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sábado, 4 de abril de 2015

Resenha nº 50 - Onde Andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu

Resultado de imagem para Grandes Escritores da Atualidade Onde andará dulce veiga?

Caio Fernando Loureiro Abreu nasceu na cidade de Santiago, Rio Grande do Sul, em 12/09/1948. Estudou Letras e Artes Cênicas na UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo sido ali colega de outro escritor, João Gilberto Noll. Caio abandonou os dois cursos e trabalhou como jornalista nas revistas Nova, Manchete, Veja e alguns jornais. Em 1968, nos “Anos de Chumbo”, foi perseguido pelo famigerado DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – tendo ficado escondido no sítio da escritora paulista, Hilda Hilst. Foi exilado em 1970, por um ano, na Europa; viveu na Espanha, na Suécia, nos Países Baixos, na Inglaterra e, por fim, na França. Fernando Abreu teve a coragem de se assumir homossexual em plena ditadura militar. Em 1994, descobriu ser portador do vírus HIV. Faleceu em 25/02/1996.

Conhecia o escritor Caio Fernando Abreu por ouvir comentários, ler algo sobre ele na internet, mas ainda não o havia lido, apesar de ter esse livro na minha biblioteca. Iniciei, desta forma, a leitura ontem, 03/04 e a terminei hoje, 04/04/2015, ansioso por resenhá-la.

Antes de tudo, o livro é sobre a questão da identidade; a palavra pentimento, de origem italiana, é abordada várias vezes durante a narrativa deste Onde Andará Dulce Veiga?. Pentimento é um conceito muito vinculado à pintura: significa uma pintura sobre um esboço anterior; em muitos casos, com o passar do tempo, a tinta da pintura final clareia e deixa ver o leve esboço de origem. O uso frequente do vocábulo tem tudo a ver com a falta de identidade, já que duas realidades, ainda que não completamente distintas entre si, causam uma espécie de lusco-fusco, uma sobreposição. Perpassa o livro uma amargura, um desencanto contido, que às vezes não consegue evitar o grito:

“- Há anos que você sempre quer me ajudar, e acaba atrapalhando tudo. Não foi você quem contou para Alberto que eu estava louca em Nova York? Me faz um favor: não tenta nunca mais me ajudar. Eu quero quebrar a cara sozinha, meu amor. Como quebrei, depois que Ícaro morreu.

De repente, sem ninguém esperar, Márcia jogou-se na cama e começou a chorar, o rosto enfiado nos lençóis encardidos. Em frente àquele morto-vivo travestido de outra morta-viva, como atores que não tivessem decorado o texto nem as marcas de um filme ou peça, talvez livro, de qualidade duvidosa, Patrícia e eu nos entreolhamos.”(página 155)

O narrador da história, também nomeado Caio, é um sujeito completamente perdido, numa cidade grande. Não sabe que rumo dar a sua vida. Não consegue se decidir sobre sua própria sexualidade. E tudo começa quando ele consegue um “trabalhinho de repórter no Diário da Cidade, talvez o pior jornal do mundo” (página 2). Ele se lembra da cantora Dulce Veiga, desaparecida há mais de vinte anos e comenta o caso com seu chefe, que é fã de carteirinha da artista desaparecida. Dá-lhe carta branca para pesquisar e fazer uma crônica saudosa. A publicação faz sucesso e assim ele começa o trabalho de detetive, atrás da cantora.

Dulce (que, a seu turno, também não sabia direito o que querer da vida)  tivera seus casos extraconjugais e acabou se envolvendo com quem não devia, num tempo de ditadura. Acabou desaparecendo de cena, não tendo tempo nem para comparecer ao show ao vivo já marcado. Os jornais da época fizeram um alvoroço, mas, depois, como tudo aliás, o caso foi caindo no esquecimento.

Uma banda de rock faz sucesso naquele momento, com o nome de Márcia Felásio e As Vaginas Dentatas. O narrador descobre que Márcia é filha de Dulce Veiga. Construindo seu percurso investigativo, nosso repórter avança por meio de fiapos de revelações a respeito da diva da música; nem sempre as pessoas estarão dispostas a colaborar com seus esforços. Há um momento em que ele quase desiste. Para não cometer lamentáveis spoilers, já que, num romance de trama policial o enredo tem grande importância, não vou mais falar das surpresas que aguardam o leitor.

