Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Resenha nº 25 - Divã, de Martha Medeiros

Martha Medeiros nos dá esse ótimo Divã, que, aliás, tornou-se filme e peça teatral de grande sucesso. A personagem principal, Mercedes, é protagonizada por Lilia Cabral, em ambos os cenários – teatral e cinematográfico. Um texto leve, “escrito ao sabor da pena”. É claro, essa ideia de um texto leve pressupõe, na verdade, muito trabalho. Já se disse que é uma tarefa estafante conseguir-se este efeito de simplicidade.

Mercedes é uma professora; dar aulas particulares lhe rende bem mais do que o exercício pleno de sua profissão. Nas horas vagas, gosta de pintar. Aos quarenta anos, resolve fazer análise e é exatamente sua exposição à análise de Lopes o que lemos.

Mercedes é uma mulher entre irônica e brincalhona.:

“De repente, eu virei a única mulher da família, com oito anos. Meu mundo passou a ser totalmente masculino, éramos eu, meu pai e meus dois irmãos, e mais tarde namorados, marido e três filhos homens. Eu praticamente não tive referências femininas, eu sempre fui minha própria referência. E, como já lhe disse, sou mezzo mulherzinha, mezzo cabra da peste, o que nunca me fez sentir entre iguais no salão de beleza.” (página 22)

Mercedes leva a vida de maneira divertida, mesmo quando a situação não é nem um pouco divertida:

“Lembro de ter sentido um misto de prazer e insegurança quando cruzei as portas da maturidade. Até hoje, quando meus filhos perguntam alguma coisa pra mim, vejo nas suas expressões que minha resposta será levada demasiadamente a sério, passará a ser adotada como verdade indiscutível, e isso me apavora, me faz sentir meio charlatona, minhas certezas não são assim tão sólidas.” (página 23)

É esse despojamento das declarações da protagonista que torna o texto muito gostoso de ler. Vale a pena transcrever um depoimento de Millôr Fernandes, até por ser de Millôr:

“Brincando, brincando, o que Martha mais faz é poesia de amor. Tem mais ainda – é absolutamente compreensível, sobretudo pra quem compreende.”

A personagem principal é um pouco daquilo que cada mulher traz dentro de si. Preparadas para viver o papel de mãe, esposa, companheira, moça de boa família, católica (praticante ou só de fachada), não viveu o incerto, a insegurança. Na verdade, ela se identifica não apenas com as mulheres, embora seu discurso seja de muita sensibilidade feminina; ela é cada um de nós, seres humanos, criados para assumir certezas e seguranças neste mundo tão caótico, nessa era de incertezas tantas.

O livro vale a pena. Algumas boas horas de um texto oscilante entre o irônico e o poético, vai descarnando as situações controladas e propondo não ver a vida como essa coisa pesada, feita só de responsabilidades, de caminhos e andamentos planejados.

Mercedes, no exercício de se encontrar pela análise, descobre-se um tanto distante de si, mas até esta situação ela encara com bom humor:

“Se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida correta.”

Martha Medeiros. Divã. Editora Objetiva, São Paulo, SP.2002. 154 páginas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Resenha nº 24 - O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

Título: O Arroz de Palma

Autor: Francisco Azevedo

Editora: Record

Gênero: Romance

País de Origem: Brasil

A leitura do livro O Arroz de Palma é extremamente prazerosa. O texto é fluente, leve e poético. Aos 88 anos, o protagonista Antonio está preparando o almoço a ser servido à família.  E, enquanto ele o faz, vai relembrando as histórias que lhe contara a Tia Palma, irmã de seu pai. Tudo começara exatamente em 1908, no casamento de seus pais, em Viana do Castelo, Portugal. Sob uma chuva de arroz abundante, uniram-se José Custódio e Maria Romana. A tia Palma teve a brilhante ideia de recolher todo o arroz, grão por grão, e dá-lo de presente aos dois. Maria Romana sensibilizou-se com o gesto, mas não José Custódio; aliás, o relacionamento entre a tia Palma e ele nunca houvera sido bom. O ato originou, então, a primeira briga do casal recém-formado: Maria defendia tia Palma, José irritava-se contra o estranho presente, arroz sujo, colhido do chão.

