e uma inteligência admiráveis.
Exerce várias profissões; como escrava de ganho, especializa-se na confecção e venda dos famosos cookies, pois tinha trabalhado em casa de ingleses; já liberta, é dona de padaria, vendedora de panos-de-costa importados da África (um pano arranjado sobre os ombros, caindo pelas costas, tendo como função distinguir o posicionamento feminino na comunidade), dona de construtora de imóveis na África.
No plano amoroso, as coisas são igualmente complicadas para nossa narradora. Relacionamentos tendo por base apenas o impulso sexual, amores reais, relativamente duradouros uns, outros menos. Apesar da batalha que foi sua vida, Luísa ainda teve muito filhos: Banjokô, Luís Gama, João, Maria Clara. Os dois primeiros, no Brasil; os dois últimos, na África. Luís Gama, como disse, foi quem se saiu melhor, apesar de ter sido vendido pelo pai e é dele que vou acrescentar mais algumas informações.
A bem da exatidão, quando dizemos que ele fora advogado, queremos dizer advogado prático ou rábula – termo usado para o autodidata que atuava como advogado sem ter o diploma correspondente.
Ele é considerado hoje como um dos expoentes do romantismo, tendo escrito os poemas que compõem o livro Trovas Burlescas e Outros Poemas, com organização da professora Lígia Ferreira. Apesar da contribuição literária importante, o filho de Luísa Mahin é pouquíssimo conhecido. É a primeira voz na literatura brasileira a se assumir como negra. Orfeu de Carapinha, talvez sua obra mais conhecida (ou menos esquecida), é francamente manifestada por um eu-lírico em primeira pessoa, que se identifica claramente como negro. E, fato absolutamente inédito, Luís Pinto Gama, após 133 anos de sua morte, recebeu o título de advogado, outorgado pela Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, pela sua atuação em favor da liberdade, igualdade e respeito. Este é um parêntese nesta resenha, que julgo importante, pois talvez não tenha a oportunidade de referir-me a este escritor, de resto, vinculado à trajetória de Um defeito de cor.
Ana Maria Gonçalves instaura uma narradora esperta, uma ótima contadora de histórias. O texto me atraiu desde o início, quando comprei o livro e o folheei, como sempre faço. Ganhou-me ainda na livraria. O texto, bastante mais longo do que se possa deduzir de suas novecentas e quarenta e sete páginas, é composto em caracteres pequenos, com margem estreita à esquerda e à direita. Não obstante, a história é extremamente envolvente: só consegui largá-lo agora, ao final da leitura, e não sem pesar.
O talento narrativo da Luísa criada pela autora me lembra daquela Xerazade (ou, se preferirem, Scherazade) de Mil e Uma Noites, sempre adiando o final da história, buscando um pretexto para enfiar mais um episódio e manter a atenção do soberano, como na estratégia textual usada abaixo, na fala da narradora:
“Aliás, já está quase na hora de começar a falar disso e encerrar a penúltima parte desta história, mas antes preciso contar algumas coisas e mais uma vez vou tentar ser breve, como tenho prometido desde o início, sem cumprir. ” (página 873)
Ana Maria põe na boca de sua narradora uma digressão contundente sobre a condição do negro, que se cola à voz da própria autora, ela também uma negra:
“Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim. Aliás, em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela era nossa terra e éramos em maior número. O que pensei naquela hora, mas não disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais perfeita e vencedora que o padre. Não tenho defeito algum e, talvez para mim, ser preta foi e é uma grande qualidade, pois se fosse branca não teria me esforçado tanto para provar do que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e compensado com tanto êxito. Eu me sinto muito mais orgulhosa de ter nascido Kehinde do que sentiria se tivesse nascido padre Clement, um bom homem, com certeza, mas que se submetia à necessidade de agradar aos brasileiros ricos de Lagos, Porto Novo e Uidá para se estabelecer com segurança e conforto nessas cidades. ” (página 893)
Para terminar, como cheguei a esse Um defeito de cor? Ou, reproduzindo a fala de uma pessoa muito querida, “como você consegue descobrir esses livros? ”. Resposta à primeira pergunta: assisti a uma resenha no canal do Youtube Bons livros para ler, feita pelo sociólogo e livreiro Luiz Guilherme de Beaurepaire; resposta à segunda: quando amamos com paixão alguma coisa, estamos atentos a ela – incluindo aí a serendipidade abordada por Ana Maria Gonçalves.



segunda-feira, 20 de março de 2017

Resenha nº 89 - Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adchie

Resultado de imagem para livro sejamos todos feministasTítulo: Sejamos Todos Feministas
Título Original: We Should All Be Feminists
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Christina Baum
Edição: 1ª edição, 5ª reimpressão
Editora: Companhia das Letras
ISBN:978-85-359-2547-0
Origem: Nigéria
Número de páginas: 63
Gênero Textual: Palestra (transcrita)
Bibliografia: Romances: Meio Sol Amarelo (2008); Hibisco Roxo (2011); Americanah (2014). Conto: The thing around your neck (2009). Palestras: The danger of the single story – O perigo de uma história única, TED – Ideas Worth spreading (2009) e We should all be feminists – Sejamos todos feministas (2012) – TEDXEuston.