Caio Fernando Abreu tem um estilo extremamente conciso e preciso, sua imaginação passeia pelas cenas como as lentes de uma câmara:

“Castillos bateu no ar um de seus cigarros. Desde que eu o conhecia, há uns vinte anos, fumava três ou quatro ao mesmo tempo. Alguns equilibravam-se na beira da mesa, o contorno metálico cheio de manchas escuras, outros espalhavam-se pelos cinzeiros perdidos entre pilhas de laudas, fotos, clips, pastas, envelopes, copos plásticos, adoçante artificial, tubos de cola, rolos de dinheiro, latas de coca-cola dietética e um boi nordestino de cerâmica, que eu conhecia de outras redações. Por trás dele, o ventilador soprou as cinzas contra os meus olhos. A sala acarpetada devia estar numa temperatura próxima de um forno crematório.”(página 14)

O aspecto amargo-irônico transparece em descrições como esta:

Até encontrar um táxi, passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, duas gêmeas mongolóides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar. A cenografia eram sacos de lixo com cheiro doce, moscas esvoaçando, crianças em volta.” (página 21)

Mas há espaço para o poético, como no trecho em que o autor descreve o cair da tarde:

“Ergui a cabeça para as manchas cada vez mais douradas do crepúsculo, e foi nesse momento que a vi, incendiada de prata, um pouco acima da faixa violeta sobre os edifícios mais altos, a primeira estrela, devia ser Vênus. Primeira estrela que vejo, lembrei, realiza o meu desejo, pulávamos amarelinha riscada com pedaços de tijolo pelas calçadas do Passo da Guanxuma, eu sempre queimava o limite do céu na hora de dar o giro de costas, num salto, olhos fechados, sete vezes repetir, olhos abertos presos na estrela até fazer o último pedido, depois não olhar mais para cima. Parado entre quatro esquinas, a primeira estrela à minha esquerda, o arco-íris à direita, de frente para a cidade, de costas para o parque, respirei fundo o ar lavado pela chuva e pedi. Pedi sete vezes em voz alta, não havia ninguém por perto para olhar e talvez rir, um homem não muito jovem, todo molhado, falando sozinho, pedindo não sei o quê.” (página 36)

O autor utiliza duas formas de ordenar o tempo, durante a narrativa: 1) tempo cronológico, para a sequência dos fatos que se seguirão até o desvendamento do mistério de Dulce Veiga; 2) tempo não cronológico, para tratar de suas lembranças, que progridem ou recuam na sequência, dependendo do que os fatos lhe evocam.

Várias referências a músicas, como  Nada Além, maior sucesso de Dulce Veiga e regravada pela filha, Márcia Felásio, se fazem presentes. Em outras passagens, é a referência literária que prevalece:

“Mais que de ti”, lembrei, “mais que de ti, lembro dos teus sapatos amarelos.” Há mais de dez anos aquele verso – seria um verso? – rondava na minha cabeça. Só isso, nunca soubera o que vinha depois. Haveria mesmo algo depois? Ai como eu estava entediado. Espiei o jornal, um filme novo de David Cronemberg, eu adorava A mosca, chegara a escrever um artigo comparando-o com Kafka: a-mesma-gênese-maldita-de-todos-os-ousiders-que-originou-A-metamorfose, qualquer coisa assim, pretensa. Claro, eu me identificava um pouco, afinal tinha meus aninhos de terapia: moscas, baratas, insetos. Estava fazendo o possível para ficar deprimido, e não consegui parar.” (página 53)

Este foi um feliz primeiro contato com Caio Fernando Abreu. Romance maduro, não diria autobiográfico (para afirmar isso sem ser leviano precisaria conhecer a fundo a biografia do autor). Entretanto, acredito que todo aquele que escreve adiciona à matéria do trabalho algo de suas experiências, nem que sejam revisitadas, reinterpretadas. Excelente obra, digna de toda a recomendação. Antes de terminar, apenas mais um parágrafo.

O volume que tenho é parte de uma coleção chamada de Grandes Escritores da Atualidade; saiu em banca de revistas, publicada pela Planeta DeAgostini. Os volumes são muito bem-cuidados, e os autores selecionados, de grande qualidade. Ela saiu em 2003, dizem alguns, para fazer concorrência à outra coleção da Abril, de Clássicos. Não obstante a qualidade visível e o cuidado na seleção, a dose não foi repetida. Perde-se assim uma oportunidade ótima de se divulgar autores pouco conhecidos do grande público.

ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga?. Coleção Grandes Escritores da Atualidade. Editora Planeta DeAgostini. São Paulo, SP: 2003.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Escolha da Leitura

por Cleuber Marques da Silva

“Como você escolhe seus livros?” Essa é uma pergunta que me fazem com alguma frequência, ao saberem da minha paixão pela literatura. Não é propriamente um método, mas apenas um costume, uma rotina. Gosto muito de visitar livrarias de shoppings; aliás, enquanto minha esposa e minhas filhas vão olhar suas compras, fico quase sempre dentro de uma livraria, sabendo que disporei de bastante tempo para minhas consultas.

A capa é importante. Digamos, é o primeiro item da “atração física” pela obra. Leio a quarta capa, que contém já alguma informação sobre o produto. A orelha do livro, se for bem feita, será também imprescindível: ali estão mais dados. Um passeio pelo índice tem dado bons resultados; se ele for feito com competência, me dará uma planta baixa do que tenho em mãos, principalmente se for uma obra técnica, acadêmica. É o caso, também, de consultar a bibliografia em que se apóia; essa pesquisa é rápida e me adiantará a linha seguida pelo autor ou, pelo menos, se é uma pesquisa séria.