Esse cereal, entretanto, vai permear a história toda, tornando-se algo mítico, passando de geração em geração, com uma característica: não estraga, não caruncha. E como que vai cimentando as relações entre casais, símbolo da agregação pelo amor. Tia palma escrevera no cartão, quando entregara seu presente:

“Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra – é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.”

O diálogo que se segue é hilariante, bem característico da relação entre José, sua Tia, e sua esposa.

“Os dois se arrumam como podem. Papai vai abrir a porta.

- Palma?!

Tia Palma entra com o pesado saco de estopa. Pousa-o alividada, sobre a mesa.

- Mas o que é isto?!

Tia Palma não lhe dá resposta, vai direto até mamãe.

As duas se abraçam e se beijam com afeto.

- Maria Romana, estavas lindíssima! Ajudou-me a suportar a falação agoureira daquele corvo de batina!

Papai se irrita com o comentário irreverente.

- Dom Plácido é nosso tio, merece mais respeito!

- Na tristeza e na doença, na pobreza e na velhice, até que a morte os separe! Santo Deus, isto não é uma bênção, é uma praga!” (Página 19)

Tia Palma é uma personagem fascinante:

“Tia Palma era o meu teatro – que repertório, que desempenho! Mas o espetáculo era interrompido no melhor de cada história. Eu cruzava os braços, emburrava. Era hora de ir para cama. Justo agora!

- Antonio, não faz gênio! Olha que amanhã não te conto histórias! Vamos dormir, já é tarde. Eu te dou colo, anda, vem.” (páginas 16/17)

E mais abaixo:

“O colo de Tia palma era uma espécie de útero sem capota, que me levava assim, conversível, por um mundo fantástico, mundo que me fascinava ainda mais porque eu conhecia os protagonistas. Morava com eles.”

Parece que o arroz de Palma funciona. Depois de um tempo sem gerar filhos, a família começa a crescer.

“O arroz de Tia Palma fez efeito, Depois daquela bendita canja papai não parou mais de fazer filhos. Primeiro fui eu, Antonio. E, logo depois, a Leonor. Eram dias e noites literalmente em branco – quilômetros de fraldas tremulando nos varais. Pareciam bandeiras pedindo paz. Mas papai e mamãe não se davam trégua e, assim, chegaram o Nicolau e o Joaquim. Choros diversificados, de fome, de sede, de cólicas ou de pura manha – estes já facilmente reconhecidos e ignorados.”

As metáforas e comparações, relacionando a família à arte culinária se fazem presentes, desde o começo da narrativa, como por exemplo, nas páginas 11/12:

“Preciso me concentrar. É essencial. Por quê? Ora, que pergunta! Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema – principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida – azeitona verde no palito – sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida.”

As mudanças sociais, econômicas e tecnológicas formam o pano de fundo dessa narrativa. No início, os personagens se utilizam de cavalos e de carroças como meio de transporte; mais além, já aparecem os automóveis. O Brasil vai deixando de ser um país eminentemente rural e entra na era tecnológica. O apelo da vida nas grandes cidades começa a tirar, cada vez mais, o homem do campo: José Custódio e Maria Romana veem seus filhos irem para a cidade grande, fazendo suas escolhas, mudando a tradição e os rituais.

Pode-se dizer, bem apropriadamente, que esse é um livro gostoso de se ler. A família do protagonista Antonio, cozinheiro de mão cheia, é como a família de todo mundo. Tem seus problemas, suas desavenças, suas diferenças, mas, ao final, tudo se ajeita e aprendemos a amar-nos apesar de todas as características disjuntivas apontadas acima.