Caso raro em toda a minha experiência leitora, Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora que conquistou minha apreciação antes mesmo de eu ter lido uma só página de sua obra. Esta autora nigeriana, nascida na cidade de Enugu, em 1977, me fez prestar atenção nela por meio da famosíssima palestra no Youtube, O perigo de uma história única. Já havia ouvido falar dela, já havia visto livros seus em ilhas expostas em livrarias – mas, de fato, meu contato para valer foi a partir da citada palestra. 
Foi, portanto, muito fácil incluí-la nesse meu projeto de homenagem às mulheres - projeto este que ocupará todas as resenhas programadas para este mês.
Meio sol amarelo foi ganhador do prêmio literário Orange Prize, tendo sido também adaptado para o cinema em 2013. Traduzida para mais de trinta línguas, Chimamanda apareceu em inúmeros periódicos, como as revistas New Yorker e Granta. Esta última, Granta, é a bíblia da literatura de língua inglesa.
Então, tenho em mãos o opúsculo Sejamos todos feministas. Pequeno grande livro. Como da outra vez (na palestra que deu origem ao livro), ela nos oferta seu ponto de vista sobre tão delicado tema, o feminismo. Ao mesmo tempo que Adichie nos dá um texto emocional, a partir de suas vivências como negra e mulher, numa sociedade fortemente machista como a da Nigéria, como a americana – e, de resto, com a mesma característica em qualquer país do mundo, uns mais, outros menos, sua exposição também conta com um forte apoio contextualizado e um conjunto de argumentos dignos de nota:
“Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar “normal” que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens. ” (página 17)
Seu feminismo advém de uma visão balanceada, de uma compreensão de haver papéis diferentes para homens e mulheres, não sendo aquele feminismo raivoso, que propõe a queima de sutiãs em praça pública:
“Homens e mulheres são diferentes. Temos hormônios em quantidades diferentes, órgãos sexuais diferentes e atributos biológicos diferentes – as mulheres podem ter filhos, os homens, não. Os homens têm mais testosterona e em geral são fisicamente mais fortes do que as mulheres. Existem mais mulheres do que homens no mundo – 52% da população mundial é feminina –, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. ” (página 20)
Na sequência argumentativa, a autora conclui:
“Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência: quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar. ” (página 21)
Contraditando a ideia de que o machismo existe porque a cultura assim o estabelece, Chimamanda dá um verdadeiro xeque-mate argumentativo:
“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura. ” (página 48)
E, lucidamente, nossa autora fecha seu texto redefinindo e atualizando o conceito de feminismo:
“A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar’. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar. ” (página 50)
Sejamos todos feministas, desta forma, se configura como uma proposta de valorização do ser humano. Homens e mulheres, mais verdadeiros consigo mesmos e com os outros, têm maior chance de convivência harmônica e produtiva. Trata-se de respeitar as diferenças, no que forem diferentes; valorizar a universalidade, no que forem universais.
A luta pelo reconhecimento do feminino não é de hoje; Christine de Pizan, já no século XIV escreveu o que é reconhecido como o primeiro tratado feminista, O Livro da Cidade das Mulheres, em Paris; Simone de Beauvoir tornou-se famosa ao produzir O Segundo Sexo, só para citar algumas batalhadoras. A elas vem somar-se Chimamanda Ngozi Adichie, com este depoimento cuja leitura mais que recomendo.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Mês de Março: Uma pequena homenagem às mulheres

Você deve ter notado, retirei O Capote e outras histórias, do escritor russo Nikolai Gógol da relação dos livros que estou lendo. Resolvi adiar esta leitura e explico porquê: ao receber meu exemplar de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, não pude resistir a iniciar a leitura da obra. Um verdadeiro "tijolo" de 957 páginas. Obviamente, esta aventura vai durar alguns dias; afinal, são novecentas e cinquenta e sete páginas! E aí me lembrei de que era o mês de março e de que exatamente neste mês comemora-se o Dia Internacional da Mulher (08/03).

E Um defeito de cor me motivou a investir num pequeno projeto: e se ele não fosse uma leitura isolada, mas constituísse, junto com outros livros escritos por mulheres, numa singela homenagem a elas? Afinal, tenho duas filhas e uma esposa, além de contar com irmãs e algumas amigas muito queridas na minha convivência. Entretanto, qual seria o tom a perpassar o projeto? Histórias açucaradas, falando de desilusões amorosas? Não é meu estilo. Além do mais, a questão feminina permanece com muitas arestas áridas, no mundo todo.

Aos poucos, encontrei o tom, a voz condizente com minhas preocupações. Homenagear aquelas que, de algum modo, trouxeram uma abordagem que contribuísse para reflexões, para novos olhares sobre o lugar da mulher no mundo. Compulsando os livros que eu já tinha, e ajuntando mais duas importantes obras literárias, cheguei aos quatro títulos para o mês de maio de 2017:
  1. Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves - uma longa história, num texto apaixonante, traçando um painel bastante completo sobre os negros no Brasil, abordando a África e o tráfico de escravos, o movimento de resistência negra em nosso país. Tudo contado pela ótica de uma menina de oito anos inicialmente, e depois desenvolvido pela sua narrativa enquanto ela se torna mulher.
  2. Laços de família, de Clarice Lispector - um livro de contos emblemáticos sobre o sentir e refletir feminino, pelas mãos talentosas da insuperável Clarice. Sem dúvida, ainda a maior escritora brasileira. E digo isso não só pela peculiar estética clariciana, mas pela sua abordagem extremamente original, pela sua sensibilidade à toda prova.
  3. Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus - um depoimento contundente de uma favelada negra. O livro já foi traduzido para várias línguas e permanece extremamente atual, sinal de que pouca coisa mudou de lá para cá. Está encomendado e deve me chegar nos próximos dias.
  4. Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozie Adichie. Progressivamente, vou me apaixonando por esta mulher fantástica, mesmo sem a ter lido. É um dos casos raros na minha vivência livresca: descobri Chimamanda antes de ler qualquer coisa dela, pelas suas palestras no TEDx, no Youtube. Sejamos todos feministas é um livrinho pequeno no tamanho, mas grande na significação, uma transcrição de uma daquelas palestras, com acréscimo.
Este o projeto. A leitura de Um defeito de cor está bem encaminhada; começo a ler, pela quinta vez, Laços de família; aguardo a chegada dos outros dois livros, Quarto de despejo (mais ou menos 175 páginas) e Sejamos todos feministas (24 páginas).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Resenha nº 88 - Dresden - Terça-feira, 13 de fevereiro de 1945

Resultado de imagem para livro dresdenTítulo: Dresden – Terça-feira, 13 de fevereiro de 1945
Título Original: Dresden
Autor: Frederick Taylor
Tradutor: Vítor Paolozzi
Copyright: 2004
ISBN: 978-85-01108-7
Número de páginas: 587
Bibliografia do autor: Auf Wiedersehen, 1983; Walking Shadows, 1984; The Kinder Garden, 1990; The Peacebrokers, 1992. Não ficção: Dresden: Tuesday, 13 February 1945, 2004; The Berlin Wall: 13 August 1961; Exocising Hitler: The Occupation and Denazification of Germany, 2011; The Dowfall of Money: The Germany’s Hyprinflation and Destruction of  The Middle Class, 2013.

