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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Resenha nº 56 - O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

Resultado de imagem para o vendedor de passadosJosé Eduardo Agualusa é natural de Huambo, Angola. Nasceu em 13 de dezembro de 1960. Cursou agronomia e silvicultura na capital portuguesa, Lisboa. É jornalista. Vive entre Lisboa e Luanda, com incursões ao Brasil. Agualusa é apontado como um dos mais importantes autores da contemporaneidade, em Língua Portuguesa. Este O vendedor de passados ganhou o Prêmio Independent de ficção estrangeira. Aqui, no Blogue, já resenhei dele Teoria Geral do Esquecimento. O vendedor de passados deu um filme brasileiro, na verdade, o trabalho fílmico é levemente baseado no livro.

Se na obra Teoria Geral do Esquecimento a ambientação é quando estoura a guerra pela independência de Angola, neste presente trabalho o tempo cronológico já se deslocou, indo constuir o ambiente no período pós-guerra da independência angolana. O país está em reconstrução; prósperos empresários, políticos, generais, enfim, gente importante, mas sem um passado que os destaque, vão procurar Félix Ventura.

Félix tem uma profissão estranha: reconstroi e vende passados falsos para toda essa gente. Pesquisa no computador, vai de loja de antiguidades em loja de antiguidades, compra álbuns fotográficos antigos, vasculha referências. E, um detalhe importante, Félix Ventura é um albino, isto é, alguém que nasceu sem a melanina da pele e por isso é branco, com dificuldades de enxergar durante o dia (os albinos sofrem de fotofobia). E por que essa referência seria importante? Já-já explico. Um bom autor – e Agualusa é, com absoluta certeza um deles – jamais deixa “pontas desamarradas” nas histórias que cria.

A criação de um passado, pelo nosso personagem principal, não serve apenas àqueles que buscam notoriedade; serve também àqueles cujas ações pregressas precisam ser ocultadas. É o caso de crimes de guerra, violências, estupros, etc. O cliente define seu desejo e Félix executa o trabalho com eficiência.

Como se vê, Agualusa trabalha bem um dos aspectos relacionados na obra A Arte da Ficção, de David Lodge, o estranhamento, referido como

“…tradução consagrada de ostranenie (literalmente, “tornar estranho”), mais um daqueles termos críticos imprescindíveis cunhados pelos formalistas russos.” (página 61, op. cit.)

Em síntese, uma espécie de deslocamento na maneira de apresentar um dado da realidade, algo que chama a atenção do leitor exatamente por ser inusitado. E esse estranhamento se dá não só pela esquisita profissão de Félix Ventura, como também pela inesperada identidade do narrador: uma osga. Osga é lagartixa, e essa, que nos narra as venturas (desculpem-me o jogo de palavra, é irresistível) de Félix é uma osga-tigre, cheia de listras. Ela habita a mesma casa do protagonista e a tudo observa.

Certo dia, aparece na residência de Ventura um repórter fotográfico, encomendando a ele um passado:

“Explicou que pretendia fixar-se no país. Queria mais do que um passado decente, do que uma família numerosa, tios e tias, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, avós e avôs, inclusive duas ou três bessanganas, embora já todos mortos, naturalmente,  ou a viverem no exílio, queria mais do que retratos e relatos. Precisava de um novo nome, e de documentos nacionais, autênticos, que dessem testemunho dessa identidade.” (página 18)

O vendedor de passados faz um trabalho exemplar para o repórter. Batiza-o de José Buchmann, natural de São Pedro da Chibia, no sul do país,  filho de certo Mateus Buchmann e Eva Miller. Forjou para ele passaporte, bilhete de identidade, carta de condução. Havia também fotografias. E tão bem o trabalho é feito que o repórter-cliente, ao longo da história, vai pouco a pouco incorporando o personagem Buchmann.

Há 6 capítulos no livro que se constituem em sonhos. E sonhos de quem? Outro estranhamento! São sonhos da osga, que numa reencarnação passada, fora humana. A bem da verdade, está mais para a teoria da metempsicose. Expliquemos a diferença.

Reencarnação é uma definição espírita, definida por Allan Kardec como a possibilidade de uma alma (ou Espírito) envergar corpos diferentes em suas muitas vivências. A metempsicose também lida com a mesma ideia, mas a profunda diferença é que, enquanto naquela, existe uma completa impossibilidade de um espírito de ser humano retrogradar na escala evolutiva e encarnar em um ser inferior, nesta – metempsicose – isto é completamente possível. É a crença da religião do antigo Egito.

Explicação dada, a osga tem sonhos de quando era humana – e mesmo como osga mantém sua criticidade e racionalidade. Ela, portanto, funciona não só como elemento condutor da história, mas igualmente como elemento de flashback, indo ao passado e resgatando para nós, leitores, partes imprescindíveis da história dos personagens envolvidos, dando-lhes verossimilhança (conceito literário significando aquilo que tem aparência de realidade).

Além disso, em alguns dos sonhos da nossa narradora ela interage com Félix Ventura, numa espécie de telepatia (ela pensa alguma coisa, Félix a repete). Chega-se ao ponto de haver necessidade de nomear a osga e Ventura a chama de Eulálio, aludindo à facilidade verbal da lagartixa.

Há muita referência à literatura, tanto portuguesa como brasileira ou outras ainda; tudo tem a ver com o projeto literário do autor. Eça de Queirós é um dos autores mais citados, pois Félix conhece toda a obra do escritor português.

O vendedor de passados  gira em torno da questão da construção da memória, seus disfarces, seus equívocos, sua relatividade, enfim. Lá na página 132, aparece um diálogo que, a meu ver, é emblemático:

“José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão. Ele olhou-o distraído:

- A verdade é improvável.

