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domingo, 17 de junho de 2012

Resenha nº 12 - A elegância do ouriço, de Muriel Barbery

Nunca havia ouvido falar desse A elegância do ouriço e nem de sua autora marroquina, Muriel Barbery. Entretanto, a obra já vendeu mais de um milhão de exemplares ao redor do mundo, sendo, segundo nos informa a 4ª capa da obra, mais de 850 mil só na França.
Muriel Barbery nasceu no Marrocos, em 1969. Formou-se pela École Normale Supérieur, em Paris, e lecionou filosofia em Saint-Lô, na Normandia. A morte do gourmet, seu romance de estreia (2000), ganhou o prêmio de Melhor Livro  de Literatura Gourmande. Desde 2008 a autora vive em Kyoto, no Japão.
O livro A Elegância do ouriço já estava na fila das minhas leituras há algum tempo. Foi-me emprestado por uma colega, também professora. Muito bem, comecei a lê-lo. Como vários leitores, li até uma parte e a leitura travou.
Reconhecendo certos indícios promissores na obra, resolvi investir minha disciplina no projeto de leitura e continuei. Não gosto de deixar livros que começo a ler sem a devida finalização, quando por nada, pelo menos para ser honesto ao dizer “não gostei desse”. Ou, talvez por muito respeito à literatura, não sei. Mas o fato é que continuei a ler.
O restante foi puro prazer, tanto estético como intelectual, pois o livro é muito, muito bom mesmo. A elegância do ouriço é explicitamente filosófico, mas – pontos para a autora – coloca as considerações de maneira leve e atraente.
Todo o enredo se passa num prédio de apartamentos luxuosos à Rue de Grenelle, 7, no qual vivem pessoas ricas. Lá trabalha uma concierge, de nome Renée, mais conhecida como Sra. Michell. É viúva, e tem como companheiro de sua solidão um gato chamado Leon, em homenagem ao escritor russo Leon Tolstoi. Renée faz o possível e o impossível para se fazer passar por uma pessoa sem cultura, embora seja amante de literatura e possua uma profunda visão filosófica sobre o mundo e pessoas. Começou aí o meu estranhamento: uma simples zeladora ter predileções tão eruditas e mais, não querer se fazer valer delas.
Há também uma menina de 12 anos, Paloma, que faz anotações de seus pensamentos profundos e sobre o movimento do mundo. Ela havia prometido a si mesma que, se não conseguisse achar um sentido para a vida, se suicidaria no dia dos seus 13 anos e atearia fogo ao seu apartamento. Acontece que a pequena Paloma compartilha com Renée o olhar filosófico sobre seu redor. Esse foi o segundo estranhamento: uma menina de apenas doze anos e já preocupada com questões filosóficas e, ainda, sendo capaz de explicitá-las.
Como se estivessem colocadas por trás da cortina de luxo dos maneirismos dos moradores do prédio da Rue de Grenelle, as duas fazem releituras daquelas pessoas, vendo-as por trás de suas máscaras de convenção social. Esses relatos são, às vezes, sutis e bem-humorados; noutras, entretanto, prevalece a crítica ácida.
Um terceiro elemento entra na composição dessas personagens que têm uma visão pessimista daquela aparente harmonia, sossegada convivência dos vizinhos: o Sr. Kakuro Ozu. Ele é um japonês que adquire um apartamento quando um dos moradores morre e o imóvel é posto à venda.
Sendo um elemento de fora, trazendo uma visão de uma cultura diferente, japonesa, embora ele se expresse bem em francês, ele forma com Renée e Paloma um trio dissonante. Como Renée, ama a literatura russa; como Paloma, tem gosto por questões filosóficas. Como as duas, não se enquadra no padrão intelectual e comportamental dos residentes do prédio.
Eis alguns trechos pinçados da obra:
“Mas para que serve a gramática?”, ele perguntou. “Você deveria saber”, respondeu a senhora-eu-sou-paga-para-ensinar-lhes. “Bem, não”, respondeu Achille com sinceridade, pelo menos dessa vez, “ninguém nunca se deu o trabalho de nos explicar isso. “A sra. Maigre deu um longo suspiro, do tipo “será que ainda tenho que aguentar perguntas estúpidas?”, e respondeu: “Serve para falar bem e escrever bem”.
Aí então, achei que ia ter uma ataque cardíaco. Nunca ouvi nada tão inepto. E com isso não quero dizer que é errado, quero dizer que é realmente inepto. Dizer a adolescentes que já sabem falar e escrever que a gramática serve para isso é como dizer a alguém que é preciso ler uma história dos banheiros através dos tempos para fazer xixi e cocô. É sem sentido!” (página 167)
“Pessoas inteligentes, há aos montes. Há muitos débeis, mas também muitos cérebros extraordinários. Vou dizer uma banalidade, mas a inteligência, em si, não tem nenhum valor e nenhum interesse. Gente muito inteligente dedicou a vida à questão do sexo dos anjos, por exemplo. Mas muitos homens inteligentes têm uma espécie de bug: consideram a inteligência como um fim. Têm uma única ideia na cabeça: ser inteligente, o que é muito estúpido.” (página 177)
“Para que serve a Arte? Para nos dar a breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos.” (página 218)
E por último, por que o nome do livro, A elegância do ouriço? Deixo o próprio texto se explicar:
“A sra. Michell tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.” (página 152)
A elegância do ouriço não é um livro fácil de se ler. Pede urgente(s) releitura(s) pela sua densidade de informações, pela sutileza na composição dos personagens e situações. Se você, leitor, começou a ler e parou em algum ponto do texto, insista e será premiado; se você ainda não leu, faça-o! Eu vou adquiri-lo, para mais releituras.
Muriel Barbery. A elegância do ouriço. Companhia das Letras. São Paulo, SP, 2011. 350 páginas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Resenha n° 11 - Estádio Independência, de Jairo Anatólio Lima