O ônibus da excursão, vindo de Berlim, após uma curva suave, passou em meio a prédios antigos. Seguiu a rua de acesso a uma praça ampla, Theaterplatz (Praça do Teatro), onde ao fundo está a Semperoper, ultrapassou um restaurante e pizzaria do lado direito e estacionou em frente a um prédio antigo. Nosso guia nos disse que aquela cidade alemã – Dresden – fora completamente destruída pelo fogo dos aliados no mês de fevereiro de 1945. Nós, turistas, não podíamos fazer ideia, nem aproximada, da realidade dos fatos ali acontecidos, naqueles fatídicos dias, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945. Dresden – também conhecida pelo apelido merecido de “Florença do Elba” – erguia-se imponente em sua beleza plástica, cidade barroca, com belas fachadas dos prédios. O palácio Zwinger se destacava na paisagem, com sua área interna, intitulada “A Fonte do Banho das Ninfas”. Nada nos fazia lembrar os horrores da Segunda Guerra Mundial; as construções em arenito se apresentavam, em muitos casos, encardidas, escurecidas, e o guia nos disse que, por ser o arenito material muito poroso, a poluição se lhe entranhara. Verdade, mas não toda a verdade; vim a saber depois: pedras, blocos calcinados pelo fogo do incêndio ocasionado pelo bombardeio lhes emprestavam também a cor escura. Dresden, a bela e cultural capital da Saxônia alemã, a que fora conhecida como “Florença do Elba”, havia sido reconstruída, recuperando algumas de suas mais belas expressões arquitetônicas.

