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terça-feira, 7 de agosto de 2012

A experiência pelos livros

Pelo mundo todo, livros vendem, chegando às mãos das mais diversas pessoas. Afinal, por que lemos? O que nos motiva a passar horas à frente de páginas manchadas por textos, mesmo nessa sociedade de tons tão fortemente visuais, em que vivemos?

A revista Metáfora número 9 nos traz um artigo intitulado Como a leitura muda a vida. Nele, leitores famosos nos dão seus motivos de tal encantamento. Citam, às vezes, o livro que consideram tenha mudado sua vida, causado a mais viva impressão, a ponto de não mais conseguirem esquecê-lo.

Rogério Pereira, editor de jornal e diretor da Biblioteca Pública do Paraná, cita a leitura como proteção e afirma todos os livros lidos como importantes em sua vida: “os livros têm a capacidade de me fazer um tipo de companhia que jamais encontrei. E isso não tem nada a ver com alienação. Os livros são um espaço em que existo, duvido e me perco.” Para Neide Duarte, repórter da TV Globo, os livros a fazem compreender a largueza do mundo e ela nomeia Poesias Completas, de Fernando Pessoa e o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, comos os mais importantes.

Para Jonathan Frazen, uma das referências da FLIP, de Paraty, “todo livro é uma conexão” e  nos revela em depoimento a 1000 Books to change your life (1000 livros para mudar sua vida), ter sido O Processo, de Franz Kafka e Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe seus livros-referência. Eliane Catanhêde, colunista da Folha de São Paulo, nos dá seu preferido O Estrangeiro, de Camus, asseverando ter decidido ser jornalista pelas palavras de O jovem Swann, de Marcel Proust, que dizia conhecer o mundo pela pena dos autores e pela descrição de personagens.

“A leitura nos permite viver outras vidas, ou a vida como poderia ter sido e não foi. Um livro nos ajuda a construir identidade e, com ela uma vez consolidada, a buscar horizontes mais ousados”, no parecer de Valesca de Assis, escritora e coordenadora de oficinas de desbloqueio literário. São indicados por ela o Clarissa, de Érico Verissimo, A Náusea, de Sartre e O Estrangeiro, de Camus. Já Luciana Villas Boas, agente literária, é de parecer que “… a leitura nos revela o mistério da linguagem e, de forma prática, quase autoajuda mesmo, ensina a nos expressar de maneira precisa, elegante e original. Não “recorro” à ficção. Ela faz parte de minha vida. Gosto, dependo, de transporte a outros universos. Não cita um livro em especial.

A leitura como forma de superação das angústias é abordada por Miguel Sanches Neto, autor de livro e colunista da própria revista Metáfora. Afirma que, ao estar depressivo, tem de ler poetas, principalmente Fernando Pessoa. O escritor, roteirista e tradutor Geraldo Carneiro, nos diz, mais incisivamente, que a realidade é alucinação provocada por falta de poesia, e afirma: “quando termino de ler um livro de qualidade literária ou ensaística, eu me sinto como se tivesse tomado uma overdose de vitamina. O Castelo, de Franz Kafka é mencionando por ele.

Em consonância com o objetivo primordial desse blog (resenhar para os leitores os livros que leio), também desejo deixar meu depoimento. O prazer da leitura fundamenta-se, para mim, em um pouco do que cada um desses leitores famosos disseram; entretanto, adoro a ideia de que cada livro lido contribui para fazer uma mudança interna, contínua e silenciosa. Sempre fica algo do que leio, seja uma impressão estética, vibrante, ou uma ideia em que não havia pensado antes, uma situação interessante pela qual determinado personagem tenha passado. Em síntese, os livros lidos me dão a experiência do compartilhamento de vivências e conhecimentos. Livros-referência? Certamente os tenho; minha infância deve muito a Monteiro Lobato, com o seu Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Serões de Dona Benta, Os doze trabalhos de Hércules, etc. Tão importantes naquela etapa da minha vida, os contos de fada também têm meu reconhecimento. Na juventude, rendi tributos a Dostoiévski, com Humilhados e Ofendidos, vivi os sonhos de Noites Brancas e me maravilhei com Crime e Castigo. Além disso, um livro impactante foi Procurando Godot, de Samuel Beckett, um verdadeiro soco na boca do estômago. Entre os nacionais, não poderia me esquecer de Laços de Família, de Clarice Lispector, o já mencionado Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa e Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Livros são assim. Mais do que acalentar sonhos, nos ajudam a construir sonhos, viagens e realidades. Afinal, para nós, leitores por prazer, somos um pouco como o menino lembrado por Carlos Drummond de Andrade, lendo debaixo de uma árvore, a “história de Robinson Crusoé, comprida história que não termina mais”.