Excelente para se ler uma, duas, três, muitas vezes; deixar fluir a leitura e fruir a lírica do autor.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Resenha nº 23 - Belle, de Lesley Pearse

Belle é uma menina inglesa e vive em Seven Dials. Conhece o garoto Jimmy na rua. Ele imediatamente se encanta com ela e o sentimento é mútuo. Ela tem uma particularidade: vive no andar de baixo do bordel da mãe, Annie. Quem olha por ela, no entanto, é Mowenna Davis, mais conhecida por Mog. Belle é mantida sob constante vigilância. Inocentemente, ela pensa que no andar de cima são dadas festas para as quais são convidados cavalheiros. No exato dia em que conhece Jimmy, Belle vai ao andar de cima e entra no quarto de uma das prostitutas, Millie. Quando Millie entra no quarto, seguida de um cliente, Belle é obrigada a se esconder sob a cama dela e presencia, pela primeira vez, uma relação sexual. Mas o pior está por vir: ela se transforma na única testemunha do assassinato da doce Millie. Kent, o assassino, vê a adolescente quando ela se evade do quarto.

Com a ajuda de um capanga, Sly, Kent sequestra Belle e a manda para uma casa de prostituição na França. Tudo o que Mog se esforçara para evitar – o envolvimento de Belle com o submundo da prostituição – cai por terra. Desesperada, Mog se lembra de um cliente de Millie, uma espécie de investigador e vai até ele. Seu nome é Noah Bayliss e ele trabalha para uma companhia de seguros e atua também como jornalista iniciante. Ele aceita investigar o que houve apenas porque ele gostava muito de Millie; suas investigações iniciais o levam a Jimmy, sobrinho do mal-humorado Garth Franklin, dono de um dos melhores bares do Seven Dials, o Ram’s Head, na Monmouth Street.

Jimmy revela-se um adolescente honesto, fonte de inesgotável crença de que Belle está viva e que conseguirá reencontrá-la. Ele e Noah tornam-se muito ligados. As investigações dos dois progride pouco e uma dia, o bordel de Annie pega fogo. As garotas são resgatadas, mas Annie e Mog têm de morar durante alguns dias com Garth e Jimmy.

A partir daí, a vida de Belle se modifica drasticamente; o enredo é rico em reviravoltas. O Woman’s Weekley classificou o livro de “Um épico dinâmico e emocionante que você não esquecerá tão cedo.” Lesley Pearse é uma das maiores romancistas do Reino Unido; ela realmente sabe contar histórias. Há cenas do submundo de Londres que me fizeram lembrar um pouco de Charles Dickens: crianças pobres, mas honestas, prostitutas portadoras de bons sentimentos. Ao longo de 552 páginas o leitor encontrará uma galeria de personagens marcantes, com Philippe Le Brun, Noah, Jimmy, Mog, Lisette, Etienne, Gabrielle; vilões como Kent e o concierge do hotel Ritz, monsieur Pascal; preconceituosos como a senhorita Frank e aproveitadores inescrupulosos como Madame Albertine.

Ficamos sabendo por que a mãe de Belle, Annie, ama a filha, mas não consegue expressar esse sentimento. Perpassa o livro a filosofia cristã, de que as pessoas se depuram pelo sofrimento.

Belle é um livro direcionado – suponho – primeiramente ao público feminino; afinal, fala dos dramas tipicamente femininos. Entretanto, para quem se interessa por uma história bem contada e personagens difíceis de se esquecer, como eu, encontrarão no livro boas horas do prazer de ler. Eficiente pesquisa dá apoio e contextualização à obra, cuja história se passa por volta de 1900, em Londres, Paris e New Orleans, EUA. Naquela época, o tráfico de meninas para a prostituição era muito comum e somente na França, atingia quatro entre cinco mulheres.