É um projeto muito interessante o BH. A cidade de cada um. De acordo com a orientação desses trabalhos, um autor é convidado para escrever algo sobre várias localidades de Belo Horizonte. Tal colcha de retalhos acaba nos dando uma visão deliciosa sobre nossa cidade. Não há compromisso com a pesquisa histórica; vale, de acordo com o explicitamente exposto, a memória afetiva. Este volume 3, dedicado ao Estádio Independência, traz crônicas saborosas de Jairo Anatólio Lima.

Jairo foi locutor e cronista esportivo; transmitiu mais de três mil partidas de futebol e cobriu sete Copas do Mundo. Uma pessoa assim terá muito o que contar sobre o que viu e ouviu nesses anos todos, pelos campos do Brasil afora. E, certamente, está gabaritado para nos conduzir num passeio temporal pelo Estádio do Horto.

E coisas curiosas vão aparecendo: as impressões sobre a partida Inglaterra e Estados Unidos, pela Copa do Mundo de 1950 – a mesma vencida pelo Uruguai e que nos maltrata a memória de brasileiros, até hoje.

Ele nos conta, por exemplo, que o clima popular era francamente favorável aos Estados Unidos, por causa da empáfia do ingleses; estes recusaram-se a ficar em Belo Horizonte, indo diretamente para as dependências da Mina de Morro Velho, em Nova Lima, que era dos ingleses. Contra toda as expectativas da crônica especializada da época, ganharam os Estados Unidos, de 1 X 0.

Bola Na Madrugada nos fala de uma incrível partida de futebol, disputada no Independência às duas horas da manhã:

“Pouca gente sabe  da história de um incrível jogo de futebol realizado às duas horas da madrugada no Estádio Independência. Talvez tenha sido caso virgem  na história do futebol, não só no campo do Sete de Setembro. Pois houve este jogo. Mais precisamente na madrugada do dia 21 de maio de 1969. Estava o país vivendo todo o clima do movimento militar que eclodira cinco anos antes. Censura, caça aos chamados ‘terroristas’, ‘subversivos’ e outras classificações. Mas todos  sabem o que é o jornalista, o cronista, o homem de rádio, o homem de televisão, o homem de jornal. […]  Lá pelas tantas,  já com a cara mais cheia do que vazia, alguns dos frequentadores do [restaurante] Rosário, vindos do Mineirão, tiveram uma ideia genial. Que tal realizarmos um jogo esta madrugada? A proposta saiu, sabem de quem? Do então solteirão cobiçado Ronam Ramos de Oliveira, o repórter da camisa amarela.” (páginas 30-31)