Artigo A Vida Transformada, de Terciane Alves e Luiz costa Pereira Jr, in Metáfora nº 9, junho/2012, páginas 44-49

terça-feira, 31 de julho de 2012

Resenha nº 16 - O Poder dos Quietos, de Susan Cain

Acabei de ler O Poder dos Quietos, de Susan Cain. É classificado, pela livraria onde o comprei, no gênero de auto-ajuda. Não sei bem por quê. Talvez pelo seu último capítulo, no qual Susan arrola uma série de conselhos para os introspectivos, inseridos numa cultura que privilegia os extrovertidos. Mas, no resto, parece-se com um estudo, solidamente baseado em obras relevantes e trocas de ideias com autores de peso.

Cain separa didaticamente os dois extremos da personalidade humana: de um lado, os extrovertidos, de outro, os introvertidos, embora reconheça que não há temperamentos puros. Conceitua os extrovertidos como aqueles que buscam os holofotes da mídia, são faladores, comunicativos em tempo integral, festeiros; têm pavor de ficarem sozinhos. Já os introvertidos são os outros, que não promovem a autoexposição, preferem o contato com poucos amigos, dão-se bem em trabalhar sozinhos e, se vão a uma festa barulhenta e cheia de risadas, costumam passar despercebidos, indo embora tão logo seja possível.

Esses dois extremos do temperamento humano sempre intrigaram psicólogos. Estudiosos, desde a Grécia antiga, tentaram desvendar esse mistério dos temperamentos humanos; o tipo introvertido sempre foi confundido com o tímido, embora recentemente se faça diferença entre eles. Resumindo, o tímido tem pavor de falar em público, por exemplo, enquanto o introvertido, se for necessário, fala em público, mas prefere não fazê-lo.

O Poder dos Quietos defende a ideia de que os introvertidos são normais, e que o  mundo tanto tem lugar para a extroversão quanto para a introversão. E Cain narra um fato esclarecedor: Rosa Parks era uma negra diligente e honesta. Trabalhou vários anos nos bastidores da Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor e chegou a receber treinamento  em resistência não violenta. Certo dia, ela foi colocada numa situação constrangedora, pois ao entrar num ônibus, o motorista James Blake a maltratou por ser negra e entrar pela porta da frente. “Saia do meu ônibus", berrou ele. Ela obedeceu-lhe, não sem antes deixar cair propositalmente sua bolsa e, para apanhá-la, sentou-se no lugar para os brancos. Os desdobramentos desse acontecido levaram a “quieta” Rosa Parks a participar de um amplo movimento em favor dos negros, tendo ela sido palestrante em um ciclo promovido por ninguém menos que Martin Luther King Jr.

Susan Cain nos esclarece a respeito de pesquisas feitas com crianças muito reativas e pouco reativas a estímulos externos. Enquanto os bebês pouco reativos se constituem em adultos extrovertidos, os que são muito reativos dão adultos introvertidos. Essa correlação caminha na direção da validação científica: nascemos com programação de temperamento.

Dessa forma, Albert Einstein, Barack Obama, Chopin, Steven Spielberg, J. K. Rowling, Bill Gates e Mahatma Ghandi têm algo em comum: são introvertidos de carteirinha. O subtítulo do livro é indicador: “Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”. A própria autora de O Poder dos Quietos se declara introspectiva.