Os prefácios, as introduções, apesar de serem quase sempre relegadas ao descaso, contêm muitas vezes, apreciações, podem revelar algo sobre o autor, sobre a obra; fornecem, às vezes, comentários críticos, alguma antecipação (sem serem spoilers), depoimento do autor.

Apesar de todo esse cuidado, em muitos casos vai funcionar mesmo algo completamente irracional: o feeling, o famoso e impreciso feeling. Afinal, tem-se de apostar em escritores não tão conhecidos. Como controlo bastante as compras basicamente por impulso e – cada vez mais compro pela internet – leio resenhas feitas em alguns blogues, vejo alguma crítica. Fique claro, entretanto, todo esse aparato me orienta sobre o que comprar, mas não decide por mim. Essas providências não funcionam bem com aquele autor novo, ainda pouco ou nada resenhado.

No caso de autores de quem tenha lido alguma coisa boa, o nome tem seu peso. Não costumo ser tão detalhista com o Cristovão Tezza, com o Chico Buarque. São bons escritores e, apesar de estar plenamente consciente de mesmo os bons escritores não conseguirem produzir sempre excelentes textos, produzem trabalhos honestos (não tentam enganar seus leitores). Aqui, o critério da credibilidade e da referência bem postada.Resultado de imagem para leitores

Como último ato, folheio o livro, leio trechos diversos. Aqui funcionará a velha e boa intuição. Por aí o leitor vê que, mesmo comprando muito pelas livrarias virtuais, não deixo de ir a uma loja física, para ter um – digamos – contato mais íntimo com a obra em questão.

Sendo tão virginiano assim – leia-se perfeccionista – será que nunca me enganei? Claro que sim, entendo que isso faz parte da vida de qualquer leitor. Ao adquirir algo ruim ou desagradável, não me forço mais: despacho-o na primeira oportunidade. Se uma leitura não me pega nas primeiras vinte páginas, concedo um descanso ao livro; se, na próxima vez, também não conseguir desenvolver a leitura além das tais páginas, é hora de passá-lo adiante. Pode não ser ruim, apenas não me agradar. Não tenho obrigação alguma de gostar do que leio.

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Quando fazia minhas leituras durante o curso de letras, li muita coisa chata (nem todo texto, acadêmico ou não, de autor famoso ou não, é bem escrito) por necessidade – haveria prova – ou por disciplina. Agora, não. Alguns livros ainda leio por disciplina, sobretudo aqueles reconhecidos como uma formação importante, mas tenho lido muito mais por prazer…

quarta-feira, 25 de março de 2015

Resenha nº 49 - Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa

Há muito tempo desejava incrementar minhas leituras com autores africanos de expressão portuguesa. São bons autores que deverão visitar as postagens desse blog com alguma regularidade. Desta forma, teremos o José Eduardo Agualusa (angolano), António Emílio Leite Couto, o Mia Couto (moçambicano), Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela (angolano), Ndalu de Almeida, o Ondjaki (angolano). Há outros mais e importantes autores, mas à medida que for tendo acesso a eles, terei prazer em resenhar alguma das obras.

Do pouco que já li, sem dúvida me afinizo mais com a escritura de Mia Couto. É ler para ver…

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade de Huambo, Angola, em 1960. Tem uma ligação com o Brasil, pois seu avô era carioca. Seus dois filhos vivem em Luanda. É romancista, poeta, escritor de peças teatrais e jornalista. É um dos nomes mais influentes da literatura contemporânea internacional. Autor de mais de 20 livros, já foi traduzido para vinte idiomas.

Esse Teoria Geral do Esquecimento tem como pano de fundo a guerra pela independência de Angola. Ludovica – mais conhecida pelo apelido de Ludo – mora sozinha num apartamento luxuoso em Angola – o chamado Prédio dos Invejados. Como companhia, apenas o cachorro Fantasma, que foi assim batizado por ser inteiramente branco:

“Uma tarde, o engenheiro apareceu em casa segurando  cuidadosamente uma caixa de papelão. Entregou-a à cunhada:

É para si, Ludovica. Para lhe fazer companhia. A senhora passa demasiado tempo sozinha.

Ludo abriu a caixa. Lá dentro, olhando-a assustado, encontrou um cachorrinho branco, recém-nascido.

Macho. Pastor-alemão, esclareceu Orlando: Crescem depressa. Esse é albino, um tanto raro. Não deve apanhar muito sol. Como vai chamá-lo?

Ludo não hesitou:

Fantasma!

Fantasma?

Sim, parece um fantasma assim, todo branquinho.

Orlando encolheu os ombros ossudos:

Muito bem. Será Fantasma.”(páginas12/13)

Estoura a guerra pela independência de Angola. A família de Ludo vai embora, apenas ela ficará, agora acompanhada do cachorro Fantasma. E o pior, para se manter defendida da brutalidade daquela guerra, Ludo ergue uma parede, isolando-se do mundo. Tem víveres suficientes para um longo tempo.

Como sintetiza o título, esse é um romance sobre o esquecimento. Ludo é entregue à própria sorte, esquecida dos parentes, esquecida pela própria guerra, isolada por vontade própria do mundo ao redor:

“Ludo contemplava as nuvens e via alforrecas.