As donas dos famosos “rendez-vous”, casas de prostituição, como a famosa Zezé, iam ao Independência, na mais discreta aparência, fazendo desfilar suas meninas para a apreciação masculina. A célebre prostituta Hilda Furacão também frequentava o Estádio. Ela era atleticana e acabou se casando com Paulo Valentim, ídolo do Galo. Há jogos memoráveis do Atlético, golaços, detalhes pitorescos dos galãs-jogadores e o assédio feminino que, gostosamente, sofriam. O folclórico técnico Yustrich, com fama de homem durão é lembrado. Raimundo Sampaio, presidente pétreo do time do Sete de Setembro, a quem pertencia o campo, não tinha dinheiro para cuidar do estádio do Horto como devia. Usava cabras para “aparar” a grama do campo.

Os textos são despretensiosos, e talvez, por isso mesmo, encontram o tom certo para o público. Leiam, se puderem!

Jairo Anatólio Lima. Estádio Independência. Editora Conceito, BH, 2ª Edição, 2007. 84 páginas

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Resenha nº 10 - O fotógrafo, de Cristovão Tezza

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mudando-se ainda criança para Curitiba. Escreveu Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra, Juliano Pavollini, O Filho Eterno (esse último recebeu os mais importantes prêmios literários brasileiros de 2008).

A trama de O Fotógrafo envolve cinco personagens; desses, quatro interagem. O personagem central, chamado de o fotógrafo, nunca é nomeado. É casado com Lídia, com quem tem uma filha, Alice. Depois de muito tempo, Lídia volta aos bancos da faculdade, para fazer mestrado e encontra Duarte, um professor por quem tem admiração.

O professor Duarte é casado com Mara, uma psicanalista (linha Freudiana) e seu casamento entrou naquela fase morna, mantido mais pelo costume e acomodação. Quando Lídia retorna à faculdade, Duarte e ela começam um caso.

Também acontece algo parecido entre o fotógrafo e Lídia. Estão num relacionamento que já acabou e nenhum dos dois toma iniciativa de conversar. Guardam para si mesmos seus problemas. Fazem opção pelo silêncio ressentido.

Íris é modelo mantida por um ricaço e mora em apartamento próprio. A relação dela com o ricaço é sem amor; o encaminhamento dela à psicanalista é para revelar-lhe seus fantasmas particulares. Curiosamente, Íris é a única que fala abertamente de seus dramas, pelo menos com sua terapeuta.

Toda a ação se passa em um único dia. Como pano de fundo, temos a disputa pela presidência do Brasil entre José Serra e Lula. Tal situação é abordada por uma ou outra referência feita por algum personagem.

O fotógrafo é contratado por um homem misterioso, para tirar fotos de Íris. Receberá 200 dólares por rolo de filme batido. Ele acaba se sentindo fortemente atraído por Íris e terá de decidir se continua a fotografá-la e ganhar o dinheiro ou abandonar o projeto e tentar ficar com a modelo.

Cristovão Tezza administra com segurança todo esse caos relacional. Quase não há diálogos entre os personagens, o que lhes enfatiza a solidão orientada por ressentimentos, que caracteriza o livro. O autor opta por verdadeiros solilóquios, isto é, todos “pensam alto” e esses solilóquios vêm misturados às intervenções do narrador, em discurso indireto livre.

O foco narrativo também se alterna, ora para primeira pessoa, ora para terceira pessoa; isso confere dinâmica à narrativa que, em nenhum momento se torna tediosa, monótona (risco que corre quem insiste em apresentar personagens falando para si próprios), além de criar um efeito de aproximação do leitor com o texto.