Há grupos de pessoas que necessitam muito mais de um líder introspectivo do que de um extrospectivo. Se são trabalhadores de alguma atividade intelectual, criativa, o ideal é um líder quieto, a deixar a turma fazer seu trabalho e depois, discutir com eles em pé de igualdade. Um líder extrospectivo é necessário naqueles grupos em que há real necessidade de a liderança levá-los a dar o melhor de si.

Ainda, contra a ideia de os introvertidos serem antissociais, Cain nos esclarece que eles são também socialmente participantes, mas do jeito deles, isto é, socializam-se bem com pequenos grupos de pessoas por vez.

Escutei de uma participante de uma banca examinadora de dissertação de mestrado, que o candidato era um representante da força do caos; ela assegurava que existem os que tiram sua energia da ordem. Aqueles que recarregam suas baterias da “força do caos” são os extrovertidos. Os outros, alimentados pela força da ordem, são os introvertidos.

Gostei muito do livro por dois motivos: primeiro, por ser uma leitura esclarecedora de muitas questões psicossociais; segundo, por eu ser também um introvertido. O Poder dos Quietos iluminou vários ângulos obscuros do meu próprio temperamento e me explicou como eu, um “quieto” por natureza, consegue ser professor e falar em público.

Na resenha do Bartleby e Companhia, de Enrique Vila-Matas, afirmei ter aquele livro e esse vários pontos em comum. E como têm! Os bartlebys são, invariavelmente, introvertidos…

Susan Cain. O Poder dos Quietos. Editora Agir, Rio de Janeiro, RJ, 2012. 334 páginas. R$ 29,90

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Resenha n° 15 - Bartleby e Companhia, de Enrique Vila-Matas

Bartleby e Companhia é um livro diferente. Antes de expor o porquê da diferença, tornam-se necessárias algumas explicações. O escritor americano Herman Melville, criador do clássico Moby Dick escreveu também um conto, Bartleby, o escrivão. Esse escrivão tem uma particularidade: quando lhe pedem para fazer algo, ele responde “prefiro não fazê-lo”. Dessa forma, ele se converte em apenas alguém que contempla o mundo, sem interagir com ele. Por extensão, a síndrome de Bartleby nomeia a desistência do escritor que não escreve. É um potencial a não se realizar, a arte do não.

O escritor espanhol Enrique Vila-Matas se apropria do personagem de Melville e inclui na síndrome todo aquele que podia ser, mas não é. O escritor cuja obra nunca vem a lume, e aqui vão surgindo autores de uma obra só, por motivos vários, homens brilhantes recolhidos a atividades não condizentes com seu brilhantismo. Desfilam Marcel Duchamp, Charles Baudelaire, Jerome David Salinger (autor de O apanhador no campo de centeio, 1951), etc. Há até o caso do escritor Paranoico Perez, que nunca escreveu um livro sequer, pois, quando se dispunha a fazê-lo, o escritor português José Saramago lhe “roubava” a ideia e invalidava seu trabalho.

Enrique Vila-Matas inventa alguns fatos e autores, mas a originalidade do livro se baseia na ausência de um texto principal, sendo construído todo por notas do autor a esse texto em potencial. Alguns trechos do livro:

“Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: “Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu – sem que eu soubesse – em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser um poema.” (página 43)

“Na verdade, a doença, a síndrome de Bartleby, vem de longe. Hoje chega a ser um mal endêmico das literaturas contemporâneas essa pulsão negativa ou atração pelo nada que faz com que certos autores literários jamais cheguem, aparentemente, a sê-lo.” (página 23)

“Disponho-me, então, a passear pelo labirinto do Não, pelas trilhas da mais perturbadora e atraente tendência das literaturas contemporâneas: tendência em que se encontra o único caminho que permanece aberto à autêntica criação literária; que se pergunta o que é e onde está a escrita e que vagueia ao redor de sua impossibilidade e que diz a verdade sobre o estado, de prognóstico grave – mas sumamente estimulante – da literatura deste fim de milênio.” (página 11)

Por todo o seu livro, Vila-Matas trata os bartlebys com humor, ele mesmo sendo um bartleby, pois ficou muito tempo sem escrever. O nome próprio – Bartleby – transforma-se num adjetivo a caracterizar os autores do Nada. A obra Bartleby e Companhia recebeu o Prêmio Cidade de Barcelona, de 2001 e Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro, França, 2002.