Ganhara o hábito de falar sozinha, repetindo as mesmas palavras horas a fio: Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Vocábulos bons, que desfaziam como chocolate no céu da boca e lhe traziam à memória imagens felizes. Acreditava que ao dizê-las, ao evocá-las, regressassem aves aos céus de Luanda. Há anos não via pombos, gaivotas, nem sequer algum pequeno passarinho despardalado. A noite trazia morcegos. O voo dos morcegos, porém, nada tem a ver com o das aves. Os morcegos, como as alforrecas, são seres sem substância. Vê-se um morcego a riscar a sombra e não se pensa nele como algo feito de carne, de sangue, de ossos concretos, de febre de sentimentos. Formas esquivas, rápidos fantasmas entre os escombros, estão ali, não estão mais. Ludo odiava morcegos. Os cães eram mais raros do que os pombos, e os gatos mais raros do que os cães. Os gatos foram os primeiros a desaparecer. Os cães resistiram nas ruas da cidade alguns anos. Matilhas de cães de raça. Galgos esgalgados, pesados mastins asmáticos, alegres dálmatas, nervosos perdiqueiros, e depois, durante mais dois ou três anos, a improvável e deplorável mistura de tantos, e tão nobres pedigrees.” (página 62)

Desse trecho transcrito podemos tirar algumas observações, obtidas da poética de Agualusa.

A primeira, é a de ser Agualusa um escritor de excelentes recursos literários. A repetição intencional e enfadonha de palavras revela toda a solidão de Ludo, mirando o céu de Luanda.

A segunda, é o ótimo recurso literário, uma espécie de “refração” da realidade: ao invés de colocar em foco a luta dos homens – que, pouco a pouco vai minando classes sociais, restando apenas combatentes embrutecidos e sem rótulos sociais – desloca-o para os cães, a se tornarem igualmente embrutecidos, fragilizados em sua luta medonha e completamente misturados, sem pedigrees. Desta forma, as matilhas tornam-se metáforas dos homens.

A terceira, destaque-se a utilização de um ritmo duro, dado pela enumeração de palavras que se repetem, todas vinculadas ao anseio de liberdade. Depois, no ponto em que entram as enumerações das várias raças de cães, os adjetivos que acompanham os substantivos, tornando o ritmo mais melódico, mais ameno. Visível opção de simpatia do narrador pelos combantes.

Durante suas 171 páginas de texto, vemos a transformação do que era uma luta pela independência de Luanda, então colônia de Portugal, em uma verdadeira guerra civil. Apesar de um pano de fundo tão duro, há muita poesia na escrita de Agualusa; ele instaura um narrador que, em momento algum, perde de vista os valores intrínsecos do homem. Há espaço para uma história de amor entre dois seres distantes, cujo elo possível é um pombo-correio.

O que pensa, o que sente a Ludo emparedada em seu próprio apartamento nos é dado conhecer por meio de um diário escrito por ela. O diário de uma pessoa de quem o mundo se esqueceu  e de quem, a seu turno, fez tudo para esquecer-se do mundo também. E o interessante disso tudo, Ludo acaba sendo salva por aquilo que abomina, que lhe causa dor e isolamento – a luta pela independência de Luanda.

Excelente livro. Li-o duas vezes, está cheio de anotações, as quais me servem, depois, como um percurso mnemônico. Apenas um reparo, não propriamente uma crítica ao livro: Teoria Geral do Esquecimento não me soa como um título convidativo à leitura da obra. Ao leitor comum (livros têm de vender, afinal) tal nome não chamará tanto a atenção de leitores menos experientes; parece mais próprio a um trabalho acadêmico. Sabemos haver certas imposições das editoras. Ou, então, essa foi apenas uma opção do próprio autor, no sentido de marcar a frieza da guerra, mesmo uma guerra pela independência de um país. Os combatentes tornam-se feras, esquecem-se de suas íntimas humanidades.

AGUALUSA, José Eduardo. Teoria Geral do Esquecimento. Foz Editora. Rio de Janeiro, RJ: 2012.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Resenha nº 48 - Renascimento, de Sérgio Pereira Couto

Resultado de imagem para livro Renascença A Lenda do Judeu ErranteO livro Renascimento, subtítulo A Lenda do Judeu Errante mistura elementos das narrativas de ação, de mistério e antigas lendas, teoria de conspiração e até de magia, passando por doses de Espiritismo. A maioria dos ingredientes o faz lembrar-se de outros livros, caro leitor?

A associação imediata que fazemos é com O Código da Vinci, de Dan Brown, Best-seller que se farta das mesmas fontes, exceção feita ao Espiritismo. O “Best-seller erudito” é uma vertente criada por Umberto Eco, principalmente com O Nome da Rosa. Em O Código, o personagem Robert Langdon é uma espécie de Indiana Jones; aqui, conhecemos Roger Briggs, um judeu imigrado para o Brasil, dono de uma empresa virtual. Ele tem um relacionamento com uma inglesa, Elizabeth Klinger, também imigrada para o nosso país, trazendo, de quebra, sua irmã Emile Klinger. A personagem Emile é a quem será atribuída a “função deslindadora da trama”.