O fotógrafo vive, além da crise de relação com Lídia, outra crise de relação com seu emprego. Escuta sempre de seu patrão “que ele é o único fotógrafo mal-humorado que conheço”. O desemprego é uma ameaça permanente sobre sua cabeça, embora ele seja, como diz o texto, um profissional reconhecido pelo seu trabalho.

O personagem principal guarda um outro tipo de ressentimento: como ele é adepto das câmara analógicas, não vê com bons olhos o uso crescente das máquinas digitais em seu ambiente. E há coisas que detesta na sua profissão: por exemplo, o trabalho de fotografar um político ou, ainda, a fotografia de publicidade.

Alguns trechos do livro:

“— Você leu As ilusões perdidas? — ele perguntou, e era como se ele ganhasse tempo, recuperando o próprio terreno, a voz do professor. E antes que ela respondesse: — Leia. Antes de ver o filme, para não destruir a leitura — e ela riu. É a grande obra de Balzac.

— As ilusões perdidas — Lídia repetiu, contrita, mas o tom era de quem não ouve o que está dizendo.” (página 80)

“Viu seu próprio rosto atentamente — é melhor tomar banho agora antes que ele invente de se trancar nesse laboratório horrendo, sempre que ele se deprime ele se tranca ali, e ele vai ficar deprimido, ele já está deprimido — e aproximou-se mais de sua imagem. Um rosto cansado, ela avaliou. O que tão fortemente me levou a acreditar que o Duarte me ama? Cada gesto, ela pensou; ele sabe disso.Talvez ele aguarde uma declaração formal: eu estou apaixonada por você.” (página 191)

Apesar da pouca probabilidade das relações tão próximas entre os personagens — Duarte é casado com a psicanalista de Íris e tem um caso com a mulher do fotógrafo que se apaixona por Íris, lembrando uma quadrilha —, o romance é muito bem escrito, merece ser lido. Tezza é um escritor em plena maturidade, demonstrando mão segura na condução do enredo.

Cristovão Tezza. O Fotógrafo. Editora Record, São Paulo, 2ª ed., 2011. 285 páginas

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Resenha nº 9 - É Tudo Tão Simples, de Danuza Leão

Já conhecia a Danuza Leão de uma ou outra coluna da Folha de São Paulo e a ligava a textos que falam sobre etiqueta, como recepcionar pessoas. Minha esposa comprou o livro mais recente, o É Tudo Tão Simples, recomendada por alguma colega. Como não deixo livro sem viagem, comecei a folheá-lo.

São bons textos, as crônicas são bem humoradas. Ela fala do mundo feminino, como não podia deixar de ser, mas não somente. Junta o seu olhar de socialite à sua experiência em escrever para nos dar textos deliciosos. Reflexivos, eles falam sobre a vida; Danuza se mostra disposta a não complicar a vida e o livro segue, seguro, por esse caminho. Também há conselhos para homens e mulheres, em questões de vestimenta, o que é ou não de bom tom, qual o melhor jeito de se comportar numa viagem.

Ainda, conselhos úteis para quem deseja se destralhar, a autora nos faz refletir sobre a desnecessidade de se manter prataria cara, ocupando lugar, se não se recebe mais como uma madame.

A situação econômica da colunista mudou; longe, entretanto, de tornar-se amarga ou revoltada contra tudo e contra todos, ela opta – sabiamente – pelo desapego. Alguns trechos:

“Mas a garotada ficou conservadora de novo. Alguns querem festa de 15 anos, e até casamento na igreja. Incrível como as coisas entram na moda, saem e depois voltam. E é incrível o prazer da garotada em enlouquecer os pais.” (página 55)

“Cuidado com os cotovelos: mãos sempre em cima da mesa, a não ser que você tenha um desejo urgente de fazer um carinho na perna de sua amada. Mas que seja rápido e discreto, ninguém precisa ver. E cuidado para que seja a perna dela, e não de outra (aliás, conheço vários romances que começaram assim).” (página 79)