Frederick Taylor (não confundir com Frederick Winslow Taylor, pai do taylorismo) nasceu em Aylesbury, Buckinghamshire, Inglaterra. Frequentou a escola local e a Aylesbury Grammar School. Em 1967, foi para a Universidade de Oxford estudar História e Línguas Modernas (Alemão). Fez pós-graduação na Universidade de Sussex, onde obteve uma bolsa de estudos pela Volkswagen e trabalhou na Alemanha do Leste e do Oeste, pesquisando uma tese sobre a extrema-direita germânica antes de 1918. Desde então, ele trabalha como editor, tradutor de ficção e não ficção, romancista e roteirista. Ele traduziu e editou O Diário de Goebbels 1939-1941 como um dos muitos trabalhos de divulgação histórica voltados para o público.
O trecho acima, em itálico, expõe minhas primeiras impressões de Dresden, quando de uma viagem de turismo em 2014. A excursão ao leste europeu me deixou fortes impressões e, a partir daí, passei a pesquisar sobre os países componentes da região. Descobri muito: uma cultura interessante, uma história intrigante – em que se sobressaía o antigo Império Austro-Húngaro e suas tramas – e uma literatura de primeiríssima qualidade, felizmente representada por edições no Brasil.
O livro Dresden, objeto desta resenha, pertence à categoria dos calhamaços e o texto de Frederick Taylor é preciso, cheio de fatos e documentos pesquisados com rara disposição e é, também, uma narrativa fluente e sensível, na qual fica extremamente clara a condenação do autor à tragédia ocorrida ali. E – o que não é pouco – é um livro capaz de pôr um ponto final nas especulações sobre ter sido o ataque uma barbárie gratuita (barbárie o foi, como o fora também a ação alemã na guerra, mas não gratuita) contra uma cidade inocente. Produto em parte de desconhecimento sobre o que representava Dresden para o esforço de guerra alemão, além de seu aspecto cultural, em parte pela propaganda habilmente maliciosa de Goebbels – Ministro da Propaganda de Hitler.
O texto de Taylor tem trechos extremamente técnicos; expõe dados, planilhas das incursões da RAF – Royal Air Force – sobre a cidade às margens do Rio Elba; naturalmente, há um motivo para que o autor faça isso, tão minuciosamente: desfazer os enganos sobre Dresden ter sido atacada sem motivo, como se unicamente fosse uma vingança pelo ataque alemão à cidade britânica de Coventry. Opto conscientemente por fornecer alguns dados extraídos do livro Dresden, mas o que me orienta nesta resenha não são os dados estatísticos do conflito, mas a sua dimensão humana.
Dresden teve sua fundação com base num povoado de origem eslava, de nome Drezdane e começou a ser germanizada a partir do século XIII. Ao longo de sua história, sofreu outros incêndios, um deles perpetrado pelos nazistas, destruindo a sinagoga durante a famosa “Noite dos Cristais”, em 09/11/1938.
Taylor nos dá uma ideia da pujança da cidade, à página 58:
“O sutiã foi inventado em Dresden pela Fräulein Christine Hardt em 1889. (De forma ainda mais curiosa, o primeiro e último gauleiter (líder de província) da Saxônia nazista foi um fracassado fabricante de lingerie). A cidade também podia proclamar ter sido o primeiro lugar na Europa a fabricar cigarros (no começo manualmente e depois com máquinas), filtro de café, saquinho de chá, pasta de dente em tubo (“Chlorodont”) – e preservativo de látex. Ah, e tornou-se um grande centro das indústrias de máquinas fotográficas e de escrever. A clássica e portátil máquina datilográfica Erika, de Seidel & Naumann ganhou fama mundial. Carl Zeiss pode ter estabelecido suas lentes e espelhos especiais em Jena, mas, na hora de produzir câmeras para o público, foram dedos ágeis e olhos treinados de milhares de trabalhadores de Dresden que ganharam sua confiança. Muitas outras companhias ergueriam fábricas de câmeras em Dresden, não apenas Zeiss, tornando-a a mais importante indústria individual da cidade. ”
Acrescente-se a essas indústrias a fábrica de porcelana em Meissen (cidade a 25 km de Dresden), rivalizando seu produto com as marcas chinesas. Toda esta atividade industrial pouco conhecida foi adaptada ou transformada para produzir peças necessárias aos aviões e armamentos. Por exemplo, a Carl Zeiss passou a fabricar lentes para a mira das armas utilizadas pelos soldados alemães.
Na noite de 14 de novembro de 1940, a Luftwaffe – Força Aérea da Alemanha – com 515 bombardeiros, fez um ataque à cidade de Coventry, bem ao sul da Inglaterra, utilizando-se de sinais luminosos lançados por paraquedas, com o fito de marcar o alvo. Cilindros incendiários, à base de fósforo, foram jogados sobre o alvo. Quando estavam caindo, tais cilindros emitiam uma chuva de fagulhas, espalhando incêndio por todos os lados. Logo depois, vieram as bombas de alto poder explosivo. O ataque atingiu seu máximo por volta da meia-noite. Embora a destruição tenha sido intensa, “apenas” 568 civis morreram. A Luftwaffe, entretanto, tinha limitações e só podia realizar incursões por etapas, pois os aviões tinham de voltar à base, reabastecer e retomar o ataque.
Naquele momento, a Alemanha possuía uma Força Aérea muito superior à dos aliados e essa supremacia desequilibrava francamente as coisas para os alemães. São figuras importantes, do lado inglês, Winston Churchill e o mal-humorado major-brigadeiro Sir Arthur Travers Harris. Nas mãos de Harris estavam as decisões operacionais da RAF – Royal Air Force. E ele era partidário do arrasamento sistemático das cidades alemãs, como forma de lhes abater o moral.
Os fatos seguem, num crescendo trágico. O esforço britânico logo consegue produzir aviões melhores, bombardeiros de alta carga de destruição, apelidados de “pesadões” e, junto com os aliados americanos, começam a virar o jogo na cena da guerra. Entra no cenário a tal “guerra moral”, em que se procura infringir derrotas vexatórias ao lado inimigo, com o propósito de tirar o ânimo combativo dos soldados.
Dresden, bem como algumas outras localidades alemãs, ainda não havia sido alvo de qualquer tentativa de ataque sistemático. Não obstante, longe dos olhos do inimigo, o alto comando britânico já selara o destino de Dresden. Era apenas uma questão de momento certo e condições meteorológicas apropriadas. A população dresdense não podia conceber um ataque à cidade, em parte por ela estar muito distante da Inglaterra e em parte, pelo convencimento de serem um oásis em meio à guerra. Desta forma, a cidade se descuidou; as autoridades não construíram abrigos antiaéreos eficientes, não havia bateria antiaérea. Muitos ingleses e americanos haviam estudado nas universidades de Dresden, o que contribuiu para aquele bem-estar dresdense em relação ao inimigo.
Quando o ataque britânico se tornou visível, pegou uma cidade completamente desprevenida. Iniciou-se às 12h35 de 13/02/1945:
“Tudo começou em poucos minutos, com as bombas sendo jogadas entre 12h35 e 12h40. As fotos da Força Aérea dos EUA remanescentes mostram marcadores de alvo ainda em queda e bombas explodindo no perímetro sul dos pátios de manobra da Friedrichstadt. Algumas das bombas destinadas aos pátios desviaram-se a norte, caindo na vizinha fábrica Seidel & Naumann, onde no passado eram feitas máquinas de escrever, de costura e bicicletas, mas que agora se devotava à produção de armamentos. ”
Os aliados desenvolveram o ataque em cascata, isto é, aviões atacavam e não precisavam voltar à base para o reabastecimento; ao invés disso, reinvestiam sobre os alvos. O plano arquitetônico de Dresden atuou contra a cidade: a localidade era constituída por vários prédios antigos, com muita madeira seca e secular, as construções eram muito próximas umas das outras.
A segunda onda de ataque aéreo aconteceu de 1h21 a 1h45, já na noite do dia 14/02/1940. Dentro em pouco, o centro de Dresden não existia mais. Tanto na primeira onda do ataque quanto na segunda, as pessoas eram orientadas a se esconderem nos porões das construções, num sistema que se interconectava a outros, por meio de túneis e passagens estreitas. Tal orientação se revelou além de ineficiente para muitos, uma verdadeira tragédia.
As bombas incendiárias ateavam fogo em toda parte e logo os pequenos focos se juntavam e formavam uma verdadeira fornalha. O oxigênio, em temperatura mais baixa e mais perto do chão, era sugado para cima pelo calor ascendente, matando uma enorme quantidade de pessoas por asfixia, mesmo dentro dos porões. Os túneis e passagens tornaram-se impraticáveis pelo calor, pela fumaça, pelo gás carbônico gerado e pela propagação do fogo. Os depoimentos recolhidos por Frederick Taylor nos impressionam, ainda hoje – tanto tempo passado:
“No entanto, nós logo percebemos que o avanço era impossível. Ao passarmos por uma rua estreita atrás do Altmarkt – a Webergasse, eu creio –, nos vimos sugados por uma forte corrente rasteira de fogo. De repente, minha mãe parecia estar voando. Papai disse: ‘Temos que dar o fora daqui.’ Nós conseguimos chegar à Zeughausstrasse. A casa comunitária judaica estava em chamas. Nós deveríamos nos apresentar ali dois dias mais tarde para o ‘deslocamento’. Que ironia, estarmos agora diante da construção incendiada com a ordem de deportação dentro da mochila! ”
Por volta do meio-dia de 14/02/1945, um terceiro e curto ataque à já combalida Dresden aconteceu. Desta vez, perpetrado pela Força Aérea dos EUA, utilizando suas temíveis Fortalezas Voadoras B17.
“Dresden inteira era um inferno!
Na rua, as pessoas vagavam, impotentes. Vi minha tia. Ela havia se embrulhado com um cobertor molhado e, ao me ver, gritou: ‘Vá para o terraço do Elba! ’ O som da tempestade de fogo crescente engoliu suas últimas palavras. A parede de uma casa ruiu com grande estrondo, enterrando várias pessoas. Uma grossa nuvem de poeira subiu e, combinada à fumaça, tornou a visão impossível. Então uma mão me agarrou pelo pescoço e me puxou para longe dos destroços. Era o jovem piloto, que com toda a sua tranquilidade, provavelmente salvou minha vida no meio desse caos. A gente não parava de tropeçar em cadáveres...”
Em 15/02/1945, por volta das 15h45, a única construção dresdense que ficara de pé, a Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) começou a ruir. Com a diferença de temperatura entre o auge do incêndio a que fora submetida e o posterior resfriamento, uma série de distorções na construção ocorreram. As traves que sustentavam o teto, encimado por um domo feito de cobre soltaram-se e a igreja implodiu.
Frederick Taylor, neste magnífico livro Dresden sobre os ataques à “Florença do Elba” arrola alguns motivos para os fatos terem se passado como se passaram. Primeiro, Dresden não era uma cidade “inocente”, como a propaganda de Goebbels fez crer; a bela cidade participava do esforço de guerra alemão, fornecendo peças para armamento. Nesse caso, os ataques, dentro da lógica bélica, não foram indevidos. Segundo, “os russos haviam iniciado mais cedo sua ofensiva rumo ao leste da Alemanha, a pedido dos aliados – nos relata Taylor – para reduzir a pressão nas forças anglo-americanas. Em resposta a esse ‘favor’, os aliados usaram seu poderio aéreo para destruir cidades alemãs aquém do front russo – incluindo Dresden – com a intenção de produzir uma recompensa que pudesse ser demonstrada de maneira prática. ”
Um terceiro motivo, não confessado, nem documentado, mas perfeitamente dedutível, os Estados Unidos queriam mostrar de maneira cabal aos comunistas russos – seus aliados de momento – o quão destrutivo poderia ser um ataque aéreo, no qual mantinham a soberania absoluta de forças. Uma prática intimidatória, portanto.
Fica extremamente difícil não pensar, após a leitura dessa volumosa obra, tão rica em detalhes, dados, depoimentos, que não tenha havido um componente de vingança por parte dos britânicos – eles não esqueceram Coventry.
Deixo a finalização desta longa resenha por conta do autor, Frederick Taylor, às páginas 475/476:
“É verdade que muito do que se pensou e falou sobre Dresden desde a sua destruição se deve em grande parte aos esforços dos propagandistas nazistas, primeiro, e comunistas, depois. Mesmo assim, tão logo a guerra acabou e nós começamos a procurar por símbolos para compreendê-la, o instinto popular corretamente identificou, e continua a identificar, o que aconteceu em 13/14 de fevereiro de 1945 como alerta de excesso. Dresden permanece como uma terrível ilustração do que seres humanos aparentemente civilizados são capazes de fazer sob circunstâncias extremas, quando todos os freios normais no comportamento humano se erodiram por anos de guerra total. O bombardeio de Dresden não foi irracional ou sem sentido – ou pelo menos não para aqueles que o ordenaram e o realizaram, que estavam profundamente imersos numa guerra que já havia custado dezenas de milhões de vidas, e ainda poderia custar outros milhões, e que não tinham como prever o futuro. Se foi errado – moralmente errado –, é uma outra questão. Quando pensamos em Dresden, nos debatemos com os limites do que é permissível, mesmo na melhor das causas.”
(...) 
“Ou, como o pintor Goya – igualmente familiarizado com o horror – expressou de maneira ainda mais econômica: ‘O sono da razão faz surgir monstros.’”
Saio dessa leitura pesada, desconfortável, mas necessária, menos ingênuo...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Resenha nº 87 - O Xará, de Jhumpa Lahiri