Sorriu num relâmpago:

- A mentira –, explicou, – está por toda a parte. A própria natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe dizendo, fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento – e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.”

Discorre-se, portanto, sobre o tênue limite que separa a realidade (que, às vezes é escamoteada) e a mentira (que, às vezes, faz parte de uma dada função social):

“Existem dezenas de profissões nas quais saber mentir é uma virtude. Estou a pensar nos diplomatas, nos estadistas, nos advogados, nos actores, nos escritores, nos jogadores de xadrez. Estou a pensar no nosso amigo em comum, Félix Ventura, sem o qual nós não nos teríamos conhecido. Indique-me agora uma profissão, uma única, que não se socorra de alguma mentira, e na qual um homem que apenas diga a verdade seja efectivamente apreciado?” (página 133)

O tom que perpassa o livro é o de uma sátira à identidade angolana, temperada com bom-humor e diversão.

A questão da identidade fugidia, do passado ilusório e artificial, do olhar desconfiado sobre a tão propalada realidade também aparece no final de A Relíquia, do citado Eça de Queirós, se bem que muito mais cínica:

“E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse “descarado heroísmo de afirmar”, que, batendo na Terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu – cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.”

Não é à-toa Félix saber de cor e salteado os textos do Eça, não é mesmo, leitor inteligente?

Félix Ventura é um africano albino, intolerante à luz reveladora (do sol), fato gerador de ambiguidade identitária; José Buchmann é um branco que deseja se passar por um africano negro (e lembrem-se, incorpora o personagem criado para ele); a osga narradora é um réptil que teve um passado humano. Por toda a obra, o passado criado transforma os clientes de Félix Ventura (e a ele próprio) em outro ser, diferente do que era antes.

Se você assistiu ao filme de Lula Buarque de Hollanda, homônimo do livro, esqueça. Não pode haver termos de comparação entre a magnífica estruturação e complexidade da obra literária e o que se vê na telona. O filme é apenas inspirado na obra de Agualusa, sem qualquer outro benefício. Sem dúvida, na minha opinião, O vendedor de passados é um dos melhores trabalhos literários já resenhados neste blogue.

Leia-o, leitor amigo; a história guarda supresas muito além das resenhadas aqui. Há outros personagens, situações dúbias, amorosas.

AGUALUSA, José Eduardo. O vendedor de passados. Editora Gryphus, 3ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2015

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Resenha 55 - Slow Reading, de John Miedema

Resultado de imagem para slow reading john miedemaJohn Miedema é especialista em tecnologia da informação na IBM, empresa na qual ele se especializou, mais especificamente, em tecnologias da rede. É aluno, em tempo parcial, do programa de mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação da Universidade  de Ontario Ocidental. A ênfase é nas áreas de pesquisa sobre a leitura e bibliotecas de fonte aberta. John mora com a mulher e dois filhos adolescentes em Southwestern Ontario.

Antes de se falar em slow reading, devemos abordar o slow movement, surgido como um contraponto ao fast movement (movimento rápido, em português). A pressa parece uma constante no mundo moderno; tudo é fast, desde a alimentação, passando pelo trabalho, pelos (longínquos) prazeres da vida. O ritmo alucinante de nossas vidas, desde o momento em que nos levantamos – ou até mesmo enquanto dormimos, cada vez mais, pouco e mal – até quando chegamos em casa, exaustos de tanta correria. A famosa fast food, um hábito que já não se restringe mais ao “american way of life”, mas toma conta do mundo todo, acabou por gerar um movimento contrário. As proposições desse novo modo de vida são fruir as coisas, a nossa vida, de um modo lento, com degustação e, portanto, maior prazer.

O slow reading é uma das vertentes dessa proposta: ler atentamente, ler de modo relexivo, sempre com o intuito de aproveitar o máximo possível o prazer da leitura. Não prega que devamos, em toda e qualquer situação, ler de maneira lenta. O livro nos lembra haver casos nos quais a rapidez se impõe:

“Slow reading significa ler em ritmo reflexivo. A ideia de ler mais lentamente pode parecer estranha numa época em que cada vez mais se exige leitura dinâmica, em face da quantidade de literatura informativa. Claro que muitas vezes é importante ser capaz de ler rapidamente. Quem por natureza lê devagar só a custo admite isso. Eu sou um leitor lento. Um livro que leio em um mês é lido pelos outros em uma semana. Às vezes se considera que a leitura lenta reflete o pensamento lento, e eu não contesto essa associação. A leitura lenta de um livro leva a uma relação mais profunda com suas histórias e ideias. Quando leio um livro lentamente, ele continua me influenciando mesmo depois de passados anos.” (página 13)

Este Slow Reading – os benefícios e o prazer de uma leitura sem pressa – é dividido em quatro capítulos, nos quais o autor, em cada um deles recorre à pesquisa e às ideias já apresentadas e oferece uma perspectiva original.

O primeiro capítulo chama-se A natureza pessoal da slow reading. O segundo, Slow Reading numa ecologia da informação; o terceiro, O Slow Movement e a Slow Reading e, finalmente, o quarto, A psicologia da Slow Reading.

No passado, a leitura era artigo de luxo, pois somente uns poucos letrados podiam se dedicar a ela. Como o livro era ainda muito caro, muitas vezes consistindo em réplicas manuais, pacientemente feitas pelos copistas, somente as obras de caráter clerical eram feitas, bancadas pela Igreja. Lia-se reverentemente um livro sagrado. Mais tarde, dentro das faculdades, os estudos acadêmicos eram praticados de maneira lenta, acurada, para extrair o pleno significado de um texto. Ainda hoje, os professores de português se utilizam das mesmas técnicas nas aulas de leitura com seus alunos. Ressalta-se a construção frasal aqui, o uso extremamente apropriado de um adjetivo ou de um tempo verbal ali.