“É mesmo difícil ter alguma noção diante da Mona Lisa, com quinhentas pessoas em volta, todas tirando uma fotinha com o celular. Mais prático comprar um cartão-postal na lojinha do museu. E tem aquela história de um conhecido banqueiro, fóbico. Ao ser perguntado “Mas o sr. não sente saudade de viajar?”. Ele  respondeu: “Meu filho, depois do advento do Google, isso tudo está superado”. Mas ouvi falar que os supervips podem marcar uma visita aos museus de Paris só para eles, às duas ou três da manhã, deve ser divino.” (página 112)

“Nada mais desagradável do que acordar ao lado de um desconhecido de quem não se sabe nem o nome: é sempre melhor acordar em sua própria cama, e sozinha, para não ter que conversar e oferecer um café, cruzes.” (quarta capa)

Enfim, uma leitura leve, com ótimas pitadas de humor, em textos que fluem magnificamente, formando um todo coeso e degustável. Tal é esse É Tudo Tão Simples.

Danuza Leão. É tudo tão simples. Agir Editora, Rio de Janeiro, 2011.192 páginas.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Clube do Livro dos Anos 80

 

Caro leitor, se você tem 30 anos ou mais, já gostava de leitura, deve se lembrar do Círculo do Livro. Refresquemos a memória: era um sistema de “clube do livro”, que entregava os volumes selecionados para associados. Havia uma revista, com resumo de todos as obras disponíveis e o sócio tinha por obrigação pedir pelo menos um livro a cada trimestre.

Os vendedores iam a nossa casa fazer a entrega e levar o novo catálogo. Lugares onde não existiam vendedores eram atendidos por correio. O Círculo do Livro foi uma editora brasileira, com parceria firmada entre o Grupo Abril e a editora alemã Bertelsmann e inicou suas atividades em 1973.

Em 1982, as vendas alcançaram cinco milhões de exemplares vendidos; em 1983, eram oitocentos mil sócios espalhados pelo território brasileiro. Entretanto, na mesma década de 80, acontecia, além do apogeu da empresa, sua falência.

Eu era um dos associados. Recebia meus pedidos com regularidade. Eram livros bem-acabados, com capa dura e páginas costuradas, a preços bastante competitivos. Lembro-me que havia muitos outros associados ao Círculo do Livro na empresa onde eu trabalhava.

Não me importa o motivo pelo qual as atividades da editora foram encerradas. Dizem uns, pela má administração; outros dão como causa a retirada da Bertelsmann do negócio. Sinto pelo término do projeto, pois acredito que ele realmente contibuiu para a formação e manutenção de leitores brasileiros; mas, é claro, uma empresa não pode ser mantida por romantismo e, às vezes, nem o idealismo, por mais nobre, pode preservá-la. Foi uma pena. É uma pena.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Resenha nº 8 - Feliz Por Nada, de Martha Medeiros

Estou acabando de ler o Feliz Por Nada, de Martha Medeiros. Contrariamente ao que costumo fazer ao resenhar um livro – resenho-o normalmente após encerrar a leitura –, com esse estou fazendo diferente. Não conhecia o trabalho da escritora o que, se por um lado denuncia minha ignorância de uma autora conhecida, por ser colunista dos jornais Zero Hora e O Globo, por outro lado me deixa mais à vontade para os comentários a respeito dela.

Muitas vezes, nos deixamos levar por um conceito já firmado sobre algum autor e sentimos dificuldade em, por exemplo, sermos isentos o suficiente para dizer: “olha, esse autor é muito bom, mas especialmente esse livro não está à altura dele”.

Martha Medeiros escreve muito bem. Tem um estilo leve, seus textos são gostosos de ler. Nessas pouco mais de oitenta crônicas que compõem o livro passiei por temas variados. A obra já está na 36ª edição. E na verdade, ela nem é minha; minha esposa  ganhou-a de uma aluna, com uma singela dedicatória e eu me apossei dela.

Há comentários de coisas do dia a dia de uma mulher, dona de casa, mãe, jornalista e escritora literária. Todas essas vivências não excludentes contribuem nitidamente para os textos e temas de Martha. Comenta livros lidos, como não podia deixar de ser: o bom escritor é antes de tudo, um bom leitor. Tem até uma referência ao A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, que aguarda pacientemente na fila das minhas leituras programadas.