De certa forma pode-se fazer uma ligação a outro livro que, oportunamente, estou lendo, O Poder dos Quietos, de Susan Cain: ela aborda os introvertidos e suas características e os bartlebys são, na verdade, todos introvertidos diante de suas muralhas intransponíveis, dos textos que poderiam ter sido e nunca o foram.

Entre os brasileiros, um portador da síndrome de que trata o livro de Vila-Matas é o nosso Raduan Nassar. Após ter produzido duas importantes obras, Um copo de cólera e Lavoura Arcaica, simplesmente deixou de escrever.

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona, em 1948; estreou na ficção em 1973 e tem publicados 28 livros em mais de vinte países. Tem prêmios na Espanha, França, Itália e América Latina. Em português foram publicados A viagem vertical (2004), esse Bartleby e Companhia (2004), O mal de Montano (2005), Paris não tem fim (2007), Suicídios exemplares (2009), Doutor Pasavento e Dublinesca.

Enrique Vila-Matas. Bartleby e companhia. Editora Cosacnaify, São Paulo: SP, 2004.188 páginas

terça-feira, 3 de julho de 2012

Primeiras impressões de Prometheus, de Ridley Scott

Contra vários depoimentos, lá fui eu assistir ao filme Prometheus, do diretor Ridley Scott. De sua filmografia constam clássicos como Blade Runner - Caçador de Andróides, Alien - O Oitavo Passageiro, Gladiador. Gostei muito dos dois primeiros e não gostei do último.

Prometeu é um titã da mitologia grega que rouba o fogo dos deuses e o entrega aos homens. A partir daí, a raça dos humanos progride sem parar. Agastado com o titã, Zeus lhe impõe um castigo digno das torturas gregas: acorrenta-o a um rochedo e, durante o dia, uma águia vem lhe devorar o fígado; durante a noite, porém, o órgão devorado se recompõe. Prometeu, então, é visto como o doador do conhecimento dos deuses ao homem.

Além disso, pode-se expandir a alegoria: Prometeu é a primeira  interferência “alienígena” na vida dos Homens, já que os deuses olímpicos e os humanos não são da mesma raça. Inevitável trazer a essas primeiras impressões duas outras referências. Primeiro, o livro Eram Os Deuses Astronautas, de Erich von Daniken, que apontou estranhas interferências de seres extraterrestres na história e cultura de civilizações humanas antigas. Segundo, o filme 2001 – Uma Odisséia No Espaço, de Stanley Kubrick, com questionamentos parecidos aos que faz Prometheus.  É, portanto, um título extremamente apropriado para o filme de Scott.

Prometheus trilha a  mesma linha de Alien – O Oitavo Passageiro, ao qual faz referências o tempo todo. Na verdade, funciona como uma pré-sequência, assim como foi feito com as duas trilogias do Guerra Nas Estrelas. Os eventos deste Prometheus têm lugar antes daqueles de Alien.

Antes de entrar propriamente em minhas impressões sobre o filme, desejo trazer outra consideração. Quando autores ou diretores pensam uma série, devem, necessariamente, dotar o enredo de ganchos; questões importantes devem ter respostas definitivas adiadas, para que se constitua a série. Não é fácil fazer isso, sem perder o controle da mão que manipula as tensões do suspense e da outra, que manipula o interesse do público leitor/espectador. Pela estrutura da narrativa, claramente Prometheus foi concebido para ter uma (ou mais) sequências.

A primeira reclamação é: Prometheus é um filme frouxo, não provoca frisson na plateia. É verdade. O problema, me parece, está nas muitas referências ao Alien; os corredores imensos, claustrofóbicos e labirínticos; aquele ambiente gótico, cheio de claro-escuros; a forma como o monstro parasiteia os humanos, já nos foram dados em Alien. Aviso: mesmo o Alien não tem foco em dar sustos; é antes, um “causador de estranhezas”.