Lesley Pearse. Belle. Editora Novo Conceito. São Paulo, Ribeirão Preto: 2012. 559 páginas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Resenha nº 22 - Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick

A Ficção Científica é ainda tratada, por muitos críticos, como uma espécie de “lixo literário”, ou subgênero, no sentido pejorativo. Esta ideia se construiu, no passado, por uma quantidade muito grande de péssimas histórias em publicações baratas. Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador de Tarzan, incomodado com a baixa qualidade do que era feito na época, criou suas histórias envolvendo o planeta Marte. Idealizou o heroi John Carter, um americano abduzido pelos marcianos. Tais textos deram uma reviravolta de qualidade à chamada Ficção Científica.

De lá para cá, o gênero, aos poucos, foi se firmando. Em grande parte, devido ao trabalho de nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Anthony Burguess, Frank Herbert, Philip K. Dick e outros.

Isaac Asimov, russo naturalizado americano, nos deu a trilogia Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação e as histórias sobre robôs, como Os robôs do amanhecer. Ficou famoso pela grande ideia de criar um código que gerenciasse as atitudes destas máquinas. Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhes sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Estes autores deram sua contribuição imaginativa e qualitativa. Entretanto, nenhum obteve o mesmo resultado, no campo das adaptações para o cinema, como Philip K. Dick. Realidades Adaptadas é um livro de contos que deu origem a roteiros cinematográficos de qualidade. São sete, ao todo: Lembramos para você a preço de atacado (O Vingador do Futuro), Segunda Variedade (Screamers – Assassinos Cibernéticos), Impostor (Impostor), O relatório minoritário (Minority Report – A Nova Lei), O pagamento (O Pagamento), O homem dourado (O Vidente), Equipe de ajuste (Os Agentes do Destino).

As histórias de Philip K. Dick são construídas em torno de um olhar desconfiado sobre o mote a realidade não é exatamente aquilo que nos parece ser. Os contos de Realidades Adaptadas são perpassados por este olhar inquieto e inquisitivo; seus personagens humanos são surpreendidos pela realidade mutante. O futuro imediato nos é mostrado como uma miragem num deserto, adquirindo outros aspectos ou transformando-se mesmo em algo não observado antes à medida que caminhávamos para mais perto dele.

Histórias como Guerra nas Estrelas, em que personagens costumam ser princesas e príncipes, duques, barões, condes, são para mim, adaptações de contos de fadas a um tempo de naves espaciais e convivências (normalmente conflituosas) com seres alienígenas. Esta linha gerou boas narrativas e bons filmes, em que doses de magia são generosamente distribuídas.

Outra linha é proposta por séries como Jornada nas Estrelas, nas quais os acontecimentos se tornam possíveis se tivernos a tecnologia adequada. Os teletransportes da Jornada já foram motivo de zombaria nos meios científicos; atualmente, já se conseguiu o feito com algo minúsculo, como um fóton (o menor componente da luz). Parece ser apenas uma questão de desenvolver a tecnologia.

K. Dick filia-se a esta segunda linha, a da Ficção Científica hard core. Realidades Adaptadas é um livro de excelentes contos, com enredos altamente trabalhados, personagens convincentes. É para ser lido com cuidado: não confie naquilo que lhe parece confiável!

Ótimo livro. Aconselho… sem desconfianças!

Philip K. Dick. Realidades Adaptadas. Editora Aleph. São Paulo, SP: 2012.302 páginas

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Morre o escritor Autran Dourado

No dia 30/09/2012 morreu o escritor mineiro Waldomiro de Freitas Autran Dourado, mais conhecido por somente Autran Dourado, aos 86 anos de idade, de hemorragia estomacal. Ele já havia sido internado por quatro meses antes, para tratar de problemas respiratórios.

Autor de uma obra coerentemente construída, não foi exatamente um sucesso de público; entretanto, alguns de seus livros foram mais conhecidos, como Uma vida em segredo, Ópera dos mortos, O Risco do bordado, Os Sinos da Agonia. No total, foram 20 obras.

