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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Resenha nº 19 - Vencendo o desafio de escrever um romance, de Ryoki Inoue

Rompendo o critério adotado, de não resenhar manuais ou livros técnicos que vou lendo, eis aqui algumas anotações sobre Vencendo o desafio de escrever um romance, do escritor best-seller brasileiro, Ryoki Inoue. Nome completo, José Carlos Ryoki de Alpoin Inoue. O homem é simplesmente o maior escritor de livros do mundo (este manual é sua 1.074ª obra). Publicou mais de 1.000 títulos entre novelas e romances e por essa façanha, está no Guiness Book.

Vencendo o desafio de escrever um romance é, portanto, manual de quem sabe o que recomenda. Traz orientações extremamente práticas para aqueles escritores em potencial. Tanta gente tem vontade de publicar algo e desanima diante da tarefa tão complexa de fazer chegar ao público os produtos de sua lavra.

Inoue aborda questões facilitadoras ao se elaborar o texto em si, lidando com núcleo dramático principal (plots) e os sub-núcleos dramáticos, se podemos dizer assim (underplots). Ensina a elaborar o texto por ordem gradativa de complexidade, aproximando-se pouco a pouco do texto acabado.

Fundamental para ele é ter um projeto completo da história. E esse projeto vai se desdobrando, vai se enriquecendo com storyline,  sinopse, determinação do argumento e do público-alvo, temporalidade,  ambientação,  configuração dos personagens.

Percebe-se claramente, o livro é orientação de alguém perfeccionista, desejoso de dominar com precisão cada etapa do processo criativo. Conta-se que, certa vez, Ryoki Inoue foi desafiado a produzir um novo romance em apenas seis horas. Montou-se vigiliância cerrada sobre todo o processo criativo, para se evitar qualquer possibilidade de fraude. Nosso escritor venceu a prova: novo romance em apenas 6 horas de trabalho!

Ele assume que o processo de trabalho recomendado funciona para aqueles escritores de best-sellers. “Se você é um gênio, não deveria estar lendo esse livro”, afirma Ryoki a certa altura do seu manual prático.

Finalmente, por que quebrei a orientação deste blog e resolvi comentar o manual ? Muito simples. Nunca escrevi um romance, mas tenho algo em torno de 170 crônicas e vários contos no meu computador. José Carlos Alpoim tem me auxiliado muito com o seu livro de aconselhamento. Encurtei meus caminhos, aglutinei experiência e melhorei meus textos, mesmo sendo de contos e crônicas.

Ademais, há muito deixei a ideia de best-sellers serem livros sem qualidades, que vendem horrores, direcionados ao grande público.

Quem escreve deverá, certamente, fazer escolhas de como vai produzir seu texto. Se ele será mais direcionado para o público acadêmico ou se para o grande público. E aí entra em cena a velha discussão, nem sempre de proveito, sobre os “contadores de história” e os “artesãos das palavras”. No grupo dos primeiros, estaria, por exemplo, José de Alencar, Érico Verissimo, Jorge Amado; do outro lado, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, James Joyce.

Mas, como dizia o Rosa, do alto da sua autoridade de autor de um dos clássicos da Literatura Brasileira, o Grande Sertão: Veredas, “pão, pães, questão de opiniães”.

Ryoki Inoue. Vencendo o desafio de escrever um romance. Summus Editorial,São Paulo: SP, 2007. 174 páginas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Resenha nº 18 - Um copo de cólera, de Raduan Nassar

Raduan Nassar nos dá um magnífico texto nesse Um copo de cólera. O livro foi escrito em 1970 e publicado em 1978, ainda sobre a terrível pressão da ditatura militar, ocorrida no Brasil, de 1964 a 1985. Entretanto, a obra não é uma militância contra os Anos de Chumbo. É antes o olhar crítico às relações humanas desestruturadas, agoniadas.