Resultado de imagem para livro o xaraTítulo do Livro: O Xará
Título Original: The Namesake
Autora: Jhumpa Lahiri
Tradutor: Rafael Mantovani
Edição Exclusiva da TAG Livros/Globo
ISBN: 978-85-250-6355-7
Edição: 2ª
Copyright: 2014 by Editora Globo
Número de páginas: 342
Bibliografia da autora: Contos – Interpreter of Maladies (Intérprete dos Males) 1999; Unacostummed Earth (Numa Terra Estranha) 2008; Romances – The Namesake (O Xará) 2003; The Lowland (Aguapés) 2013; não ficção – Cooking Lessons: The long way home 2004; Improisations: Rice 2009; Reflections: Notes from a Literary Apprenticeship 2011. Prêmios: Pulitzer de 2000, por Interpreter of Maladies; finalista do Man Booker Prize, por The Lowland.

Nilanjana Sudeshna Lahiri é uma escritora nascida em Londres, em 11/07/1967, filha de família indiana (Bengali). Seus pais imigraram para os Estados Unidos quando ela contava com dois anos de idade. É costume indiano as crianças terem um darknam (um nome pelo qual são conhecidas pelos amigos, pelos familiares) e só mais tarde receberem um “nome bom” – que constará dos documentos oficiais, passaportes, etc. Desta forma, quando ela ingressou em uma creche, na cidade americana de Rhode Island, os professores acharam mais fácil designá-la pelo seu darknam Jhumpa, ao invés do complicado Nilanyana.

Lahiri formou-se na South Kingstown High School e logo depois cursou Literatura Inglesa no Barnard College, em 1989. Fez mestrado em Inglês, MFA em Escrita Criativa e Mestrado em Literatura Comparada. Participou da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, em 2014.

Hoje, Jhumpa Lahiri é casada, tem dois filhos; vivem em Roma, Itália, tendo escrito um livro recente em língua italiana, In Altre Parole (Itália, 2015). Esse ‘desenraizamento’ é uma característica que irá aparecer em seus trabalhos, notadamente em O Xará e Aguapés.

Recebi O Xará, de Jhumpa Lahiri, numa edição exclusiva para os assinantes da TAG Livros, muito bonita, bem revisada. Não conhecia a autora, indiana de nascimento. A autora já declara ser “devedora” do livro de Vladimir Nabokov, Nikolai Gogol. Possivelmente, o que chamou a atenção de Jhumpa sobre o escritor russo foi exatamente sua experiência identitária, isto é, Nikolai Gógol nasceu em 1809 e possuiu nacionalidade ambígua. Rússia e Ucrânia reivindicam sua procedência, pois ele nasceu na Ucrânia – território que, à época – fazia parte do Império Russo. Além do mais, Nikolai sempre escreveu no idioma russo. Essa ambivalência de origem é profundamente importante para a significação do personagem de O Xará, Gógol Ganguli.