Nunca se leu tanto quanto hoje. Essa afirmação pode parecer em descompasso com as pesquisas sobre leitura, apontando sempre que cada vez lemos menos. Mas esses resultados, cheios de estatísticas refletem, na verdade, um certo tipo de leitura. Por exemplo, costuma-se dizer que o Brasil lê muito pouco. Essa afirmativa não está errada, mas ela reflete uma visão de leitura restrita. John Miedema propõe um conceito mais amplo de leitura (não só de livros, não só de literatura), abrangendo, por exemplo, ebooks, memorandos, ofícios, revistas, leitura na internet, cartazes, anúncios, etc. Dentro deste conceito, realmente lemos muito. Lemos blogues, lemos sites, consultamos enciclopédias digitais, revistas digitais, jornais (formato tradicional ou digital) – textos, textos e mais textos.

O autor localiza o início do uso da expressão caracterizadora da leitura lenta:

“Parece que a mais antiga referência explícita à expressão “slow reading” está no prefácio de Nietzsche para o livro Aurora: “Não é a troco de nada qua alguém foi filólogo, talvez ainda o seja, o que equivale a dizer: um professor de slow reading”(1997). Nietzsche vê a filologia como uma “especilização da palavra” que exige do leitor a dedicação de tempo para uma boa leitura.” (página 25)

Historiando ainda a slow reading, John vai relacioná-la à crítica literária chamada New Criticism (Nova Crítica), para a qual a proposta de abordagem de uma obra literária apagava a figura do autor diante; ele não importava, mas única e exclusivamente o texto. Isolando o artefato do criador, só buscavam o que podiam extrair da obra. Nada de dados biográficos, do modo de vida do escritor, do seu credo estético.

Em uma proposta extremamente voltada para a pedagogia do prazer da leitura, entre os jovens, Miedema nos recomenda a Leitura Voluntária  Livre (ou LVL):

“LVL significa ler pela vontade de ler. Não há relatório sobre o livro, não se fazem perguntas no final do capítulo e não se pesquisa cada palavra nova. A LVL significa refugar  um livro  de que não gostamos e escolher outro em seu lugar. É o tipo de leitura que as pessoas com alta capacidade de ler e escrever fazem o tempo todo.” (página 32)

Extremamente oportuno citar aqui o livro Como um romance, do francês Daniel Pennac, em que ele elabora dez direitos de qualquer leitor:

Resultado de imagem para Como um romance“1) O direito de não ler; 2) O direito de pular páginas; 3) O direito de não terminar o livro; 4) O direito de reler; 5) O direito de ler qualquer coisa; 6) O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível); 7) O direito de ler em qualquer lugar; 8) O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9) O direito de ler em voz alta; 10) O direito de calar.”

Para quem se interessou pelo livro de Pennac, ele saiu pela editora Rocco/L&PM Pocket, com tradução de Leny Werneck, 152 páginas, gênero Ensaios (mas saboroso de se ler).

Como esse Slow Reading é um livro teórico, não preciso me preocupar com spoilers; portanto, aí vai um deles, reproduzindo o depoimento de John Miedema, ele mesmo um dos praticantes da slow reading:

“A slow reading pode ser feita de muitos modos, mas em todos eles uma parte maior do ser interior do leitor é levada para o ato de ler. Minha prática pessoal envolve a leitura num ritmo moderado, normalmente por períodos curtos, parando quando noto que estou começando a pular palavras. Enquanto leio, de vez em quando dou uma parada para tomar notas que posteriomente integrarão uma resenha que faço no meu site. Embora goste que as pessoas as leiam e comentem as minhas resenhas de livros, na verdade isso acaba não tendo muita importância. Para mim, o ato de escrever uma resenha é útil por si mesmo: é um modo de aprofundar a compreensão de um livro, registrando-o na minha memória e dando-lhe um arremate. Mas algumas pessoas não gostam de fazer anotações, achando que elas perturbam a continuidade da leitura.” (página 106)

A todos aqueles que amam ler, recomendo enfaticamente a leitura lenta deste opúsculo de 125 páginas, obra de cabeceira de qualquer bibliófilo.

O melhor de tudo – eu me reconheço (eu nunca havia me visto como tal, juro!) um leitor em modo slow reading. Leio um livro uma vez, releio-o para fazer anotações e elaborar uma resenha como esta, que você agora está lendo. E puxo pela minha memória: todas essas leituras que de alguma forma, em algum momento, impactaram minha vida, modificando ideias, instilando conhecimento e, sobretudo, causando-me prazer foram slow readings.

Por ser tão significativa para mim a leitura dessa obra, caro leitor, peço-lhe licença para abrir mais uma citação do autor, exatamente o trecho com que ele termina seu trabalho, curto, mas rico:

“Frequentemente se diz que durante a vida uma pessoa só pode ler cerca de 5 mil livros. É um número pequeno, tendo em vista a assombrosa quantidade que está disponível para nós. Essa limitação pode levar alguns leitores a acelerarem seu ritmo de leitura para aumentar o número de livros lidos. Essa reação transforma o leitor num turista, que passa de experiência para experiência, observando apenas os pontos principais, ficando apto a dizer que realizou, embora sem estar inteiramente certo do que realizou. Outra reação é apenas reconhecer que na verdade a vida é curta e que nossa seleção reduzida de livros representa uma expressão única do nosso caráter. Essa segunda escolha retira da leitura a pressão desnecessária e a faz voltar a ser um grande prazer.” (página 109)

MIEDEMA, John. Slow Reading – Os benefícios e o prazer da leitura sem pressa. Editora Octavo, São Paulo, SP: 2011