O que terão esses personagens em comum, além de serem todos imigrantes? Ah, sim, eles todos sofreram perdas em atentados terroristas. Roger perdeu a mãe e o pai no atentado de 11 de setembro de 2001, nos EUA; as irmãs Klinger igualmente perderam seus pais no atentado terrorista de 7 de julho de 2005, em Londres. Roger e Liz se conheceram em uma exposição na Faculdade Armando Álvares Penteado. O tema da exposição? Egito antigo.

O começo da trama rocambolesca se dá com a notícia de que um investidor misterioso, Dr. Varshae, deseja – aparentemente de modo gratuito – investir na empresa virtual de Roger. O Dr. Varshae aparenta ser um homem velho; é magro, anda claudicantemente apoiado numa bengala em cuja parte de cima está engastada a figura de um chacal. Briggs fica sabendo, então, que o investidor lhe exige uma viagem à Roma e à Florença e lhe diz para levar a noiva Liz.

A partir daí, encontros e desencontros, mistério em mistério, desdobramentos espirituais em desdobramentos espirituais (ou estados alterados de consciência) envolvem outros personagens já mencionados a outros: o frei Avrill e seu mestre, frei Cello, e o Monsenhor Oliveira; um consultor para assuntos espíritas (?) Luís, codinome “Zeus”. Quem mantém contato com tal consultor espírita é Emile, convertida ao Espiritismo há pouco. O ponto alto, de maior suspense, acontece na cidade de Florença, abrangendo um insuspeitado caso de reencarnação tripla, em que se traz ao século XXI ninguém menos que o famoso Savonarola, Lourenço de Médici e Beatrice D’Este, a partir da qual tudo “se explica”.

Permeando toda essa mistura, está a lenda medieval do judeu errante. Para melhor orientação dos leitores desse blog, reproduzamos da orelha do livro o texto que, por sua vez, é reproduzido da Wikipédia, sobre tal lenda:

“O Judeu Errante é um personagem mítico, que faz parte dos mais remotos ciclos de tradições cristãs. Tratar-se-ia de um contemporâneo de Jesus Cristo, o judeu chamado de Ahsverus ou Ahsuerus, habitante de Jerusalém; ali, trabalhava, num cortume, ou oficina de sapateiro, que ficava numa das ruas por onde os condenados à morte por crucificação passavam carregando suas cruzes.

Na sexta-Feira da Paixão, Jesus Cristo, passando por aquele mesmo caminho carregando sua cruz, foi importunado com ironias, ou agredido verbal ou fisicamente, pelo coureiro Ahsverus. Jesus, então, o teria amaldiçoado, condenando-o a vagar pelo mundo, sem nunca morrer, até a sua volta, no fim dos tempos.”

Não resta dúvida de que a trama é imaginosa e propensa a roubar a atenção do leitor que goste deste tipo de livro, apesar de alguns clichês. Além disso, o texto é bem feito, fluente, escrito com habilidade em dosar as informações, até desaguar no clímax narrativo.

Não é um livro espírita, entretanto, nem o autor quis escrever algo dentro dos parâmetros doutrinários do Espiritismo, apesar de abundarem citações de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Aliás, se a pretensão fosse realizar uma obra caracteristicamente kardecista, ela não se sustentaria, por conter absurdos os quais entram em choque frontal com a filosofia espírita.

Por tudo o que eu disse, verificará o inteligente leitor desse blog que não gostei desse livro. Igualmente, não gostei de O Código da Vinci, quando o li. Não me apetecem essas narrativas rocambolescas, ainda que contenham boas pitadas de referências eruditas. São bons os conhecimentos transmitidos sobre a Renascença italiana; houve claramente uma pesquisa sobre o assunto, que é bastante complexo, tendo em vista o jogo de interesses políticos entre a Igreja Medieval e os reis europeus.

Fica a indicação, para quem gostar desse tipo de literatura.

COUTO, Sérgio Pereira. Renascença: A Lenda do Judeu Errante. Giz Editorial. São Paulo, SP: 2007.

quinta-feira, 5 de março de 2015

To boldly go where no man has gone before

Os trekkers estamos de luto mais uma vez. No dia 27 de fevereiro de 2015, morreu o ator Leonard Nimoy, 83 anos, por complicações pulmonares ocasionadas pelo fumo durante muito tempo. Para quem ainda não se lembrou de quem se trata, Nimoy encarnava o personagem Resultado de imagem para sr. spockSr. Spock, um vulcano meio humano por parte de mãe. Era caracterizado com as sobrancelhas levantadas e as orelhas pontudas, o que lhe valeu, no início da série clássica Star Trek (Jornada nas Estrelas), um combate acirrado de várias confissões religiosas, pois, segundo elas, ele era a figura do diabo. A bem da verdade, faltavam o rabo, os chifres e os cascos fendidos.