E esta significação de que falo começa muito antes do nascimento do personagem; o pai, Ashoke, precisa fazer uma viagem de trem de Calcutá para Jamshepdur, na Índia. Ashoke é um aficionado da literatura russa: Dostoiévski, Tolstoi e, naturalmente, Nikolai Vassílievitch Gógol são seus autores lidos. Assim, durante a viagem, ele lê O Capote – um conto famoso e considerado tão importante na Rússia que o escritor Dostoiévski declarou, a certa altura, “todos nós viemos de O Capote”.

Somente a título de adiantamento – estou aproveitando a deixa e lendo O Capote e Outras Histórias, para a próxima resenha – direi que se trata de um conto de teor fantástico, tão ao gosto do folclore russo.

Retomando o fio da meada, Ashoke então, lê no trem o conto fantástico. Sofre um acidente:

“Mas a luz do lampião demorou-se ali, apenas por tempo suficiente para que Ashoke levantasse a mão, um gesto que ele achou que fosse consumir o pequeno fragmento de vida que lhe restava. Ainda segurando uma única página de O Capote, amassada com força em seu punho, e quando levantou a mão, o maço de papel caiu de seus dedos. “Espera! ”, ele ouviu uma voz gritar. “O cara perto daquele livro se mexeu. Eu vi. ” (página 27)

Ashoke foi então levado, muito machucado, ao hospital. O Capote havia lhe salvado a vida. O fascínio sentido por ele, em relação à literatura russa, só aumentou, depois do acidente. E aquele homem ficou sequelado: ao andar, puxava de uma perna.

Seu filho nasceu e, pelo costume bengali, devia receber um darknam, uma espécie de “nome de casa”, a ser usado somente pelos parentes e amigos; tempos depois, a criança deveria receber o “nome bom”, pelo qual seria registrada oficialmente e para o mundo externo, seria sua identificação. A honraria caberia à avó de Ashima, esposa de Ashoke. Como o casal já reside nos Estados Unidos e a veneranda senhora envia um nome de menina e outro, de menino por carta, o atraso no recebimento da correspondência começa a inquietar o pai. O menino precisa de um nome.

Resolve ele mesmo pensar em um, premido pela necessidade. Lembra-se da obra de Nikolai Gógol, que lhe havia salvado a vida uma vez e opta por dar esse nome ao filho: Gógol, ajuntando-lhe o sobrenome de família, Ganguli. Logo, o pequeno passa a ser conhecido por Gógol Ganguli.

Problemas começam a acontecer, por diferenças culturais e notariais: em seu novo país, os Estados Unidos, não existe essa possibilidade de se considerar o nome de uma criança e deixá-la sem um nome oficial. Então, aquele que deveria ser apenas um darknam torna-se um nome oficial, um “nome bom”.

Gógol Ganguli cresce com uma crise de identidade que só aumenta: é um descendente de indianos bengalis, que fazem questão absoluta de manter suas tradições vivas, mas é um americano influenciado pela filosofia do “american way of life”. Seu nome não é exatamente algo que o identifique, pois além de soar estranho tanto em seu país de nascimento quanto no país de nascimento de seus pais, ainda é um sobrenome transformado em nome. Gógol odeia seu nome:

“Pois a essa altura, ele passou a odiar perguntas relacionadas a seu nome, odeia ter que explicar o tempo todo. Odeia ter que dizer às pessoas que não significa nada “em indiano”. Odeia ter que usar um crachá preso ao suéter no dia das Nações Unidas na escola. Odeia inclusive assinar seu nome embaixo de seus desenhos na aula de artes. Odeia que seu nome seja tanto absurdo quanto desconhecido, que não tenha nada a ver com quem ele é, que não seja nem indiano nem americano, mas justamente russo. ” (página 93)

A questão central da identidade, simbolizada aqui pelo nome, atormenta nosso personagem durante muito tempo. Toma a decisão de mudar de uma vez por todas aquele nome esdrúxulo e procura os meios legais para a alteração desejada. Vai se chamar Nikhil. Mas, pelo menos de início, os problemas não são minorados:

“Só há uma complicação: ele não se sente Nikhil. Ainda não. Parte do problema é que as pessoas que agora o conhecem como Nikhil não fazem ideia de que antigamente ele era Gógol. Elas o conhecem apenas no presente, nada do passado. Mas após dezoito anos de Gógol, dois meses de Nikhil parecem algo desprezível, insignificante. Às vezes ele se sente como se tivesse escolhido a si mesmo para o elenco de uma peça, fazendo o papel de gêmeos indistinguíveis a olho nu, mas fundamentalmente diferentes. ” (página 128)

O tema central, o do não pertencimento a um determinado lugar, a uma determinada cultura, aos quais a pessoa deverá se adaptar é contundente. Muitos imigrantes jamais se acostumam inteiramente aos novos valores. Será uma questão que permeará, com esmagadora frequência, os imigrantes da Síria para os países europeus. Choque cultural, de concepções sobre a vida, usos, costumes. Muitas vezes, esses imigrantes se aferram à suas próprias tradições como meio de não perderem a própria identidade. Tornam-se grupos fechados, dentro de uma cultura “externa” que, na maioria dos casos, não os acolhe exatamente pelo efeito de isolamento.

Perpassa o texto um sentimento nostálgico, mais evidente (talvez por ser claramente dito, ao invés de mostrado), no trecho seguinte:

“E, mesmo assim, esses eventos formaram Gógol, moldaram-no, determinaram que ele é. Eram coisas para as quais era impossível se preparar, mas que faziam alguém passar uma vida inteira relembrando, tentando aceitar, interpretar, compreender. Coisas que nunca deveriam ter acontecido, que pareciam descabidas, eram essas que prevaleciam, que duravam, no fim das contas. ” (páginas 332/333)

Como subtema, a solidão do indivíduo entre seus iguais, como bem nos lembra Carlos Drummond de Andrade em um de seus poemas: “Ó solidão do boi no campo, /Ó solidão do homem na rua. ” Não se identificando com o jeito americano de ser, nem com o jeito indiano de ser, Gógol Ganguli é um homem marcado pela solidão, pelo relacionamento difícil com o outro.