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Resenha nº 54 - A Travessia de Eva, de Pierre Péju

Resultado de imagem para livro A travessia de EvaDescendente de uma família de livreiros de origem lionesa, Pierre Péju fez seus estudos de filosofia na Universidade de Sorbonne, Paris. Estudante apaixonado pelas manifestações de Maio de 1968, ele escreve, desde 1971, para diversos jornais e revistas.
Professor do liceu Champollion e, posteriormente, do liceu internacional Stendhal, em Grenoble, e diretor do programa do Collège International de Philosophie, ele é também autor de muitos ensaios, romances, contos e novelas. Especialista em Romantismo alemão, ele editou várias obras da coleção Românticos, Coleção Corti.
Recebeu os prêmios Prix du Livre Inter, 2003, e Prix Rosine Perrier, 2003, por La Petite Chartreuse (A Travessia de Eva, em português); Prêmio de Romance Fnac, 2005, por Le Rire de l’ogre (O Escárnio do Ogro – tradução livre do título, de minha autoria).
Travei contato com o livro A Travessia de Eva e com seu autor, Pierre Péju num saldão de livros à venda em um shopping. Nunca ouvira falar da obra e autor, ignorância confessa. Como sempre faço, folheei o pequeno volume, li as informações contidas nas orelhas e na quarta capa. Observei cuidadosamente a capa: a chuva caindo sobre vários guarda-chuvas negros. As gotas em pequeno relevo, traçando linhas plastificadas. O nome, escrito em branco, manuscrito. Tinha tempo; li trechos aqui e ali, pinçados a esmo, e gostei do conjunto. Você certamente já ouviu dizer que, no relacionamento entre pessoas, há uma química. Pois bem, entre leitor contumaz e o objeto do seu desejo também deve haver uma química. Se da mesma ordem, não sei; quem o souber, que me ajude.
Thérèse Blonchart, certo dia, chega muito atrasada à porta da escola em que estuda sua filha, a pequena Eva. A menina não está mais à sua espera; dizem-lhe que a viram ir embora sozinha. A mãe se preocupa: com certeza, a filha não saberá encontrar o apartamento onde moram. E, ao atravessar apressadamente uma avenida, Eva é colhida pela camionete de Étienne Vollard. Esse é o drama sobre o qual o autor constrói sua obra.
Étienne sempre fora um menino grandalhão, desajustado no contato com as pessoas, apenas aluno mediano, mas com uma memória fantástica para os muitos livros que lia. Sabia de cor trechos e trechos de muitos, vários autores. No entanto, era um incapaz de relacionamentos sociais. Vollard trabalha com aquilo de que mais gosta: livros. É dono de um sebo, chamado O Verbo Ser.
Thérèse é muito jovem, sem nenhuma aptidão para ser mãe. Ela tenta, mas não consegue. Mulher extremamente solitária, tem de trabalhar para se manter e à filha. Particularmente, não é chegada a leituras; simplesmente vive e trabalha e isto é tudo.
Não é difícil imaginar que essa condição também vai influenciar Eva. Na escola, não tem amiguinhas, tão comuns nesta época da vida. Criança igualmente sozinha, quieta, calada em seu canto.
O acidente sofrido pela menina aproxima os dois outros personagens, Étienne e Thérèse. Um homem profundamente solitário e uma mulher jovem, de igual condição. Vollard vai visitar Eva no hospital, movido pelo sentimento de culpa. A pequena tinha surgido na frente do seu veículo, lotado de livros, estava chovendo e ele não conseguira evitar a colisão. A vítima está em coma, muito machucada.
Enquanto Vollard visita sistematicamente a menina, a mãe pouco a pouco se afasta. Afinal, não há nada a fazer. Étienne também não sabe como proceder; sem saber direito o que faz, recita trechos dos livros lidos para ela ouvir. Mas a criança não responde. A evolução do caso, se houver, será muito lenta e, provavelmente, com sérias sequelas.
Pierre Péju traça, neste A Travessia de Eva – narrativa de 160 páginas, um quadro terrivelmente comum, mas não menos pungente: pessoas sozinhas, em suas vidas monótonas, sem força e sem vontade de serem protagonistas de si mesmas. Formatadas pelos seus estreitos horizontes e a eles conformadas. O que move Vollard não é compaixão pela vítima do acidente, apenas culpa. Ele não vislumbra a possibilidade de evolução do caso, como, aliás, igualmente não tem perspectiva de modificação para sua própria vida.
Thérèse vive nesse mesmo marasmo. Não cuida bem de Eva, não porque não o queira, mas por não ter essa capacidade. Nela, o instinto materno é nulo. Péju não nos diz algo sobre o passado dessa personagem, deixando a nós – leitores – uma sensação de ausência de informações. Ela é daquelas personagens que, por si sós, mereceriam uma história, um passado. Por que ela é assim? Como engravidou? Amou alguém?
Entretanto, tal economia de dados só realça a contundência narrativa. E, creio, foi uma questão de escolha do autor. Mesmo quando ele constrói um passado para Étienne Vollard, não o faz para explicar o porquê de ele ser assim, tão solitário. Não. O personagem já nos é apresentado assim, solitário, recolhido a si mesmo.
O estilo é propositalmente seco, enxuto. Na orelha do livro, Paulo Bentancur nos lembra que
“A narrativa lembra muito a de autores como Albert Camus: embotada, cortada, onde as ilusões, se é que algum dia existiram, foram-se há muito tempo”
Entretanto, tal característica estilística não impede algumas passagens de incômoda e triste beleza:
“Foi-lhe difícil recuperar a respiração normal. Tinha as narinas, olhos e cabelos cheios de vômito. Sim, tinha vomitado um pouco, vomitara vagamente a si mesmo, Édipo deficiente, sem destino nem complexo, pendurado num imenso cordão umbilical de borracha. Mas sentia que as frases, as frases dos livros, permaneciam solidamente fixadas em seus cérebro.” (página 130)
Ou, nessa passagem:
Os olhos negros de Eva pareciam aguardar os “plufs” sucessivos, como se começasse a encontrar nesse jogo um tênue prazer. Apesar do mutismo e da ausência de qualquer expressão feliz, Vollard acreditava nela entrever uma satisfação infantil, vinda de uma infância distante e completamente anônima. Ele próprio sentia a comichão de uma alegria ao mesmo tempo velha e imediata. Lançar uma pedra à água. Mirar e atirar. Fazer saltar. Buraco de círculos dentro d’água. Diante do olhar de Eva, ele se pôs a lançar pedras cada vez mais pesadas para produzir ruídos cada vez mais fortes.” (página 136)
Sentir a comichão de uma alegria, algo completamente vago, sem foco.
E lá na página 154, num assomo de consciência, Thérèse se diagnostica:
“- Tive notícias com mais frequência que o senhor pensa. E o senhor se lembra, quando ela estava no hospital, fiz o que pude. Falar com ela? O que eu poderia lhe dizer? Não sou como o senhor: tenho dificuldade com as palavras, com as frases… Embora, no fundo, goste delas. Aliás, costumo anotar num caderno coisas que me agradam… Não tenho nada de alegre a dizer. Já andei muito por aí. Escrevi isso, veja só: “Toda a minha vida é deslocada como uma fotografia fora de foco.” É, senhor Vollard, não é feia a minha vida, mas fora de foco, completamente fora de foco. Muitos lugares, muita gente, muitos homens. Todos iguais!”
Não há, leitor, uma beleza melancólica em passagens como as apontadas acima? E nesta última, no momento mesmo em que escrevo essa resenha, me vêm à mente os versos de Drummond, nosso poeta maior: “Ó solidão do boi no campo/Ó solidão do homem na rua”
Na cidade grande, em meio à multidão em constante movimento, somos seres sem rosto, sem vida; somos títeres que se movimentam segundo os comandos que nos chegam pelos fios que nos movem.
O livro está cheio de referências literárias, pois Étienne Vollard as cita várias vezes. Por isso, não são chatas ou mero exibicionismo intelectual do autor; elas são perfeitamente coerentes com a construção do personagem. Podem vir destacadas e mostradas, em itálicos, ou vir mais “secretamente”, como no trecho da página 120:
“O centro, assim como outros estabelecimentos médicos, erguia-se acima do povoado, sobre um estreito terraço montanhoso, abrigado do vento norte por uma comprida falésia e por um bosque de carvalhos, seguido de um de abetos. Lugar retirado, protegido. Esses estabelecimentos haviam sido sanatórios por muito tempo. Tosses roucas, febre e escarros no ar puro da montanha mágica. Mas agora, lá embaixo, nos vales a tosse deixara de ser mortal. Os sanatórios não tinham mais razão de existir.”
Citação grifada por nós, a qual nos remete imediatamente à obra A Montanha Mágica, do escritor alemão Thomas Mann. Nesse clássico, não só da literatura alemã, mas um clássico da literatura universal, o personagem Hans Castorp sofre de tuberculose pulmonar e se interna num sanatório em uma montanha, daí o nome da obra.
A Travessia de Eva é um excelente livro; triste, mas escrito com extrema competência literária. Incomoda-nos, é verdade. É um lembrete, uma denúncia, um protesto, como quiserem. Sejamos protagonistas. A falta de foco – ou de sentimentos, ou ainda, de engajamento – nos torna “coisas”. Seres sem alma. Portanto, sem importância. Recomendo a leitura dessa obra com veemência!
PÉJU, Pierre. A Travessia de Eva. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Resenha nº 53 - Já Entendi, de Gladys Mariotto