Brincadeiras à parte, o trio central da série televisiva (transposta, mais tarde para as telonas com sucesso), formado pelo próprio Leonard Nimoy (oficial de ciências da Enteprise, Sr. Spock), William Shatner (capitão James Tiberius Kirk) e Jackson DeForest Kelley, falecido em 11/06/1999 (o médico Dr. McCoy) formavam personagens – como diria o nosso amigo orelhudo – fascinantes.

James Doohan, falecido em 20/07/2005 (o oficial de engenharia da nave estelar Enterprise), George Takei ( o Sr. Sulu, oficial do leme), Nichelle Nichols (Tenente Uhura), Walter Koenig (Pavel Andreyevich Tchekov) também eram importantes.

Em alguns casos, o personagem vivido por um ator é tão forte que ocorre uma inevitável superposição dele em detrimento do artista. Veja-se o 007 e Sean Conery; veja-se Spock e Leonard Nimoy. Em 1975, ele resolveu escrever sua primeira biografia, cujo título, I Am Not Spock causou um frisson entre os trekkers, pois entenderam que Nimoy recusava a identificação com o seu papel.  Mal-entendido desfeito depois, na segunda obra, I Am Spock.

Leonard fez sua última aparição no segundo filme revitalizado por J. J. Abrams, Além da Escuridão. É uma participação no mínimo intrigante, pois a “versão nova” de Spock (Zachary Quinto – é fascinante a semelhança física!) se encontra com a “versão velha” dele mesmo, estrelada por Nimoy.Resultado de imagem para sr. spock

Jornada nas Estrelas fez história. E esta história só pôde ser escrita com sucesso, em grande parte, pelo carisma de Leonard. O Sr. Spock primava pela lógica, embora sua metade humana lhe desse algum trabalho. Como evidência dessa tese, num dos episódios, Kirk lhe diz que “a cada dia que passa, você fica mais humano” e a resposta é pronta e típica de um vulcano: “Não vejo motivo para ser insultado.” Outras dele:

· Todos temos necessidades, mas como a maioria de nós, geralmente não sabemos do quê.

· A lógica é apenas o princípio da sabedoria, não o seu fim.

· A mudança é o processo essencial de toda existência.

· É curioso como vocês humanos conseguem obter o que vocês não querem.

· Nunca entendi a capacidade feminina de evitar uma resposta direta a qualquer questão.

E uma das minhas prediletas do “filósofo” Spock:

· As necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos – ou de um.

Tornou-se famosa a saudação vulcana, feita com a mão espalmada e os dedos anelar e indicador afastados, acompanhados de um “Vida Longa e Próspera”. A introdução dos episódios tornou famosa também a expressão to boldly go where no man has gone before (audaciosamente indo onde nenhum homem jamais Resultado de imagem para sr. spockesteve).

O programa espacial da Nasa batizou seus ônibus espaciais reaproveitáveis de Enterprise em homenagem à série, numa cerimônia com a presença da tripulação do antigo seriado.

Obrigado, Leonard Nimoy, mais conhecido por Sr. Spock. Que Deus o tenha, muito embora você possa não achar esse meu desejo muito lógico...

domingo, 1 de março de 2015

Escrever e coçar: é só começar (será?)

por Cleuber Marques da Silva

Para quem gosta dos livros, eles acabam se tornando um objeto de desejo. E esta afimação, um tanto óbvia, toca também a questão da autoria. Lemos tanto, estamos tão envolvidos com o mundo dos textos e dos autores, que em algum momento de nossa tajetória como leitores temos um pensamento – posto em execução ou deixado de lado: e se eu escrevesse também?

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Partindo de uma frase de efeito, atribuída a José Saramago, “Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não.”, muitos de nós tentamos fazê-lo e nos deparamos com dificuldades imensas. Não é fácil escrever algo bom o bastante para ser publicável; é uma tarefa inglória encontrar alguém que deseje realmente publicar a nossa preciosa obra; a distribuição, no caso de partirmos para a edição de autor, é extremamente complicada.

Nos Estados Unidos enxameiam os cursos de escrita criativa, normalmente vinculados a uma programação universitária de oficinas de creative writings; são frequentemente disponibilizados sob o nome de ateliers d’éscritures na França e talleres na Espanha e no restante da América Latina. No Brasil, são ainda um fenômeno incipiente, mas em expansão.

Resultado de imagem para escritorasNo intuito de facilitar um pouco para quem tenha curiosidade ou disciplina autodidata, resolvi elaborar uma lista (subjetiva e não exaustiva, claro) para ajudar quem se interesse pelo assunto. Existem livros excelentes sobre a matéria, outros nem tão bons assim – de qualquer forma, resistem às perguntas: escrever não seria um dom? é possível ensinar a alguém o ofício da escrita?