Ainda, era um escritor preocupado com a divulgação do seu fazer literário, o que o motivou a publicar Uma poética de romance (1973), Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976), Um artista aprendiz (2000) e Breve Manual de Estilo e Romance (2003).

O primeiro livro de sua autoria, lido por mim, foi exatamente o Sinos da Agonia. É de 1967 e o meu contato com o texto se deu por causa do vestibular. O que deveria ser apenas uma questão de atualização tornou-se um prazer. O livro é muito bom e cabe releitura; o tempo e o volume de leituras posteriores me fez perder detalhes. Li, também, o Uma vida em segredo, texto enxuto e aparentemente simples, contando-nos a história da personagem Biela .

Outros trabalhos: A Barca dos Homens, Solidão, Solitude, Novelas de Aprendizado, Novelário de Donga Novais, Um cavalheiro de Antigamente, A Serviço del-Rei, Confissões de Narciso, Ópera dos Fantoches, Monte da Alegria (seu último romance publicado), Armas & Corações, Lucas Procópio, Violetas e Caracóis, As Imaginações Pecaminosas. Em 2006, publicou um volume de histórias curtas, O Senhor das Horas.

Dourado foi secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek, experiência esta relatada no livro Gaiola Aberta, publicado em 2000. Nosso escritor ganhou vários prêmios, como o Goethe 1981), Jabuti (1982), Camões (2000), e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (2008).

Seus personagens são angustiados, o que fez a crítica identificar Lúcio Cardoso (outro fantástico e esquecido escritor) como uma de suas influências; outros, entretanto, apontam Graciliano Ramos, com seus personagens atormentados, como influência decisiva.

É na cidade fictícia de Duas Pontes que grande parte de suas criaturas se move e, em muitos livros, é sempre o mesmo narrador, João da Fonseca Ribeiro. Pode-se dizer que Autran Dourado era um escritor com um projeto literário definido, do qual nunca se afastou. Para ele, seus romances “tinham que ser cruéis, bater no centro da alma humana.”

Sua obra alcançou reconhecimento no exterior, sendo traduzida para vários idiomas. Essa universalidade, repetindo o caminho de vários escritores, vem do tratamento dado aos dramas localizados em Minas Gerais, mas concedendo amplitude ao que, na verdade, é o drama de todos nós, é o drama do viver. Dostoiévski fez isso ao retratar o homem médio russo, Guimarães Rosa trilhou por esta vereda ao tornar universal o drama do sertanejo. Lições não esquecidas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Resenha nº 21 - Acidente em Matacavallos, de Mateus Kacowicz

Uma lavadeira portuguesa, Maria Couceiro, morre atropelada, na Rua Matacavallos, por um bonde da Rio de Janeiro Electric Street Railway Company, companhia inglesa que operava no Rio. Tal fato era classificado, normalmente, na seção dos jornais chamada faits divers (fatos diversos, em francês). Assim era denominada a parte dos jornais a receber acontecimentos mais corriqueiros.

Mas o jornal mambembe de Diógenes Braga, a Folha da Capital, não pensava da mesma maneira e deu um lugar de destaque à notícia, iniciando uma verdadeira campanha contra a Electric. Mr. Gross, gerente da empresa no Brasil, manobrou para comprar o silêncio do jornal: Mr. Gross, em pessoa, avalizou o empréstimo bancário junto ao South American & Caribbean Bank (banco do mesmo grupo da Railway Company) para o financiamento de impressoras modernas e até de uma lynotipe para a Folha da Capital.

Yuli Woloshin, um judeu ucraniano emigrou para o Brasil, sendo recebido no Rio por seu irmão Mark. Em sua terra, tinha trabalhado como tipógrafo; em terras brasileiras, entretanto, iria ajudar seu irmão como “clienteltchik”, vendedor ambulante. Yuli ganhou o apelido de Juca e o que mais o caracterizava era uma disposição ímpar para aprender qualquer coisa. Aprendeu o português e seu sistema de escrita.