Resultado de imagem para livro já entendiGladys Mariotto formou-se como bacharel e Belas Artes e Filosofia, especializou-se em História da Arte do Século XX, em Sociologia e Ensino; fez mestrado em Filosofia/Estética e é doutoranda em Educação.

Estudou produção cultural, desenvolveu materiais didáticos e trabalhou para grandes instituições de ensino, como o IESDE do Brasil, Grupo Uninter, Grupo Expoente e Grupo Positivo. Escreveu 36 livros didáticos e paradidáticos, recebeu 34 prêmios em educação, cinema, inovação e artes.

Em 2010, foi selecionada para o Japan Prize da rede NHK, em Tóquio, o maior evento mundial de mídia educativa e, logo depois, a convite da UNICEF, apresentou-se em Havana, Cuba.

Com tal ficha de sucessos, pode-se pensar que Gladys seja uma pessoa com profunda facilidade de estudo. Nada mais enganoso, porém. Ela é portadora de Transtorno de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Além disso, aos 17 anos de idade engravidou, quando cursava o ensino médio. Resultado: seus anseios de fazer uma faculdade tiveram de ser arquivados por longos 18 anos. Criou seus filhos e aos 36 anos, resolveu ressucitar o antigo projeto de curso superior.

Logo surgiu a primeira dificuldade: por conta do longo tempo sem acesso à educação – ampliada ainda mais pelo seu transtorno – simplesmente não conseguia dar conta do conteúdo das apostilas do filho, que, à época, estudava também para o vestibular. E se deu a gênese da metodologia do Já Entendi. Ela foi manipulando todo o material, recortando-o, anotando-o, reescrevendo-o e dessa forma conseguiu facilitar e acelerar seu próprio aprendizado.