A crônica é, talvez, o mais generoso dos gêneros textuais; nela, pode-se criar um texto mais dissertativo, poético, casual, etc. Isso faz parecer fácil, não? Não é bem assim. Como também escrevo crônicas, sei: encontrar o tom certo, em um texto, de natureza curto e leve pode ser complicado. Já se disse, em questões textuais existe o efeito de simplicidade, arduamente trabalhado.

Vale transcrever um pequeno trecho da crônica que dá nome ao livro e que está reproduzido na 4ª capa:

“A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.”

Uma bela e simples reflexão, não? Se você é do tipo que não se dá trégua, vá a uma livraria próxima, compre o Feliz Por Nada, de Martha Medeiros e o leia com proveito!

Martha Medeiros. Feliz Por Nada. Editora L&PM, 211 páginas, 36ª edição, 2011.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Resenha nº 7 - Zorro, de Isabel Allende

Quando me emprestaram esse livro, preparei minha disciplina para ler algo sobre um personagem que não me atraía muito. Afinal, pensei, Zorro seria apenas um romance de capa e espada sobre o desgastado alter ego de Dom Diego de la Vega. Entretanto, lá no fundo do meu ser leitor, eu já me dizia aos ouvidos internos: “é um livro de Isabel Allende, provavelmente você vai encontrar mais do que espera”. Dito e feito. Mais uma vez, minha intuição não falhou. Aos poucos, vou me tornando um fã dessa escritora peruana de vivência chilena. Dela, já li Casa dos Espíritos, há muito tempo; Inés de Minha Alma e agora, Zorro.

Muito mais do que mais um livro sobre o Zorro/Dom Diego de la Vega, esse é um bom livro, bem escrito, embora não o considere o melhor da escritora. Isabell revisita o mito, tornando-o mais consistente, ressignificando-o. É um romance de formação, isto é, um romance em que o leitor vai acompanhando a construção do personagem, seguindo-lhe todo o processo da meninice, da adolescência e da maturidade.

O narrador participa da própria história que conta, na maior parte das vezes em terceira pessoa, com variações para a primeira. Algumas pistas são deixadas ao correr do texto sobre a quem pertenceria essa voz narradora, que só será revelada ao final da história. Não serei eu, caro leitor, a estragar o término pela antecipação da notícia. Leia-o — estou recomendando-o — degustando um texto de alta qualidade pelo capricho na construção dos personagens, não só de Dom Diego, mas de Nuria, Juliana e Isabel de Romeu, de Bernardo, da índia Toypurnia, de Coruja Branca, Alejandro de la Vega, do capitão Santiago de León, de Rafael de Moncada, do corsário Jean Lafitte, etc. Ainda, levará de presente um enredo coerente, que nos prende a atenção do começo ao fim do livro.

Indo da Califórnia a Barcelona e de volta à Califórnia, muitos fatos vão acontecendo; não falta, ainda, o fino humor de Allende; ela não poupa ninguém. Ironiza cada um dos personagens, que como a gente, têm sempre aspectos bons e ruins.

Mas, se você espera uma obra superficial, bobinha, sobre aventuras de capa e espada, cheia de lutas entre valorosos espadachins, ou entre o superior Zorro e seus fracos opositores, mude de perspectiva. Espertamente, Isabel não segue por esse caminho batido, por esse clichê. Ao contrário, ela dá ao personagem mítico uma infância e uma adolescência. Ou seja, numa frase, a escritora confere identidade e humanidade ao Zorro.

É narrada a profunda amizade entre Diego de la Vega e seu irmão do coração, Bernardo. Ambos têm sangue indígena correndo nas veias. Há toques românticos, como o amor dedicado de Bernardo à Coruja Branca e de Diego à Isabel de Romeu. Uma pitada de misticismo, ou se quiserem, de espiritualidade, com direito a ritos de passagens,  tão presentes na cultura dos indígenas perpassa algumas páginas desse Zorro.

Zorro – Começa a Lenda, Editora Betrand Brasil, 417 páginas