O personagem principal não tem nome, assim como a mulher com quem vive uma relação amorosa. O erotismo permeia o texto de 64 páginas, dividido em pequenos capítulos. O casal se acaricia, faz amor, troca ideias. Dela, o que sabemos é que é jornalista; a ação se desenrola numa fazenda ou sítio, em que dois caseiros, dona Mariana e seu Tonho, cuidam das coisas.

A paixão dos dois é um tanto conflituosa:

“…assim que ela deixou o quarto e foi por instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria de gritar “é esse canalha que eu amo,”… (página 10)

Um fato corriqueiro é o bastante para o homem derramar toda a sua raiva:

“… deixei as duas para trás e desabalei feito louco, e assim que cheguei perto não aguentei “malditas saúvas filhas da puta” e pondo mais força tornei a gritar “filhas da puta, filhas da puta”, vendo uns bons palmos de cerca drasticamente rapelados, vendo uns bons palmos de chão forrados de pequenas folhas”… (página 26)

Na verdade, a raiva foi menos pela devastação das saúvas na cerca viva do que por “essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda que deixava as pragas de lado e consumia o ligustro  da cerca viva”… O fel interior, detonado pela aparente ocorrência de menor valor, faz com o homem admoeste os empregados, desproporcionalmente, e quando sua parceira tenta intervir, seu ódio se volta contra ela e os dois discutem acidamente.

A linguagem do livro oscila entre o chulo e confessional, apontando para os extremos ideológicos do casal. Afloram, então, as pressões criadas pela condição política vivida no Brasil. Não se podia expressar livremente naqueles tempos. Também as polarizações entre os apoiadores do regime ditatorial e os contra ele eram muito comuns.

O homem apresenta-se, no fundo, como um ser confuso e dependente:

“…fiquei aguardando até que ela me jogou uma ampla toalha sobre a cabeça, cuidando logo de me enxugar os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória,”… (página 18)

“…não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria a seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto.” (página 64)

Além dessa novela, Um copo de cólera, Raduan Nassar ainda publicou Lavoura arcaica, livro esse que o fez ser reconhecido como um dos excelentes autores da literatura brasileira.

Um copo de cólera não é leitura fácil. O texto, apesar de pequeno, é extremamente denso. O enredo é muito simples, como se pode ver por essa resenha, mas a capacidade de síntese do autor não facilita as coisas para um leitor neófito. Não há propriamente, parágrafos; cada capítulo é um único, imenso parágrafo, em que o pensamento do personagem, suas impressões têm um ritmo alucinante. Não chega a ser um fluxo de consciência, um pensamento errático. Há certas frases que se servem de uma distribuição rítmica e rímica, características dos poemas.

Se você gosta de narrativas de fundo psicológico, não hesite. Um copo de cólera é um texto riquíssimo, e por todas as suas características, algumas das quais abordadas aqui, constitui-se em literatura de primeira.

Raduan Nassar. Um copo de cólera. Folha de São Paulo, coleção Literatura Ibero-americana, volume 11, 2012.

domingo, 12 de agosto de 2012

Resenha nº 17 - O Retorno, de Victoria Hislop

O Retorno, de Victoria Hislop, é o segundo romance publicado da autora. O primeiro foi A Ilha. A autora graduou-se em Letras no St. Hilda’s College, na Universidade de Oxford. Produz textos sobre turismo e viagens para o Sunday Telegraph, o Mail on Sunday e para a revista Woman & Home. Ela mora em Kent, na Inglaterra, com o marido e os dois filhos.

Uma coisa que sobressaiu, na leitura do livro, é a capacidade de descrição de Victoria. O leitor quase enxerga as cenas construídas pelas palavras:

“Segundos antes, as mulheres tinham ocupado seus lugares, as últimas pessoas da plateia a entrarem antes que o gitano carrancudo passasse os ferrolhos na porta com um gesto decidido.