O Rio de Janeiro, então Distrito Federal, capital do país, ostentava maneirismos à francesa e uma política renhida e autoritária. Era o fim do governo de Epitácio Pessoa e o início do de Artur Bernardes. Decisões, conchavos, extorsões eram realizados nas casas de prostituição que pululavam no cenário carioca. Uma delas, a mais famosa, pertencente a Mme. Charlotte, tornou-se o palco de alguns acontecimentos. Frequentavam-na Diógenes Braga e o Ministro Palhares; era também onde trabalhava a cocote (prostituta) Ninon, por quem se apaixonou o Ministro.

O Ministro Palhares montou casa para a sua teúda e manteúda Ninon e  Braga ficou sabendo disso. A notícia foi parar no jornal e o Ministro caiu em desgraça. Toda a família Palhares sofreu os efeitos: Dona Herminia, a matriarca, Luisinho, filho mais velho, Silvio, o mais novo dos homens, uma outra filha e Felícia. E o Banco Couto & Irmão tinha suas finanças  e sua idoneidade abaladas, ao serem reveladas as constantes e altas retiradas do Ministro Palhares, para presentear e manter Ninon.

Conduzido com maestria por Mateus Kacowicz, o enredo deste romance prende a atenção do leitor. Uma excelente pesquisa sobre o Rio de Janeiro do início do século XX (por volta de 1922), seus costumes e usos foi realizada com esmero.

Saborosamente, há trechos escritos em português da época:

“Quasi dávamos á estampa a presente edição quando fomos informados de que mais uma familia foi enluctada por um bonde n’esta cidade. D’esta feita o infausto se deu a Matacavallos. A portugueza Maria Couceiro, lavadeira, cuja edade nos é desconhecida, foi colhida pelo carro-motor Nº 8, conduzido pelo nacional Clemente Euphrasio. O collectivo ia no trajecto que damanda de Paula Mattos ao Passeio e não reduziu sua furiosa marcha na descida da ladeira, vindo a colher a desditosa e provocar o infortunio.” (página 5)

Mateus Kacowicz é carioca, jornalista, e este Acidente em Matacavallos é seu primeiro romance. A ironia perpassa a obra:

“Intervenção notável foi a do Senador situacionista Ludgero Cordeiro da Purificação, conhecido por enlevar-se ao ouvir a própria voz e que, neste episódio, proferiu notável peça oratória a favor do cumprimento da lei, contra a utilização de subterfúgios e recursos subalternos, cuja única finalidade seria a tentativa de Diógenes Braga de elidir-se da citação policial.” (página 207)

Neste cenário político, em que prevaleciam os favores, os toma-lá-dá-cá, os tapinhas nas costas (como tudo isto nos soa atual, não?), Diógenes Braga era apenas um corrupto a mais, com a diferença de que ele era peixe pequeno entre os grandes:

“- Doutor Diógenes Braga, eu soube de uma seçãozinha(sic) de cinema que o doutor promoveu quase que especialmente para meu dileto amigo e compadre – frisou o compadre –, o Desembargador F. Sei que o doutor deixou o Desembargador – um crianção, de tão inocente – bem defronte ao doutor. Sei de tudo. O doutor fique avisado: se o doutor estiver arrumando alguma patranha para cima do meu amigo e compadre o Desembargador F, alguma treta, algum engenho, vou ser obrigado a mandar dar cabo do  doutor. E dependendo da maldade que o doutor tiver pensado não vou abrir mão deste prazer para ninguém, dou-lhe eu o tiro na cara.” (página 238)

A recomendação do livro é evidente: já o havia lido no início do ano passado; reli-o com o mesmo prazer, apesar de, desta feita, com a intenção principal de resenhá-lo.