Não concordo com a ideia de que questões como “o que somos”, “para onde vamos”, “o que fazemos aqui” sejam essencialmente religiosas, tocando somente o campo da fé subjetiva. São questões que transcendem o religioso, embora não deixem de pertencer às questões de religião. São filosóficas. O Homem tem necessidade de se entender.

Algumas condenações foram feitas à criação de alguns personagens. Meredith Vickers (a bela Charlize Theron) seria sem expressão. Observemos bem, sua natureza humana ou androide é posta em dúvida por um dos outros personagens.

Ridley parece gostar de mulheres fortes. Como Ripley (Sigorney Weaver), Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) nos dá a impressão de uma mulher frágil e chorosa, presa aos sentimentos do passado; transforma-se numa guerreira, lutando com todas as unhas pela sua sobrevivência.

David (Fassbender) é um robô que aspira a ser humano, como aquele outro androide famoso da série Jornada Na Estrelas – A Nova Geração, o Data. Em Prometheus há uma cena denunciadora: David assiste a cenas do filme Lawrence da Arábia, copiando o visual de Peter O’Toole.

O filme é visualmente deslumbrante, usando recursos da computação gráfica. São cenas grandiosas, em câmara aberta, o que vemos na tela. Entretanto, aquelas questões filosóficas fundamentais não são respondidas. Quando os personagens pensam ter encontrado respostas, essas lhes fogem, transferindo-se para um outro planeta: “eles não são doidos para fazerem essa experiência [da criação dos humanos] em seu próprio planeta”, num óbvio aviso de que haverá uma continuação.

Ainda é cedo para julgar um filme que, forçosamente, deverá gerar um descendente. Falta-nos a visão de conjunto. Agora, se a sequência não vier, aí sim, concordo: Prometheus terá sido um péssimo filme. Levanta questões importantes demais para não tentar respondê-las.

Ridley Scott. Prometheus. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Kate Dickie, Idris Elba.

sábado, 30 de junho de 2012

Resenha nº 14 - O Guardião de Livros, de Cristina Norton

O entusiasmo pelo livro começou ao vê-lo na vitrina de uma livraria de shopping. O que primeiro me atraiu foi a bela capa, com um ornamento antigo em primeiro plano e uma estante de livros ao fundo. Embaixo, uma tomada do porto do Rio de Janeiro.

Fiz uma pesquisa na internet para saber um pouco mais sobre a autora Cristina Kace Norton. Ela nasceu a 28/02/1948. Ela é argentina, da cidade de Buenos Aires, entretanto, reside há mais de trinta anos em Portugal, onde se naturalizou. Trabalha, desde 1998, em oficinas de escrita criativa.

Do ponto de vista estrutural, várias vozes narram a história, como o escravo Manuel (Manuel Luís Cabinda), um negro que desejava ser como o seu amo; Luís Joaquim dos Santos Marrocos, o  guardião de livros de que trata o título e dono do escravo Manuel; Ana, a parceira de Luís; a escrava muda Gracinda e um narrador em terceira pessoa.

Marrocos é mandado para o Brasil, juntamente com 76 caixotes, contendo o acervo da Real Biblioteca do Palácio da Ajuda. Tal carregamento fora esquecido na cais de Belém, pois toda a corte portuguesa viajara atabalhoadamente para o Brasil, fugindo do exército invasor de Napoleão Bonaparte. Como Luís Joaquim já trabalhava na biblioteca real como bibliotecário, cabe-lhe a obrigação de acompanhar a transferência das suas tão queridas obras.

Aqui chegando, o bibliotecário não gosta do que vê. O Rio de Janeiro é sujo, quente demais, tem escravos demais e a população lhe parece mal-educada e iletrada. Ele sofre muito, pois é hipocondríaco e as doenças no Rio de Janeiro são comuns, principalmente por causa das parcas condições higiênicas. Entretanto, Marrocos vai mudando sua maneira de ver o Brasil e sua gente, pois o “destino” lhe reserva algumas surpresas.