Arrastando atrás de si as saias volumosas, cinco moças de cabelos negros como azeviche entraram em cena. Os vestidos justos enroscavam-se no corpo delas em tons vermelho e alaranjado flamejantes, verde ácido e amarelo-ocre. Essas cores vívidas, um coquetel de perfumes fortes, a rapidez da chegada das mulheres e seu andar arrogante eram de uma dramaticidade impactante, estudada. Atrás delas vinham três homens, vestidos em tom escuro como se fossem para um enterro, todos de negro, do cabelo untado com óleo até sapatos de couro feitos à mão.” (página13, capítulo 1)

O Retorno nos conta, com competência, sobre a visita de duas amigas, Maggie e Sonia, à Espanha. É aniversário de Maggie e as duas vão à cidade de Granada para aprender a dançar. Lá, Sonia descobre o prazer da dança e aprende um pouco de flamenco. É uma dança sensual, ao mesmo tempo contida e explosiva, em que a bailarina, ou bailaora, tem de pôr alma e atitude, isto é, uma dança que, para ser verdadeira, deve ter um duende.

Ao sair sozinha, entretanto, certo dia, encontra um café, o El Barril, onde fica conhecendo Miguel, o dono do estabelecimento. Uma imediata amizade se estabelece entre o velho Miguel e Sonia. Ela recebe dele a informação de o café ter pertencido à família Ramirez. Os dias se passam, entre as aulas na escola de dança, as execuções do que aprende numa boate, com Maggie, e as visitas, sozinha, ao café.

Cartazes espalhados pelas paredes do estabelecimento contam um pouco do passado daquela família e as constantes referências de Miguel à Guerra Espanhola do General Franco atiçam sua curiosidade. Mas, a estada das duas em Granada se encerra e as duas amigas têm de voltar para sua vida. Maggie é solteira e Sonia vive um casamento em crise com James. As diferenças entre o casal se tornam cada vez mais fortes; James não gosta da “mania” de Sonia de dançar.

Algum tempo depois, Maggie vende tudo o que tem e se muda de vez para Granada, pois está envolvida com Paco, “um homem maravilhoso”. Sonia volta à Granada e hospeda-se na casa da amiga, já envolvida com outro “homem maravilhoso”. Entretanto, o que impele Sonia em sua segunda estada na cidade é a história da família Ramirez.

Aos poucos, os Ramirez vão revivendo nas narrativas do velho Miguel: Señor Pablo, señora Conchita, os filhos do casal, Mercedes, Antonio, Ignácio e Emílio. E ressurgem também os horrores da guerra que divide a Espanha entre nacionalistas e republicanos; tornam à vida o poeta García Lorca e o generalíssimo Franco.

Mercedes se torna bailarina de flamenco e se apaixona pelo violonista (ou tocaor) Javier Montero. O amor entre os dois é sincero e profundo, não obstante Mercedes ser uma menina de apenas 16 anos. E tais sentimentos acontecem em meio à guerra. Javier está em Málaga e ela resolve viajar para encontrá-lo. E a viagem é terrível, pois a realidade cruenta dos ataques e bombordeios está em toda parte:

“Embora muitos continuassem a caminhar à noite, a exaustão e a fome forçavam alguns a pararem por uma hora e pouco, e havia sempre pequenas aglomerações à margem da estrada. Famílias amontoadas, um cobertor puxado em cima de todos para aquecer e proteger, usando o colchão que tinha arrastado de casa para criar uma pequena barraca particular, uma miniatura do lar.(…)

A vanguarda dessa procissão compunha-se sobretudo de mulheres, crianças e mais velhos, e era com eles que Mercedes andava. Tinham sido os primeiros a deixar Málaga, desperados para fugir dos captores da cidade. Mais para o fim da marcha vinham andando penosamente os homens viventes e os milicianos derrotados, esgotados, que tinham permanecido na cidade para uma exibição final de resistência. Ainda que caminhassem dias e noites, a viagem a Almería poderia levar até cinco dias. Para os velhos, doentes e feridos, poderia se prolongar ainda mais.” (página 238, capítulo 22)

As cidades, os homens, as mulheres e crianças são inexoravelmente metralhados e bombardeados pelos nacionalistas de Franco. Matam sem piedade. Em meio a uma guerra assim, homens são reduzidos à condição de animais desesperados, para quem só importa salvar suas pobres vidas. Mas, também, surgem gestos tocantes de solidariedade. A família Ramirez não escapa ilesa desses horrores, há mortos e presos. Os republicanos respondem à luta igualmente com assassinatos, emboscadas e, de repente, não se sabe qual facção é mais feroz e brutal.