Mateus Kacowicz. Acidente em Matacavallos e outros faits divers. Rio de Janeiro, RJ. Editora Record, 2010, 317 páginas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Resenha nº 20 - A Última Semana, de João Paulo Cuenca

Há algum tempo venho tomando conhecimento de João Paulo Cuenca, um jovem escritor. Cuenca iniciou sua carreira literária por meio de seu blog, sendo que, ao mesmo tempo, começou a escrever seu primeiro romance, Corpo Presente. Tem participação em várias feiras e festivais, tendo sido convidado como palestrante na FLIP de Paraty, em 2003. Publicou várias crônicas de 2003 a 2010. A editora LeYa reuniu parte desses textos no livro A Última Madrugada, cuja leitura terminei ontem.

J. P. nos relata sua formação de leitor como sendo anárquica. Leu de tudo, e muito novo, viu filmes europeus. Ingmar Bergman foi citado num programa no qual Jô Soares entrevista nosso autor. Assistiu, também a filmes americanos, leu revistas em quadrinhos. “Isso me deu um colchão”, nos diz ele. Tornou-se leitor voraz por influência da mãe.

O autor viajou muito pelo mundo, conheceu vários países e isso se reflete, saborosamente, em seus textos. Neste livro, por exemplo, ele nos fala de sua experiência de uma noite no Hotel Cápsula, em Tóquio. Para quem não sabe, esse hotel não tem quartos, mas pequenas cápsulas, com o espaço suficiente para alguém se deitar e dormir. É quase a conta da cama, uma pequena televisão presa a um suporte de parede:

“Antes de dormir, exploro os corredores lúgubres e estranhamente iluminados do hotel cápsula. Uma cápsula é uma gaveta de fibra de vidro. Você dorme na gaveta, enquanto outros dormem na gaveta de baixo ou acima. Cada corredor tem umas trinta gavetas por parede, três fileiras de dez, uma sobre a outra. Aqui devem ter umas quinhentas pessoas.” (página 198, O encapsulado)

Alguns pontos de vista originais dão um sabor único aos textos:

“Um trem noturno é uma máquina de abandono. Pelas janelas, as paisagens transformam-se em alta velocidade: montanhas e pequenas cidades ficam para trás, como peças de roupa jogadas no chão. A cada zunir de postes, a cada dormente dos trilhos, o passado dos viajantes se desprende um pouco mais dos seus corpos – como casca de ferida.” (página 209, Um trem noturno)

Há lugar para o lirismo, como na página 215, da crônica O Olhar da dançarina:

“Abaixo das órbitas incendiárias daqueles olhos, alguém poderia dizer que sua saia é uma onda brava do mar de Alborán. Que seus pés são armas de repetição. Que suas mãos são plumas brancas soltas no ar. Que seus dedos de pianista são cápsulas de orquídeas desconhecidas pela biologia moderna… Pouco disso importa quando uma súbita explosão interrompe os passos suaves da bailarina e, com eles, toda poesia barata.

É que, num movimento ágil, ela pula sobre si mesma, batendo os dois pés no piso de madeira. O choque sobe pelas pernas da dançarina, há um estremecimento doce em cada ponto desse corpo. Num movimento ágil, ela gira o tronco com violência e bate as palmas das mãos. O choque vibra pelos braços da dançarina até chegar aos seus ombros que se contraem com breve ternura.”

Mas, o grande personagem é a cidade. Na verdade, as cidades. O cronista as observa com olhos sagazes, anotando seus humores, suas transformações, seus indícios de modernidade e de passado.

João Paulo Cuenca usa referências como Amy Winehouse, em Londres; um quadro de Hopper em Madri; o cantor e compositor João Gilberto, no Brasil; os concertos do Radiohead. Referências históricas também têm seu lugar. Cuenca tem um olhar sobre o moderno, o contemporâneo, sem deixar, entretanto, de levar em conta o passado, a história.

Um ótimo livro para se ler de uma sentada, em 233 páginas de textos fluentes e curtos, com um lirismo contido e observações agudas.

João Paulo Cuenca. A Última Madrugada, editora LeYa,São Paulo: SP, 2012, 233 páginas.