Instala a Biblioteca Real, cai nas graças da corte portuguesa, mora numa boa casa e ganha a companhia de uma mulher brasileira.

A autora teve a boa idéia de acrescentar alguns trechos de cartas de Marrocos a seu pai Francisco e à irmã Bernardina, contribuindo para a construção do personagem principal. Além disso, alguns  documentos históricos  transcritos, sob o nome “Crônicas da Corte” têm a função de conferir veracidade à narrativa e por isso mesmo, conseguem trazer os fatos narrados para mais perto de nós.

Vários acontecimentos vão recheando o enredo, bem conduzido pela autora:  a  escrava muda Gracinda revela um segredo guardado durante duzentos anos; um cientista judeu naufraga nas ilhas Malvinas, arrastando consigo dois livros raros; para apimentar a história, Marrocos descobre as delícias do sexo com uma carioca; por fim, um escravo apaixona-se por quem não deveria ser o objeto de seus sonhos.

Cristina Norton. O Guardião de Livros. Editora Casa da Palavra. Rio de Janeiro, RJ, 2011. 310 páginas.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Resenha nº 13 - O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne

A família é composta por Bruno, de 9 anos de idade, o pai, a mãe, a irmã Gretel, de 12 anos. Vivem na Alemanha hitlerista, numa casa de cinco andares em Berlim. Trabalham na mansão da família o mordomo Lars e a governanta Maria. Bruno tem três melhores amigos: Karl, Daniel e Martin.

Essa aparente tranquilidade começa a ser perturbada quando o pai de Bruno é designado para uma tarefa de alta consideração; sendo comandante do exército de Hitler, é enviado para um local distante, cujo nome Bruno não consegue pronunciar perfeitamente. O campo de concentração de Auschwitz só lhe sai “Haja-Vista”. Também o Füher é transformado, na boca de Bruno, em o “Fúria”.

Inicialmente, o menino detesta a nova casa: só tem três andares, não há o corrimão pelo qual ele gostava de escorregar. Não há vizinhos nem outras crianças com quem possa brincar. Sobretudo, pensa Bruno, não existem coisas interessantes a explorar. Desta forma, só tem a irmã Gretel com quem interagir. Mas ela é um Caso Perdido. Implica com ele o tempo todo, se vangloriando de sua inteligência e “experiência” maiores; afinal, ela tem 12 anos e Bruno, apenas 9!

Toda a história é contada do ponto de vista do menino. Ele não entende direito o funcionamento do mundo dos adultos. Entretanto, é inquieto, indagador dentro de suas possibilidades. Gosta de ler histórias, sente falta da avó que lhe proporcionava atuar em peças escritas por ela mesma, encenadas na época do Natal. Ela sempre fazia roupas adequadas à personagem interpretada:

“Lembra-me das peças que ela costumava encenar comigo e com Gretel”, disse Bruno, tirando os olhos de Shmuel, enquanto recordava aqueles dias distantes, ainda em Berlim, parte das muito poucas memórias que se recusavam a se desvanecer. “Lembra-me de como ela sempre tinha a roupa certa para mim. Usando a roupa certa, você se sente como a pessoa que está fingindo ser, ela sempre me dizia.” (página 178)

Certo Sr. Lizt é contratado para dar aulas para Bruno e Gretel. Ele só lhes ensina História (da Alemanha, é claro) e Geografia. Diz que o resto não tem importância. Nessa vidinha de interior, sem ter nada para fazer, o menino se aproxima das pessoas simples da casa, como Maria e Pavel, um estranho homem, convocado a trabalhar como servente da cozinha e que demonstra conhecimentos médicos quando Bruno se machuca ao cair do balanço:

“O que vai acontecer comigo, então?”, perguntou Bruno, sentindo o pânico crescer dentro de si, uma emoção que poderia levá-lo às lágrimas. “É capaz de eu sangrar até a morte.”