Pessoas são encaminhadas para países próximos, que os recebem a contragosto, aumentando a humilhação e as necessidades por que já passavam os refugiados.

É surpreendente como Victoria Hislop consegue, em apenas duas obras, tornar-se a escritora que é. O Retorno é uma história de amor intenso, colocada num cenário de guerra, falando-nos das dificuldades extremas por que passaram todos, sem em nenhum momento se tornar piegas ou exagerada em suas cores. Quem escreve sabe como é difícil atingir-se a excelência narrativa com tão poucas obras.

Duas revelações agitam o enredo, quase ao seu final. Um leitor atento perceberá as poucas pistas deixadas de propósito no desenrolar do romance; todavia, somente quando se atingem os últimos capítulos é que o quebra-cabeça, montado com talento pela autora, aparece com clareza.

Victoria Hislop. O Retorno. Editora Intrínseca, Rio de Janeiro: RJ, 2010,403 páginas.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A experiência pelos livros

Pelo mundo todo, livros vendem, chegando às mãos das mais diversas pessoas. Afinal, por que lemos? O que nos motiva a passar horas à frente de páginas manchadas por textos, mesmo nessa sociedade de tons tão fortemente visuais, em que vivemos?

A revista Metáfora número 9 nos traz um artigo intitulado Como a leitura muda a vida. Nele, leitores famosos nos dão seus motivos de tal encantamento. Citam, às vezes, o livro que consideram tenha mudado sua vida, causado a mais viva impressão, a ponto de não mais conseguirem esquecê-lo.

Rogério Pereira, editor de jornal e diretor da Biblioteca Pública do Paraná, cita a leitura como proteção e afirma todos os livros lidos como importantes em sua vida: “os livros têm a capacidade de me fazer um tipo de companhia que jamais encontrei. E isso não tem nada a ver com alienação. Os livros são um espaço em que existo, duvido e me perco.” Para Neide Duarte, repórter da TV Globo, os livros a fazem compreender a largueza do mundo e ela nomeia Poesias Completas, de Fernando Pessoa e o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, comos os mais importantes.

Para Jonathan Frazen, uma das referências da FLIP, de Paraty, “todo livro é uma conexão” e  nos revela em depoimento a 1000 Books to change your life (1000 livros para mudar sua vida), ter sido O Processo, de Franz Kafka e Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe seus livros-referência. Eliane Catanhêde, colunista da Folha de São Paulo, nos dá seu preferido O Estrangeiro, de Camus, asseverando ter decidido ser jornalista pelas palavras de O jovem Swann, de Marcel Proust, que dizia conhecer o mundo pela pena dos autores e pela descrição de personagens.

“A leitura nos permite viver outras vidas, ou a vida como poderia ter sido e não foi. Um livro nos ajuda a construir identidade e, com ela uma vez consolidada, a buscar horizontes mais ousados”, no parecer de Valesca de Assis, escritora e coordenadora de oficinas de desbloqueio literário. São indicados por ela o Clarissa, de Érico Verissimo, A Náusea, de Sartre e O Estrangeiro, de Camus. Já Luciana Villas Boas, agente literária, é de parecer que “… a leitura nos revela o mistério da linguagem e, de forma prática, quase autoajuda mesmo, ensina a nos expressar de maneira precisa, elegante e original. Não “recorro” à ficção. Ela faz parte de minha vida. Gosto, dependo, de transporte a outros universos. Não cita um livro em especial.