O Já Entendi é, portanto, uma metodologia de aprendizagem para autodidatas, que tem como parâmetros a heutagogia, a andragogia, a neurolinguística, a utilização de mapas mentais, o storytelling e o design (instrucional e por infográficos). Prioriza uma aprendizagem dinâmica, com ferramentas variadas para evitar a monotonia das aulas tradicionais.

Por heutagogia entende-se o processo pelo qual o estudante é o único responsável pelo próprio aprendizado, determinando seu ritmo de estudo, o que aprender. Andragogia é o estudo voltado para adultos, em contraposição à pedagogia, que é o estudo voltado para crianças. Neurolinguística é “a ciência ocupada com os mecanismos cerebrais de aprendizagem que suportam a compreensão, produção e conhecimento abstrato da língua, falada, escrita ou assinalada” (Wikipédia). Mapas mentais são esquemas gráficos, com um núcleo temático central e níveis de relações hierárquicas, estimuladoras da memória. Storytelling é a contação de uma história para se atingir um objetivo. A disposição didática e dosada do material em forma de esquemas, destaques, organização de tópicos textuais vinculados a gráficos orientados é o que chamamos de infográfico.

Realmente, quem se disponha a aprender com esse método poderá alcançar êxito em estudar sozinho. O Já Entendi pode ser aproveitado por professores de qualquer conteúdo, tanto no momento de se embasar e preparar as aulas, quanto na orientação ao aluno, para que tenha mais facilidade de estudar em casa.

Lança mão de gráficos, destaques de textos, mapas mentais – tudo muito colorido, facilitando a associação conteúdo-visualização. Fornece até um questionário (não é infalível) para indicar à pessoa se ela é de memorização mais visual, auditiva, etc., para a partir daí enfatizar quais técnicas seriam melhores para cada tipo de autodidata.

Ao longo de todo o livro, pequenas mensagens de reforço positivo são escritas, num claro objetivo de, apoiando-se na Neurololinguística, mudar a disposição mental do aprendente ou reforçar positivamente suas decisões:

“Porque imaginar  é um exercício não só do cérebro, mas também do coração. Coração, emoção, razão. A rima perfeita, a que chamamos Imaginação!” ( Jéssica Carvalho)

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar a alma humana, seja apenas outra alma humana.” (Jung)

“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.” (Padre Antônio Vieira)

“Argumentar é discutir, mas, principalmente, é raciocinar, deduzir e concluir. A argumentação deve ser construtiva na finalidade, cooperativa em espírito e socialmente útil.” (Whitaker Penteado)

Incentiva o estudante a elaborar horários para o estudo, buscando a possibilidade de variar o conteúdo (aprende-se melhor quando não se dedica o tempo todo a um tipo de conteúdo apenas). E – o que os professores de português já sabem – aconselha enfaticamente a leitura como parte do processo de aquisição de vocabulário e costume com o texto escrito. Como está visto, o Já Entendi exige discipina do estudante.

A metodologia em questão ganhou vários prêmios, entre eles, o Prêmio Startup do Ano de 2014, dado pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Quem desejar mais informações, acesse o site www.jaentendi.com.br.

MARIOTTO, Gladys. Já Entendi. Editora Planeta. São Paulo, SP: 2015.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Resenha 52 - Stoner, de John Williams

Resultado de imagem para livro StonerJohn Edward Williams nasceu em 1922, em Clarksville, um povoado no interior do Texas. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial, na China, na Birmânia e na Índia. Recebeu o bacharelado em Literatura Inglesa na Universidade de Denver e o doutorado na Universidade do Missouri, em 1954. Voltou para Denver no mesmo ano, onde trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa até sua aposentadoria, em 1985. Faleceu em 04/03/1994. De sua autoria, ainda temos Nothing but the night, Butcher’s Crossing e Augustus.

Durante a leitura deste livro, vieram-me à memória três outros livros. Coração Frágil, de Dostoiévski, Bartleby, O Escriturário, de Herman Melville e A Fera na Selva, de Henry James. O que haveria de comum entre narrativas tão diferentes? Em Coração Frágil, temos um Vássia Chumkov extremamente feliz que, por isso mesmo, começa a se questionar sobre o merecimento dessa mesma felicidade e, por isso, sofre. Já em Bartleby, O Escriturário, o personagem que dá título ao livro é completamente anódino; repete o tempo todo “melhor não”, recusando-se a fazer o que lhe pedem. A Fera na Selva nos conta sobre um casal, John Marcher e May Bartram; eles passam a vida toda esperando algo, pois John tem a nítida impressão de algo extraordinário estar reservado a eles. No entanto, esse algo extraordinário não vem. De quebra, ainda podemos incluir a excelente peça de Samuel Beckett, Esperando Godot. Stragon e Vladimir levam a peça toda esperando o tal Godot; ele não aparece. Qual elemento em comum meu subconsciente teria construído como ponte entre tais obras? Após pensar um pouco, o que me fica patente entre elas e esse Stoner é a inadequação para a felicidade, o absurdo da vida, o tédio dos dias sempre planos e iguais.

Stoner, de John Williams, é extraordinário. O parágrafo que abre a história é um enorme spoiler:

“William Stoner entrou na Universidade do Missouri como calouro no ano de 1910 com a idade de 19 anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, recebeu o diploma de doutorado e assumiu um cargo na mesma universidade, onde lecionou até sua morte, em 1956. Nunca subiu na carreira cima da posição de professor assistente, e poucos estudantes se lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas. Quando morreu, seus colegas doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. Esse manuscrito ainda pode ser encontrado no “Acervo de Livros Raros”, com a seguinte inscrição: “Doado à Biblioteca da Universidade do Missouri. Em memória de William Stoner, departamento de Inglês, por seus colegas.” (página 7)

Como pode um autor, depois de entregar o enredo da narrativa em poucas linhas, manter nossa atenção leitora por 306 páginas? A vida de Stoner é um monstruoso lugar-comum, cheio de dramas miúdos. Alguns leitores do livro o consideraram obra irregular, exatamente porque, em alguns pontos, a narrativa seja assim tão sem novidades. Não é, evidentemente, uma verdade absoluta: continuamos lendo sobre a vida de Stoner, pois mesmo de posse do spoiler inicial, tentamos entender sua atitude, sua quase completa apatia.