“Pavel sorriu gentilmente e balançou a cabeça. “Você não vai sangrar até a morte”, disse o servente, puxando um banco e acomodando sobre ele a perna de Bruno. “Fique parado um instante. Há um estojo de primeiros socorros bem ali.” (página 74)

Da janela da casa Bruno vê um campo imenso, cercado de arame e decide que tem de ir lá explorar. Encontra Shmuel, um menino triste, que nasceu no mesmo dia e ano que ele: 15 de abril de 1934. Ambos têm, portanto, 9 anos. Shmuel mora do outro lado da cerca. A amizade entre os dois toma proporções cada vez mais profundas. Embora com uma carga de experiência amarga, a qual lhe proporciona uma melhor visão sobre sua própria condição, Shmuel é doce e desesperadamente necessitado de um amigo.

Mais tarde, Bruno descobre a palavra “judeu”: seu amigo Shmuel e todos os que vivem do lado de lá da cerca são judeus, assim como Pavel, o servente. O jovem não sabe exatamente o que a palavra significa, mas intui, aos poucos,  que algo de muito ruim acontece aos judeus. Eles sofrem as piores humilhações, são apartados do convívio com os alemães (os soldados germânicos são vistos por eles como uma constante ameaça e perigo de vida).

O livro pode ser entendido de algumas maneiras. É um libelo contra o holocausto e, nesse item, aproxima-se de O Diário de Anne Frank; é também a exaltação da amizade, que, sendo pura, pode extrapolar classes sociais díspares. Ainda, mostra alemães contrários ao projeto hitlerista, assumindo como podem suas posições contrárias ao regime dominante. A briga entre o comandante e sua mãe é exatamente por isso: ela não concorda com a atuação dele, principalmente, com a adesão do filho à ideologia hitlerista. A mãe de Bruno também se sente mal com as escolhas do marido, mas é fraca demais para contrariá-lo.

O texto é enxuto, liricamente construído em 186 páginas. Li, em alguns textos críticos, que John Boyne (autor de O menino do pijama listrado) perdeu a oportunidade de ser mais contundente na condenação do holocausto. Discordo completamente. O valor do livro como um libelo contra o nazismo, contra os horrores do holocausto, está exatamente na forma como o autor narra a história. Escolhendo o ponto de vista de Bruno, com sua candidez, ingenuidade, Boyne atinge a meta de seu projeto literário: o testemunho pela emoção. Como se nos dissesse: a sensibilidade é capaz de nos elevar, ou de nos levar a não cometermos erros monstruosos como os de Auschwitz.

John Boyne. O menino do pijama listrado. Tradução de Augusto Pacheco Calil. Cia das Letras, São Paulo, SP, 2007. 186 páginas.

domingo, 24 de junho de 2012

Uma coleção recomendável

Tinha prometido a mim mesmo que não compraria mais livros de coleções ofertadas em bancas de revistas. Afinal, as escolhas não são nossas, e isso pode gerar um volume de obras inertes na biblioteca particular. Tenho prazer em fazer minhas próprias opções literárias, normalmente, de livros que começo a ler tão logo os compro.

Essa coleção da Folha de São Paulo, de Literatura Ibero-americana, entretanto, mudou meu propósito. Pelo preço bastante acessível de R$ 16,90 compro livros importantes, com bom acabamento. A periodicidade é de um volume por semana, sempre aos domingos.

Talvez, por iniciativa própria, não teria acesso a tais livros e escritores. A seleção é muito bem feita; temos ali o Neruda, o Garcia Lorca, o Jorge Luís Borges,o Bioy Casares, o Mário Vargas Llosa. Além desses, mais: António Lobo Antunes, José Saramago, Milton Hatoum, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Raduan Nassar, Cabrera Infante, etc. Um seleção de peso. São vinte e cinco volumes, ao todo. É realmente uma oportunidade e tanto para se ter em casa obras representativas da literatura ibero-americana. Gostaria que a Folha considerasse a possibilidade de fazer algo semelhante com a literatura africana de expressão portuguesa.