A leitura como forma de superação das angústias é abordada por Miguel Sanches Neto, autor de livro e colunista da própria revista Metáfora. Afirma que, ao estar depressivo, tem de ler poetas, principalmente Fernando Pessoa. O escritor, roteirista e tradutor Geraldo Carneiro, nos diz, mais incisivamente, que a realidade é alucinação provocada por falta de poesia, e afirma: “quando termino de ler um livro de qualidade literária ou ensaística, eu me sinto como se tivesse tomado uma overdose de vitamina. O Castelo, de Franz Kafka é mencionando por ele.

Em consonância com o objetivo primordial desse blog (resenhar para os leitores os livros que leio), também desejo deixar meu depoimento. O prazer da leitura fundamenta-se, para mim, em um pouco do que cada um desses leitores famosos disseram; entretanto, adoro a ideia de que cada livro lido contribui para fazer uma mudança interna, contínua e silenciosa. Sempre fica algo do que leio, seja uma impressão estética, vibrante, ou uma ideia em que não havia pensado antes, uma situação interessante pela qual determinado personagem tenha passado. Em síntese, os livros lidos me dão a experiência do compartilhamento de vivências e conhecimentos. Livros-referência? Certamente os tenho; minha infância deve muito a Monteiro Lobato, com o seu Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Serões de Dona Benta, Os doze trabalhos de Hércules, etc. Tão importantes naquela etapa da minha vida, os contos de fada também têm meu reconhecimento. Na juventude, rendi tributos a Dostoiévski, com Humilhados e Ofendidos, vivi os sonhos de Noites Brancas e me maravilhei com Crime e Castigo. Além disso, um livro impactante foi Procurando Godot, de Samuel Beckett, um verdadeiro soco na boca do estômago. Entre os nacionais, não poderia me esquecer de Laços de Família, de Clarice Lispector, o já mencionado Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa e Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Livros são assim. Mais do que acalentar sonhos, nos ajudam a construir sonhos, viagens e realidades. Afinal, para nós, leitores por prazer, somos um pouco como o menino lembrado por Carlos Drummond de Andrade, lendo debaixo de uma árvore, a “história de Robinson Crusoé, comprida história que não termina mais”.

Artigo A Vida Transformada, de Terciane Alves e Luiz costa Pereira Jr, in Metáfora nº 9, junho/2012, páginas 44-49

terça-feira, 31 de julho de 2012

Resenha nº 16 - O Poder dos Quietos, de Susan Cain

Acabei de ler O Poder dos Quietos, de Susan Cain. É classificado, pela livraria onde o comprei, no gênero de auto-ajuda. Não sei bem por quê. Talvez pelo seu último capítulo, no qual Susan arrola uma série de conselhos para os introspectivos, inseridos numa cultura que privilegia os extrovertidos. Mas, no resto, parece-se com um estudo, solidamente baseado em obras relevantes e trocas de ideias com autores de peso.

Cain separa didaticamente os dois extremos da personalidade humana: de um lado, os extrovertidos, de outro, os introvertidos, embora reconheça que não há temperamentos puros. Conceitua os extrovertidos como aqueles que buscam os holofotes da mídia, são faladores, comunicativos em tempo integral, festeiros; têm pavor de ficarem sozinhos. Já os introvertidos são os outros, que não promovem a autoexposição, preferem o contato com poucos amigos, dão-se bem em trabalhar sozinhos e, se vão a uma festa barulhenta e cheia de risadas, costumam passar despercebidos, indo embora tão logo seja possível.

Esses dois extremos do temperamento humano sempre intrigaram psicólogos. Estudiosos, desde a Grécia antiga, tentaram desvendar esse mistério dos temperamentos humanos; o tipo introvertido sempre foi confundido com o tímido, embora recentemente se faça diferença entre eles. Resumindo, o tímido tem pavor de falar em público, por exemplo, enquanto o introvertido, se for necessário, fala em público, mas prefere não fazê-lo.