Certas obras se notabilizam pelo enredo bem trabalhado, cheio de reviravoltas; outras, terão seu ponto forte na caracterização dos personagens, ativos, verdadeiros heróis em sua luta para se afirmar ou vencer os infortúnios. Ainda outras serão notáveis pela recriação da linguagem, pelo belo polimento frasal.

A prosa de John Williams, nesse seu Stoner, não é nada disso. Não há trama repleta de imprevisto; ao contrário, ela é completamente previsível. A linguagem é simples e direta, sem apelos ao beletrismo ou sem concessões a belas construções frasais. E aqui reside a genialidade do autor: trabalhou forte a dimensão interna do personagem. Seus problemas são lugares-comuns; sofre calado por dificuldades solucionáveis por ele mesmo. Não obstante,  não consegue reagir e disso vem não só sua densidade dramática, como também a simpatia do leitor. Torcemos pelo protagonista, angustiamo-nos com sua tristeza, desejamos compreender-lhe a alma.

O que nos rouba a atenção e a vontade de seguir William Stoner é uma identificação dele com a maioria de nós mesmos, seres quase anônimos dentro da sociedade. Já se disse, a História é a história dos grandes homens – reis, guerreiros notáveis – mas é construída pela contribuição dos pequenos e anônimos soldados rasos e guerreiros sem nome. É impróprio enquadrar Stoner como herói ou anti-herói. Talvez a melhor definição seja a que escutei, “Stoner é um coadjuvante de si mesmo”.

Essa obra admirável foi lançada em 1965 nos Estados Unidos, vendeu 2.000 cópias e caiu no esquecimento do grande público, embora mesmo esgotado, continuasse sendo comentado por poucos.

Um artigo do escritor irlandês Colum McCann sobre o livro, publicado no jornal The Guardian, em 2006, começou a resgatar a obra esquecida. A autora francesa de best-sellers,  Anna Gavalda, se interessou pela obra e solicitou traduzi-la. Saiu na versão francesa em 2011. Foi republicado em inglês e ganhou pareceres entusiasmados de outros escritores, do porte de Ian McEwan, Julian Barnes, Enrique Vila-Matas e do ator Tom Hanks.  Resultado:  John Williams fez enorme sucesso na Europa, em 2013, após 50 anos da primeira edição.

Aqui no Brasil, a segunda edição é de 2015 e saiu pela pequena e iniciante Rádio Londres. A primeira teve problemas sérios de revisão, devidamente superados nessa atual, à qual também se ajuntou um posfácio de Peter Cameron. A editora promete, ainda, o lançamento de Butcher’s Crossing, do mesmo autor, para o segundo semestre desse ano.

Provavelmente, se o livro tivesse chegado às minhas mãos na adolescência, eu não o apreciaria como agora; a falta de reação de Stoner o teria condenado a um lugar qualquer na estante. Há realmente “um clima de tristeza sutil”, como está colocado na quarta capa da obra, reproduzindo as impressões de Julian Barnes.

É patente o clima de desesperança, de inadequação diante do absurdo da vida social. O personagem principal reproduz o modo como fora criado, deixando-se levar pelos fatos, pela força do meio. Não se insurge, não se queixa; quase não é muito afirmar que mesmo ele não se importa. Sua paixão pela literatura é algo tocante, talvez seja o que o mantenha vivo; o triste e belíssimo final da obra evidencia essa opção que, de início, não era a sua, mas que foi abraçada com profunda dedicação.

E eis o surgimento de outra nuance da obra: o autor instaura um narrador em estado de contida compaixão pelo personagem Stoner e sua vida difícil; compreende o sofrimento dele, é quase cúmplice da sua falta de vontade de forjar sua vida.

Se fosse vincular a obra a uma palavra apenas, escolheria “compaixão”.

William Stoner vivia com seus pais, numa pequena fazenda no centro do Missouri. Ele nascera em 1891 e desde criança ajudava os pais nos afazeres típicos:

“Desde que se entendia por gente, William Stoner teve seus deveres. Aos 6 anos, ordenhava as vacas magras, alimentava os porcos no chiqueiro a uns poucos metros da casa e coletava os pequenos ovos de galinhas magrelas. E, mesmo quando começou a frequentar a escola rural a 13 quilômetros da fazenda, seu dia, desde antes do amanhecer até depois do anoitecer, era repleto de incumbências, de um ou outro tipo. Aos 17 anos, seus ombros já estavam começando a se encurvar sob o fardo de suas tarefas.” (página 8)

É mandado estudar Ciências Agrárias na Universidade de Columbia. Ele vai prestar serviço na casa dos Foote, a troco de um lugar para dormir e o que comer:

“Foi alojado no andar de cima, que outrora fora um depósito. Sua única mobília era um catre de ferro preto com o estrado vergado sustentando um ralo colchão de penas, uma mesa quebrada em cima da qual apoiava um lampião de querosene, uma cadeira que ficava bamba no chão e um caixote enorme que ele usava como escrivaninha. No inverno o único aquecimento que ele tinha era o que se infiltrava pelo chão dos quartos lá embaixo. Stoner se embrulhava o melhor que podia nas colchas e nos cobertores puídos e soprava nas mãos para poder virar as páginas de seus livros sem rasgá-las.” (páginas 13-14)

No segundo ano do sua vida escolar, ele conhece o professor Archer Sloane, durante um curso sobre Literatura Inglesa. Uma pergunta instigante é feita a ele pelo professor, ao lhe pedir a interpretação de um poema de Shakespeare: “O Sr. Shakespeare está lhe falando de trezentos anos atrás, Sr. Stoner, você pode ouvi-lo?”