E entre todos os personagens deste excelente livro (finalista do prestigioso prêmio Man Booker Prize 2013 e do National Book Award do mesmo ano), quem mais sente com clareza esse problema do “solitário andar por entre as gentes” é a mãe de Gógol/Nikhil, Ashima:

“Para Ashima, migrar para os subúrbios parece um gesto mais drástico, um transtorno maior do que tinha sido a mudança de Calcutá para Cambridge. Queria que Ashoke tivesse aceitado o cargo na Northeastern, para que eles pudessem ter ficado na cidade grande. Espanta-se com o fato de que nessa cidade universitária não existam calçadas, semáforos, transporte público, nenhuma loja a quilômetros de distância. Ela não tem interesse em aprender a dirigir o novo Toyota Corolla que agora precisam ter. Embora não esteja mais grávida, continua, às vezes, a misturar Rice Krispies, amendoins e cebolas numa tigela. Pois Ashima está começando a se dar conta de que ser estrangeira é uma espécie de gravidez eterna – uma espera perpétua, um fardo constante, um sentimento contínuo de indisposição. É uma responsabilidade ininterrupta, um parêntese no que antes tinha sido a vida normal, apenas para descobrir que a vida anterior desapareceu, suplantada por algo mais complicado e exaustivo. Ashima acredita que, assim como a gravidez, ser estrangeira é algo que desperta a mesma curiosidade em estranhos, a mesma combinação de pena e respeito. ” (páginas 64/65)

O Xará é escrito em tempo presente, em seu uso mais conhecido como “presente histórico”, que consiste em se utilizarem verbos no presente do indicativo para abordar fatos, acontecimentos ocorridos no passado. O efeito? Traz para perto de nós, leitores, as sensações e eventos já acontecidos, atualiza a narração.

A importância do nome é abordada nas páginas 335:

“Sem pessoas no mundo que o chamem de Gógol, por mais que ele próprio viva, Gógol Ganduli vai, de uma vez por todas, desaparecer dos lábios dos entes queridos e, assim, deixar de existir. No entanto, a ideia dessa extinção final não lhe proporciona sensação de vitória ou consolo. Não proporciona consolo algum. ”


Sentimento igualmente enunciado pelo herói Aquiles, diante de sua mãe Tétis, ao justificar sua participação na Guerra de Troia, desequilibrando as ações para o lado dos gregos, mesmo que houvesse uma profecia de ele morrer na empreitada: deseja que o seu nome passe à posteridade. Não deseja ser esquecido e, em se arriscando,  futuras gerações pronunciarão o nome Aquiles.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Resenha nº 86 - Medo Líquido, de Zygmunt Bauman

Resultado de imagem para livro medo líquidoTítulo: Medo Líquido
Título Original: Liquid Fear
Autor: Zygmunt Bauman
Tradutor: Carlos Alberto Medeiros
Editora: Zahar
Edição: s/ed.
Gênero Textual: Dissertação Expositiva
Copyright: 2006
ISBN: 978-85-378-0048-5
Bibliografia do autor: Amor Líquido; Aprendendo A Pensar com A Sociologia; A Arte da Vida; Comunidade; Confiança e Medo na Cidade; Em Busca da Política; Europa; Globalização: As Consequências Humanas; Identidade; O Mal-estar na Pós-Modernidade; Medo Líquido; Modernidade e Ambivalência; Modernidade e Holocausto; Modernidade Líquida; A Sociedade Individualizada; Tempos Líquidos; Vida para Consumo; Vidas Desperdiçadas (todos os volumes pela editora Zahar).

Zygmunt Bauman, sociólogo, nasceu em Poznaή, Polônia, em 19/11/1925 e faleceu em Leeds, Inglaterra, em 09/01/2017. Nascido em uma família de judeus não praticantes, ele e seus parentes foram para a União Soviética após a invasão e anexação da Polônia por forças alemãs e soviéticas do Tratado Germano-Soviético, fato acontecido em 1939. Entre 1940 e 1950, Bauman foi comunista convicto, atuando como instrutor político.

O sociólogo recebeu forte influência das ideias de Antonio Gramsci e Georg Simmel e se transformou, progressivamente, num crítico ao governo comunista da Polônia. Começou a trabalhar com outros acadêmicos da Universidade de Varsóvia, dentro de uma proposta humanista do marxismo. Não obstante, ele sempre se declarou socialista, apregoando mesmo, em seus últimos anos de vida, que, mais do que nunca, o socialismo é necessário ao mundo.

Para Bauman, “as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiências” (expresso em Amor Líquido) e “a insegurança seria parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno” (percepção em Medo Líquido).

Um resumo deste Medo Líquido não é tarefa fácil, por alguns motivos: o pensamento do professor Bauman é muito abrangente, extremamente analítico e sua argumentação é minuciosa e poderosa. Ele sempre se recusou a fornecer respostas simples para questões tão complexas quanto as que ele aventa em qualquer de seus livros. Portanto, leitor, já sei que você, ao fim desta postagem, estará insatisfeito por eu não ter fornecido uma ideia mais ampla da obra em questão, se for daqueles que, como eu, está tomando contato mais sistematizado com esse pensador pela primeira vez; ou então, num segundo caso, já o conhece, possivelmente de maneira profunda, e por isso mesmo estará gabaritado a julgar minha superficialidade ao resumir-lhe Medo Líquido. Trazendo uma pitada de sarcasmo do velho Machado de Assis para esta contextualização, dir-te-ei, leitor amigo, que “a obra em si mesma (a do Zygmunt, não me interprete mal) é tudo: se te agradar (o resumo), fino leitor, pago-me da tarefa (de tentar o resumo); se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”

Fundamental para toda a obra deste absolutamente fantástico pensador é o seu conceito de liquidez: mundo líquido, medo líquido, amor líquido. A liquidez é a incapacidade de algo tomar a forma fixa, duradoura. Uma sociedade líquida, portanto, é uma sociedade que perdeu sua capacidade de análise, de reflexão, com o fim das utopias. Bauman nos explica que a sociedade atual é desregulamentada, pois o mercado é o resultado do que ditam as regras e as regras, por seu turno, são ditadas por um fulcro econômico-capitalista: a eliminação dos concorrentes e o sucesso com os consumidores. Nessa liquidez não há possibilidades de projetos de vida a longo prazo, porque tudo muda o tempo todo; a empregabilidade é momentânea; as relações amorosas não se estabilizam; o homem crê poder devastar a natureza a seu bel-prazer. Como consequência desse estado, a condição humana decai para a insegurança, para o medo (do futuro e do presente) e se instaura a angústia geral.