O Poder dos Quietos defende a ideia de que os introvertidos são normais, e que o  mundo tanto tem lugar para a extroversão quanto para a introversão. E Cain narra um fato esclarecedor: Rosa Parks era uma negra diligente e honesta. Trabalhou vários anos nos bastidores da Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor e chegou a receber treinamento  em resistência não violenta. Certo dia, ela foi colocada numa situação constrangedora, pois ao entrar num ônibus, o motorista James Blake a maltratou por ser negra e entrar pela porta da frente. “Saia do meu ônibus", berrou ele. Ela obedeceu-lhe, não sem antes deixar cair propositalmente sua bolsa e, para apanhá-la, sentou-se no lugar para os brancos. Os desdobramentos desse acontecido levaram a “quieta” Rosa Parks a participar de um amplo movimento em favor dos negros, tendo ela sido palestrante em um ciclo promovido por ninguém menos que Martin Luther King Jr.

Susan Cain nos esclarece a respeito de pesquisas feitas com crianças muito reativas e pouco reativas a estímulos externos. Enquanto os bebês pouco reativos se constituem em adultos extrovertidos, os que são muito reativos dão adultos introvertidos. Essa correlação caminha na direção da validação científica: nascemos com programação de temperamento.

Dessa forma, Albert Einstein, Barack Obama, Chopin, Steven Spielberg, J. K. Rowling, Bill Gates e Mahatma Ghandi têm algo em comum: são introvertidos de carteirinha. O subtítulo do livro é indicador: “Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”. A própria autora de O Poder dos Quietos se declara introspectiva.

Há grupos de pessoas que necessitam muito mais de um líder introspectivo do que de um extrospectivo. Se são trabalhadores de alguma atividade intelectual, criativa, o ideal é um líder quieto, a deixar a turma fazer seu trabalho e depois, discutir com eles em pé de igualdade. Um líder extrospectivo é necessário naqueles grupos em que há real necessidade de a liderança levá-los a dar o melhor de si.

Ainda, contra a ideia de os introvertidos serem antissociais, Cain nos esclarece que eles são também socialmente participantes, mas do jeito deles, isto é, socializam-se bem com pequenos grupos de pessoas por vez.

Escutei de uma participante de uma banca examinadora de dissertação de mestrado, que o candidato era um representante da força do caos; ela assegurava que existem os que tiram sua energia da ordem. Aqueles que recarregam suas baterias da “força do caos” são os extrovertidos. Os outros, alimentados pela força da ordem, são os introvertidos.

Gostei muito do livro por dois motivos: primeiro, por ser uma leitura esclarecedora de muitas questões psicossociais; segundo, por eu ser também um introvertido. O Poder dos Quietos iluminou vários ângulos obscuros do meu próprio temperamento e me explicou como eu, um “quieto” por natureza, consegue ser professor e falar em público.

Na resenha do Bartleby e Companhia, de Enrique Vila-Matas, afirmei ter aquele livro e esse vários pontos em comum. E como têm! Os bartlebys são, invariavelmente, introvertidos…

Susan Cain. O Poder dos Quietos. Editora Agir, Rio de Janeiro, RJ, 2012. 334 páginas. R$ 29,90

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Resenha n° 15 - Bartleby e Companhia, de Enrique Vila-Matas

Bartleby e Companhia é um livro diferente. Antes de expor o porquê da diferença, tornam-se necessárias algumas explicações. O escritor americano Herman Melville, criador do clássico Moby Dick escreveu também um conto, Bartleby, o escrivão. Esse escrivão tem uma particularidade: quando lhe pedem para fazer algo, ele responde “prefiro não fazê-lo”. Dessa forma, ele se converte em apenas alguém que contempla o mundo, sem interagir com ele. Por extensão, a síndrome de Bartleby nomeia a desistência do escritor que não escreve. É um potencial a não se realizar, a arte do não.