 

São essas mesmas perguntas que se coloca Francine Prose, ela mesma autora de um desses manuais. Aqui, peço licença para dar um depoimento de minha própria experiência, embora não tenha nada publicado. É possível melhorar muito um texto. Existem, sim, técnicas de escrita. Os textos não podem ser produzidos de qualquer modo, sem coerência/coesão, verossimilhança, sem uma estruturação que pode ou não ser um planejamento escrito – muitas vezes, encontramos algum depoimento de alguém que diz não planejar nada, “deixa a história se desenrolar por si” ou, então, “deixa os personagens ganharem vida e contarem sua própria história”. Isso é um tanto impressionista, na minha modesta opinião. Por mais que se creia num “destino literariamente determinista”, o autor terá de fazer escolhas sobre como conduzir seu enredo, que direção deverá dar a ele; por mais que pareçam reais os personagens criados, esses seres de papel não têm vida própria. Entretanto, inegavelmente, quem lê muito e – sobretudo quem lê com qualidade – guarda na memória conhecimentos, modelos, um personagem magnificamente criado aqui, um enredo genialmente concatenado ali, que depois serão aproveitados em sua própria escritura. Ninguém pode ser um locutor bíblico, somente relacionado com objetos Resultado de imagem para escritoresvirgens, ainda não nomeados, como enunciou Mikhail Bakhtin, estudioso russo. Nesse sentido, todos nós “aproveitamos” algo do que já lemos, tenhamos ou não consciência disso.

 

 

Eis a lista:

1. Entre Nós, de Philip Roth. Editora Companhia das Letras. (há versão digital na Saraiva)

2. A Arte De Escrever, de Arthur Schopenhauer. Editora L&PM. (livro de bolso)

3. Sobre O Ofício De Escritor, de Arthur Schopenhauer. Editora Martins Fontes.

4. Voz Do Autor, de Al Alvarez. Editora Civilização Brasileira.

5. Vida De Escritor, de Gay Talese. Editora Companhia das Letras. (há versão digital na Saraiva).

6. O Escritor E Sua Missão, de Thomas Mann. Editora Zahar. (há versão digital na Saraiva).

7. Escrita Criativa, de Renata di Nizo. Editora Summus. (há versão digital na Saraiva).

8. Perca O Medo De Escrever, de Inez Sautchuck. Editora Saraiva. (há versão digital na Saraiva).

9. Ler, Pensar E Escrever, de Gabriel Perissé. Editora Saraiva. (há versão digital na Saraiva).

10. A Arte Das Palavras, de Gabriel Perissé. Editora Saraiva. (há versão digital na Saraiva)

11. Como Escrever Um Romance, de Miguel de Unamuno. Editora É Realizações.

12. A Arte Do Romance, de Milan Kundera. Editora Companhia de Bolso.

13. A Arte Da Ficção, de David Lodge. L&PM Editores.

14. Oficina De Escritores, de Stephen Koch. Editora Martins Fontes.

15. Você Já Pensou Em Escrever Um Livro?, de Sonia Belloto. Editora Fábrica de Textos (selo da Summus).

16. A Oficina Do Escritor, de Nelson de Oliveira. Ateliê Editorial.

17. Vencendo O Desafio De Escrever Um Romance, de Ryoki Inoue. Summus Editorial.

18. Oficina De Textos, de Daniel Cassany. Editora Artmed.

19. Escrevendo Com A Alma, de Natalie Goldberg. Editora Martins Fontes.

20. O Zen E A Arte Da Escrita, de Ray Bradbury. Leya Brasil Editora.

21. Para Ler Como Um Escritor, de Francine Prose. Editora Zahar.

Essa outra pequena lista é de livros de Alberto Manguel, conhecido por seus livros que falam exatamente sobre livros:

1. Os Livros e Os Dias – Um ano de leituras prazerosas. Editora Companhia das Letras.

2. À Mesa com O Chapeleiro Maluco. Editora Companhia das Letras.

3. A Biblioteca à Noite. Editora Companhia das Letras.

4. Todos Os Homens São Mentirosos. Editora Companhia das Letras.

5. A Ilíada e A Odisséia de Homero (uma biografia). Editora Zahar.

6. No Bosque do Espelho. Editora Companhia das Letras. (há versão digital na Saraiva)

7. Stevenson Sob As Palmeiras. Editora Companhia das Letras.

8. Dicionário de Lugares Imaginários. Editora Companhia das Letras.

9. Uma História da Leitura. Editora Companhia das Letras.

Outra obra que pode ajudar bastante, principalmente na criação de lugares fictícios é História das Terras e Lugares Lendários, de Umberto Eco.

 

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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Anotações de Cleuber Marques, leitor

por Cleuber Marques da Silva

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Naqueles distantes anos 50, guiado pela minha irmã – que lia muito – iniciava meus caminhos como leitor. Não havia ainda o ensino infantil e normalmente as crianças eram alfabetizadas a partir do primeiro ano do “grupo escolar”. Cansada de ler para mim todas as noites, antes de dormir – ou mesmo, quem sabe – sensibilizada pela fome de leitura do futuro devorador de textos, minha irmã Doralice resolveu me alfabetizar por conta própria. A empreitada foi um sucesso, pois minha paixão pelos livros era tanta que garantia o êxito. Pouco a pouco, deixaria de ouvir os personagens Saci Pererê, o Marquês de Rabicó, a rebelde Emília, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia, Narizinho, o Visconde de Sabugosa falarem pela voz dela para ouvir seus diálogos pela minha própria voz e seguir eu mesmo as histórias criadas por Monteiro Lobato.