Ele, então, muda de curso. Não irá mais estudar Ciências Agrárias, mas Língua Inglesa e Literatura. Seus pais aceitam a mudança, dizendo “nós nos viramos”. E, quando ele lhes comunica, um pouco constrangido, ter decidido não voltar mais à fazenda, ele escuta dos pais o mesmo “nós nos viramos”.

O professor Archer tem com Stoner uma conversa importante, definidora do seu encaminhamento profissional:

“Sloane se inclinou até seu rosto ficar bem perto. Stoner viu as rugas do rosto magro e comprido se suavizarem, e ouviu a voz seca e zombeteira tornar-se gentil e desguarnecida.

“Mas você não entendeu, Sr. Stoner?”, perguntou Sloane. “Você ainda não entendeu mesmo? Você vai ser professor.” (página 26)

E assim, Stoner torna-se professor. Na universidade, faz amizade com David Masters e Gordon Finch. Explode a Primeira Guerra Mundial e os dois amigos resolvem se alistar; William não participa da guerra e continua seus estudos. Termina o bacharelado e preenche os requisitos para seu doutorado na primavera de 1918 e o termina em julho do mesmo ano. Aceita emprego na mesma universidade onde estudara. Recebe uma carta de Gordon, dizendo-lhe haver passado nas provas da Escola de Treinamento de Oficiais. Comunica, também, a morte do amigo David em Châteu-Thierry.

Em uma festa, Stoner conhece a jovem Edith:

“No fundo da sala, outra porta levava a uma sala menor, adjacente ao comprido e estreito salão de jantar. As portas duplas do salão estavam abertas, revelando uma vasta mesa de nogueira coberta com damasco amarelo e repleta de pratos brancos e tigelas de prata reluzente. Várias pessoas estavam reunidas em volta da mesa, em cuja cabeceira uma jovem mulher, alta, esguia e bela, com um vestido de seda azul aguado, estava de pé servindo chá em xícaras de bordas douradas. Stoner deteve-se na soleira, capturado por aquela visão. A jovem tinha um rosto longo e delicado e sorria para os outros em volta, e seus dedos esguios, quase frágeis, manuseavam habilmente bule e xícaras. Olhando para ela, Stoner foi assaltado pela consciência de sua própria falta de jeito.” (página 55)

Casam-se algum tempo depois e vão viver num pequeno apartamento alugado, perto da universidade. O relacionamento dos dois tem as dificuldades de adaptação comuns. Mas, aos poucos vai ficando claro para o nosso personagem que os problemas do início se agravarão, mesmo depois de terem uma filha, Grace, a quem Stoner dedica sua afeição.

Chega à universidade outro professor, um especialista no século XIX, Hollis N. Lomax:

“Durante o resto do verão, Lomax permaneceu uma figura misteriosa e objeto de especulação para os membros permanentes do corpo docente. Os ensaios que ele publicara foram desencavados, lidos e passados de mão em mão, ganhando uma prudente aprovação.” (páginas 101-102)

Os problemas do personagem principal se agravam a partir do momento em que ele aceita Charles Walker, queridinho do professor Lomax, em um de seus seminários. E nesse mesmo seminário, o professor William tem contato com uma estudante, professora de ensino médio, Katherine Driscoll:

“E assim ele teve o seu caso de amor.

A consciência desse seu sentimento por Katherine Driscoll lhe veio lentamente. Surpreendia-se procurando desculpas para ir até o apartamento dela durante as tardes: o título de um livro ou de um artigo lhe ocorreria, ele os anotaria e deliberadamente evitaria encontrá-la nos corredores do Jesse Hall para poder visitá-la à tarde e entregá-los pessoalmente, tomar café e conversar.” (páginas 207-208)

Chega a Segunda Guerra Mundial. Novamente, o campus da universidade se torna menos movimentado, pelo recrutamento de jovens. Stoner se lembra de seu amigo David Master, morto na primeira. Sua querida Grace se casa grávida.

Stoner, de John Williams é um romance belíssimo. Como vimos, sua escrita é objetiva, direta, sem volteios. Entretanto, isso não impede o autor de escrever momentos de poesia, como no trecho com que vou fechar essa resenha, já longa:

“Pouco lhe importava que o livro estivesse esquecido e não servisse para muito. Até o fato de que ele tivesse ou não algum valor lhe parecia trivial. Não tinha a ilusão de que iria encontrar a si mesmo ali, naqueles caracteres desbotados. No entanto, sabia que uma pequena parte de si mesmo que ele não poderia negar estava ali, e ali permaneceria.

Abriu o livro e, ao fazê-lo, o livro passou a não ser mais dele. Deixou seus dedos folhearem as páginas e sentiu um frêmito como se aquelas páginas estivessem vivas. O frêmito atravessou seus dedos e correu através de sua carne e de seus ossos. Estava profundamente consciente dele, e esperou até que o envolvesse por inteiro, até que a antiga excitação parecida com terror o imobilizasse onde estava deitado. A luz do sol, entrando pela janela, brilhou sobre a página, e ele não conseguiu ver o que estava escrito nela.

Os dedos relaxaram, e o livro que seguravam se moveu lentamente e depois rapidamente ao longo do corpo imóvel, caindo, por fim, no silêncio do quarto.” (páginas 305-306)

WILLIAMS, John. Stoner. Editora Rádio Londres, 2ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2015