O escritor espanhol Enrique Vila-Matas se apropria do personagem de Melville e inclui na síndrome todo aquele que podia ser, mas não é. O escritor cuja obra nunca vem a lume, e aqui vão surgindo autores de uma obra só, por motivos vários, homens brilhantes recolhidos a atividades não condizentes com seu brilhantismo. Desfilam Marcel Duchamp, Charles Baudelaire, Jerome David Salinger (autor de O apanhador no campo de centeio, 1951), etc. Há até o caso do escritor Paranoico Perez, que nunca escreveu um livro sequer, pois, quando se dispunha a fazê-lo, o escritor português José Saramago lhe “roubava” a ideia e invalidava seu trabalho.

Enrique Vila-Matas inventa alguns fatos e autores, mas a originalidade do livro se baseia na ausência de um texto principal, sendo construído todo por notas do autor a esse texto em potencial. Alguns trechos do livro:

Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: “Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu – sem que eu soubesse – em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser um poema.” (página 43)

“Na verdade, a doença, a síndrome de Bartleby, vem de longe. Hoje chega a ser um mal endêmico das literaturas contemporâneas essa pulsão negativa ou atração pelo nada que faz com que certos autores literários jamais cheguem, aparentemente, a sê-lo.” (página 23)

“Disponho-me, então, a passear pelo labirinto do Não, pelas trilhas da mais perturbadora e atraente tendência das literaturas contemporâneas: tendência em que se encontra o único caminho que permanece aberto à autêntica criação literária; que se pergunta o que é e onde está a escrita e que vagueia ao redor de sua impossibilidade e que diz a verdade sobre o estado, de prognóstico grave – mas sumamente estimulante – da literatura deste fim de milênio.” (página 11)

Por todo o seu livro, Vila-Matas trata os bartlebys com humor, ele mesmo sendo um bartleby, pois ficou muito tempo sem escrever. O nome próprio – Bartleby – transforma-se num adjetivo a caracterizar os autores do Nada. A obra Bartleby e Companhia recebeu o Prêmio Cidade de Barcelona, de 2001 e Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro, França, 2002.

De certa forma pode-se fazer uma ligação a outro livro que, oportunamente, estou lendo, O Poder dos Quietos, de Susan Cain: ela aborda os introvertidos e suas características e os bartlebys são, na verdade, todos introvertidos diante de suas muralhas intransponíveis, dos textos que poderiam ter sido e nunca o foram.

Entre os brasileiros, um portador da síndrome de que trata o livro de Vila-Matas é o nosso Raduan Nassar. Após ter produzido duas importantes obras, Um copo de cólera e Lavoura Arcaica, simplesmente deixou de escrever.

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona, em 1948; estreou na ficção em 1973 e tem publicados 28 livros em mais de vinte países. Tem prêmios na Espanha, França, Itália e América Latina. Em português foram publicados A viagem vertical (2004), esse Bartleby e Companhia (2004), O mal de Montano (2005), Paris não tem fim (2007), Suicídios exemplares (2009), Doutor Pasavento e Dublinesca.

Enrique Vila-Matas. Bartleby e companhia. Editora Cosacnaify, São Paulo: SP, 2004.188 páginas

terça-feira, 3 de julho de 2012

Primeiras impressões de Prometheus, de Ridley Scott

Contra vários depoimentos, lá fui eu assistir ao filme Prometheus, do diretor Ridley Scott. De sua filmografia constam clássicos como Blade Runner - Caçador de Andróides, Alien - O Oitavo Passageiro, Gladiador. Gostei muito dos dois primeiros e não gostei do último.

Prometeu é um titã da mitologia grega que rouba o fogo dos deuses e o entrega aos homens. A partir daí, a raça dos humanos progride sem parar. Agastado com o titã, Zeus lhe impõe um castigo digno das torturas gregas: acorrenta-o a um rochedo e, durante o dia, uma águia vem lhe devorar o fígado; durante a noite, porém, o órgão devorado se recompõe. Prometeu, então, é visto como o doador do conhecimento dos deuses ao homem.