Quando chegueiResultado de imagem para As Mais Belas Histórias ao primeiro ano, lia com dificuldade, lentamente, mas lia. E à medida que me esforçava, lia cada vez melhor. Lembro-me perfeitamente, na época tínhamos os livros de antologia entre o material a ser usado na escola. As Mais Belas Histórias, organizado pela Lucia Monteiro Casasanta, nem bem chegava às minhas mãos e já era prontamente lido.

Não sei o nome da alma caridosa, mas me emprestaram uma belíssima coleção Os Mais Belos Contos de Fada – título seguido dos adjetivos pátrios relativos a vários países europeus.

Mais crescido, já adolescente quieto e introspectivo, preferia ler um bom livro a qualquer programa que me apresentassem. Com um livro nas mãos, esquecia até de almoçar, minha mãe quase tinha de vir me sacudir para eu retornar ao mundo habitado pelos não leitores.

Descobri na biblioteca da escola em que cursava o último ano do ensino fundamental, em Contagem, um exemplar do Humilhados e Ofendidos, do escritor russo Dostoiévski. Foi maravilhamento à primeira leitura! Não podia ainda apreender a complexidade da narrativa dostoievskiana, me faltava bagagem, vivência. Não me importei com essa dificuldade, entretanto. Fiz inscrição na Biblioteca do SESC, pois lá descobrira a coleção inteira do meu fascinante autor russo e dei sequência às minhas aventuras literárias, com o Crime e Castigo. Era uma coleção de capa dura, vermelha, com apliques dourados, trazendo a figura de um minarete russo na lombada; a editora era a José Olympio.

Sempre gostei de escrever também, embora o amor pela leitura ganhasse, com larga margem, das minhas atividades como autor. O que eu escrevia, como escrevia, não me agradava nem um pouco.

Conheci o Machado de Assis por meio de Dom Casmurro, num trabalho feito para o Grêmio Literário da escola. E me apaixonei também pelo Machado. Para mim, todo aquele apuro da frase bem-feita, da construção psicológica dos personagens eram absolutamente fascinantes. Já lera muita coisa do José de Alencar, da biblioteca domiciliar, em edição antiga, cheia de “elles”, “dous”, “loiro”, “ph”, etc. O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas me propunha coisas novas, diferentes.  

Enfim, eis-me aqui. Leitor maduro, nunca deixei de ler os nacionais e os estrangeiros. Não faço distinção entre os autores brasileiros e os de outras nacionalidades. Agora mesmo, estou interessado em Milan Kundera; está nos meus planos voltar a ler Graciliano Ramos, outro autor de quem gosto bastante. Estou com A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende para degustar. Há lugar para os mais novos, como o Cristovão Tezza, a Martha Medeiros, o Chico Buarque, a Fernanda Torres, a Leila Ferreira. E a Clarice Lispector? Da Clarice, a gente nunca se esquece…

Minhas preferências vêm mudando, ou melhor, se ampliando: atualmente, manejo biografias, livros de história (desde que agradáveis de ler – o prazer do bom texto é primordial), como os do Laurentino Gomes. Recentemente, comecei a fazer incursões pela literatura africana de expressão portuguesa, com o Mia Couto, o Ondjaki, o Pepetela, o Eduardo Agualusa. Não podem faltar os portugueses, José Saramago, António Lobo Antunes, Miguel Sousa Tavares, Inês Pedrosa, Valter Hugo Mãe… Com estes, presto uma homenagem ao meu pai, um português da província de Trás-os-montes. E tenho descoberto que existe um filão de bons autores de ficção científica nacionais.

Como não podemos parar no tempo, agora leio também num leitor de e-books. Eles têm a praticidade de podermos levar toda a nossa biblioteca num aparelhinho que cabe na palma da mão. E para entender todo esse processo de mudança no suporte da leitura, adquiri a obra de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, cujo título é Não contem com o fim do livro; naturalmente, uma… brochura.

De tal modo me afeiçoei à leitura que ela me é essencial, faz parte da minha personalidade. Algumas pessoas me perguntam por que leio tanto, ainda mais numa época em que quase já não há tempo para tal. Respondo-lhes: leio pela paixão, leio porque me é necessário, leio como um esforço inaudito para entender o mundo, para me entender melhor. A matéria que alimenta as obras são as histórias das pessoas – as acontecidas e as passíveis de acontecer. Quanto ao tempo, bem, meus caros leitores, tempo é uma questão de prioridade… Roubo tempo à televisão, aos videogueimes, e mais recentemente, aos Facebooks, aos Whatsapps.

Espere um pouco, leitor apressado desse blog, não vivo só de leituras. Gosto de fotografar, de ir ao cinema (acho os dvd players ou blue-ray players bons quebra-galhos, nada mais) e – sobretudo – como bom leitor, gosto de escutar as pessoas. Então se puder embalar tudo com o som de um violãozinho, melhor…