Nas páginas 58/59 de Medo Líquido, Bauman nos diz:
“Se a expectativa da imortalidade enfatiza a importância (instrumental) e a potencialidade da vida mortal, embora reconhecendo a iminência da morte corpórea, a desconstrução da morte, paradoxalmente, intensifica o grau de terror da morte e eleva drasticamente a potência destrutiva desta, mesmo quando aparentemente questiona sua iminência. Em vez de suprimir a consciência da inevitabilidade da morte (seu suposto efeito) e libertar a vida dessa pressão, torna mais ubíqua e importante do que nunca a presença da morte na vida.”

Outro conceito fundamental em Zygmunt Bauman é o de “globalização negativa”: é a relação perversa nos espaços por ela afetados. É isso o que o sociólogo descreve às páginas 126:
“Até aqui, nossa globalização é totalmente negativa: não restringida, suplementada ou compensada por uma contrapartida “positiva” que ainda é, na melhor das hipóteses, uma esperança distante, embora também seja, segundo alguns prognósticos, um empreendimento desesperado. Tendo tido a oportunidade de agir livremente, a globalização “negativa” especializou-se em quebrar fronteiras demasiado frágeis para aguentar a pressão e em cavar buracos numerosos, enormes e impossíveis de tampar, através das fronteiras que resistiram com sucesso às forças destinadas a rompê-las.”
Zygmunt se reporta a Adolf Eichmann, supervisor do envio em massa de judeus aos campos de concentração, notadamente ao de Auschwitz, como caracterização do terror de nossos dias: uma ameaça que, de nenhum modo, se mostra como ameaça e de iniciativa individual. É sabido que Eichmann afirmou, ao final da guerra, “daria saltos na sua sepultura de tanto rir porque, sentir que tinha cinco milhões de pessoas na sua consciência, seria para ele uma fonte de extraordinária satisfação.”

Os doutos psicanalistas, chamados a dar seu parecer no julgamento do carrasco alemão, constataram não haver problemas mentais com o acusado. Ele era “um homem com ideias muito positivas”, afiançaram alguns deles.

Eis o que constata Zygmunt Bauman, sobre Eichmann, às páginas 90:
“[Eichmann] era uma criatura corriqueira, sem graça, enfadonhamente ‘comum’: alguém com quem se cruza na rua sem se notar. Como marido, pai ou vizinho, dificilmente se destacaria na multidão. Era o indivíduo típico, mediano, das tabelas estatísticas psicológicas, assim como morais (pudemos computá-las).”
O terror mora ao lado. Ou dentro de nossa própria casa.

Duplicamos as fechaduras em nossas portas; cercamos nossas casas com muros altos; não satisfeitos, mandamos instalar cercas elétricas; ajuntamos serpentinas de segurança; codificamos alarmes eletrônicos com sensores de presença; finalmente, colocamos câmaras nos pontos estratégicos. Mesmo assim, não temos sossego, pois o mal não tem uma face característica. Foi-se o tempo em que o Diabo – essa criação providencial (sem trocadilhos, por favor!) era a personificação do mal.
“Podemos estar olhando em direções radicalmente diferentes e evitar os olhares uns dos outros, mas parecemos estar entulhados no mesmo barco sem uma bússola confiável – e sem ninguém ao leme. Embora nossas remadas estejam longe de ser coordenadas, somos marcadamente semelhantes em um único aspecto: nenhum de nós, ou quase nenhum, acredita (muito menos declara) que está perseguindo seus próprios interesses – defendendo privilégios já obtidos ou reivindicando uma parcela daqueles até aqui negados. Em vez disso, hoje em dia todos os lados parecem estar lutando por valores eternos, universais e absolutos. Ironicamente, nós, os habitantes da parte líquido-moderna do planeta, somos estimulados e treinados a ignorar esses valores em nossas atividades cotidianas e a ser guiados por projetos de curto  prazo e desejos de curta duração – mas mesmo então, ou talvez precisamente por isso, tendemos a sentir de modo ainda mais doloroso sua carência ou ausência quando (ou se) tentamos identificar um motivo dominante nessa cacofonia, uma forma na neblina ou uma estrada na areia movediça.” (páginas 149)
Bauman indica um dos elementos que compõem esse mosaico da globalização negativa: o neoliberalismo, surgido numa sociedade líquida, que preda concorrentes, que deixa ao mercado a gestão das próprias regras. Num planeta atravessado por redes de informação, afirma Bauman, ou as redes têm mecanismos para encontrarem seus próprios e gratos usuários ou os próprios usuários, satisfeitos, anseiam por as procurarem.

Segue o professor, agora com um trabalho de síntese, às páginas 166:
“Não existem – nem podem existir – soluções locais para problemas globalmente originados e fortalecidos. A reaproximação do poder e da política terá de ser atingida, se é que o será, no nível planetário. Como afirma acidamente Benjamin R. Barber, ‘nenhuma criança norte-americana pode se sentir segura em sua cama se as crianças de Karachi ou Bagdá não se sentirem seguras nas delas. Os europeus não poderão ostentar por muito tempo as suas liberdades se os povos de outras partes do mundo permanecerem carentes e humilhados’. A democracia e a liberdade não podem mais ser garantidas num só país ou mesmo num só grupo de países. Sua defesa em um mundo saturado de injustiça e habitado por bilhões de seres humanos aos quais se negou a dignidade acabará inevitavelmente corrompendo os próprios valores que pretende proteger. O futuro da democracia e da liberdade tem de ser assegurado em escala planetária – ou não o será. ”
Medo Líquido, por tudo o que se disse nesta resenha, é livro para quem aprecie o gênero dissertativo-explicativo. Não é leitura leve, mas profundamente esclarecedora. Lendo-o, entendemos porque Zygmunt Bauman é considerado uma das maiores cabeças pensantes de nossa época. Sua análise é profunda e inteligente, conjugando vários fatores na tentativa de um diagnóstico mais preciso pela via sociológica dos problemas do nosso tempo.