Além disso, pode-se expandir a alegoria: Prometeu é a primeira  interferência “alienígena” na vida dos Homens, já que os deuses olímpicos e os humanos não são da mesma raça. Inevitável trazer a essas primeiras impressões duas outras referências. Primeiro, o livro Eram Os Deuses Astronautas, de Erich von Daniken, que apontou estranhas interferências de seres extraterrestres na história e cultura de civilizações humanas antigas. Segundo, o filme 2001 – Uma Odisséia No Espaço, de Stanley Kubrick, com questionamentos parecidos aos que faz Prometheus.  É, portanto, um título extremamente apropriado para o filme de Scott.

Prometheus trilha a  mesma linha de Alien – O Oitavo Passageiro, ao qual faz referências o tempo todo. Na verdade, funciona como uma pré-sequência, assim como foi feito com as duas trilogias do Guerra Nas Estrelas. Os eventos deste Prometheus têm lugar antes daqueles de Alien.

Antes de entrar propriamente em minhas impressões sobre o filme, desejo trazer outra consideração. Quando autores ou diretores pensam uma série, devem, necessariamente, dotar o enredo de ganchos; questões importantes devem ter respostas definitivas adiadas, para que se constitua a série. Não é fácil fazer isso, sem perder o controle da mão que manipula as tensões do suspense e da outra, que manipula o interesse do público leitor/espectador. Pela estrutura da narrativa, claramente Prometheus foi concebido para ter uma (ou mais) sequências.

A primeira reclamação é: Prometheus é um filme frouxo, não provoca frisson na plateia. É verdade. O problema, me parece, está nas muitas referências ao Alien; os corredores imensos, claustrofóbicos e labirínticos; aquele ambiente gótico, cheio de claro-escuros; a forma como o monstro parasiteia os humanos, já nos foram dados em Alien. Aviso: mesmo o Alien não tem foco em dar sustos; é antes, um “causador de estranhezas”.

Não concordo com a ideia de que questões como “o que somos”, “para onde vamos”, “o que fazemos aqui” sejam essencialmente religiosas, tocando somente o campo da fé subjetiva. São questões que transcendem o religioso, embora não deixem de pertencer às questões de religião. São filosóficas. O Homem tem necessidade de se entender.

Algumas condenações foram feitas à criação de alguns personagens. Meredith Vickers (a bela Charlize Theron) seria sem expressão. Observemos bem, sua natureza humana ou androide é posta em dúvida por um dos outros personagens.

Ridley parece gostar de mulheres fortes. Como Ripley (Sigorney Weaver), Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) nos dá a impressão de uma mulher frágil e chorosa, presa aos sentimentos do passado; transforma-se numa guerreira, lutando com todas as unhas pela sua sobrevivência.

David (Fassbender) é um robô que aspira a ser humano, como aquele outro androide famoso da série Jornada Na Estrelas – A Nova Geração, o Data. Em Prometheus há uma cena denunciadora: David assiste a cenas do filme Lawrence da Arábia, copiando o visual de Peter O’Toole.

O filme é visualmente deslumbrante, usando recursos da computação gráfica. São cenas grandiosas, em câmara aberta, o que vemos na tela. Entretanto, aquelas questões filosóficas fundamentais não são respondidas. Quando os personagens pensam ter encontrado respostas, essas lhes fogem, transferindo-se para um outro planeta: “eles não são doidos para fazerem essa experiência [da criação dos humanos] em seu próprio planeta”, num óbvio aviso de que haverá uma continuação.

Ainda é cedo para julgar um filme que, forçosamente, deverá gerar um descendente. Falta-nos a visão de conjunto. Agora, se a sequência não vier, aí sim, concordo: Prometheus terá sido um péssimo filme. Levanta questões importantes demais para não tentar respondê-las.

Ridley Scott. Prometheus. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Kate Dickie, Idris Elba.