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segunda-feira, 21 de junho de 2010

José Saramago e sua mulher, Pilar del Río

 
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O Encantado

Cleuber Marques da Silva

Dezoito de junho, ano 2010. Mais uma voz ética e literária se abstrai do mundo. José Saramago, assim tão simples de nome, quanto simples de vida, bem podia ter sido outra coisa, se se acomodasse. Filho de pai pobre, mãe analfabeta, nunca renegou suas origens, reafirmadas em entrevista, dizendo que não modificaria nada daquela vida de pobreza. Tom de quem reconhece objetivamente a presença dos pais, grandes em seus limites impostos pela miséria e do avô, a seu dizer o homem mais sábio, apesar de analfabeto.
Coerentemente, Saramago não renega sua origem social. Afinal, são 87 anos de coerência, polêmico, contestador, corajoso. Ah, o mundo anda necessitado de homens assim, corajosos e sinceros no viver e no dizer. E pelo mundo afora, noticiam os jornais o desparecimento do primeiro e único prêmio Nobel de língua portuguesa, como se o prêmio em si fosse mais importante que o homem.
Saramago, o de tantas alegorias desconcertantes, cortes a laser, cirúrgicos, precisos. Escritor tardio; mas, talvez por isso mesmo, um escritor que construiu solidamente, passo a passo, sua obra. Por que, não duvido, mesmo quando não escrevia, ainda assim escrevia. É que a gestação da ideias não começa no ato mecânico da escrita. Para compor vastas e importantes obras, como as dele, é preciso antes ideário e fé no que se diz. A literarialização reveste todo esse material, apresentando-o na forma de enredo, de personagens e de criatividade.
A mim, pouco me importa se ele se dizia ateu. A experiência de vida me ensinou uma realidade revisitada, aquela antiga e bíblica passagem “conhece-se a qualidade da árvore por seus frutos”. E quais foram os frutos da árvore Saramago, árvore do encantamento e da estranheza? Frutos maduros de um olhar objetivo e ferinamente crítico sobre a composição social: a desigualdade artificial entre dominantes e dominados. Seríamos melhores se, ao invés de nos escondermos sob uma imagem oficial de Deus, fôssemos mais proativos. De que valem idolatrias, se não nos reconhecemos como participantes de uma humanidade? E, em nossa insanidade, destruímos categoricamente nossa casa — o planeta Terra.
Mas, como sempre, houve o patrulhamento ideológico-religioso e o escritor se autoexilou na Ilha de Lanzarote, nas Canárias, por conta da celeuma provocada com a publicação de A Paixão Segundo Jesus Cristo. O clero considerou a obra ofensiva, secundado por políticos católicos que infernizaram a vida de José. Penso que ele sabia de antemão a possibilidade de tais reações, ao fazer publicar o livro.
O comunismo não vingou, a democracia é uma piada de mau gosto. Conceitos maravilhosos no plano da ideologia, mas completamente arrasados na tentativa de implantação em sua práxis. Nós, seres humanos, não desejamos ainda, de verdade, a igualdade entre as pessoas, a igualdade entre os povos. Descompromissadamente, perpetramos discursos belos, campanhas “humanitárias” destinadas aos faróis da mídia e continuamos a encontrar motivos para fazermos guerras. É preferível o ateísmo que se indigne contra as injustiças à religiosidade confortável e inativa.
Poderia ficar aqui, citando frases saramáguicas, sem construir nada com isso. Não foi o próprio autor, com uma consciência rara, que nos alertou para a necessidade de nos ouvirmos uns aos outros, na busca de respostas sobre o que somos, e não procurá-las nos escritores, já que eles, os escritores, não são mais que trabalhadores das palavras?
Por tudo José Saramago é admirável e admirado. Este cronista, evidente, se inclui na legião de fãs do português. É admirável por ser quem foi e ousar expressar seu pensamento, é admirável por ser um homem que deu um novo rumo à sua vida a partir dos sessenta anos, quando publica suas obras, casa-se com Pilar del Río, vinte anos mais nova, a quem dedica o romântico depoimento: “se tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora.”
E para que, afinal, deixar seguir esse tom de panegírico, se os escritores amados por nós não morrem? Em cada um de seus livros há muito de seus espíritos. E quando há uma legião de leitores, como no presente caso, forma-se uma rede que mantém presente e remissivamente o autor.
O bom livro é a chance da longevidade, como o confirma a presença de clássicos gregos e romanos entre nós. E nosso longevo escritor publicou, ainda no ano passado, seu último livro, Caim, e iniciava a execução de outro projeto literário. Ficam-nos apenas vinte ou trinta páginas, não se sabendo que fim terão.
Outro escritor magnífico, não laureado por nobéis, o nosso João Guimarães Rosa, disse em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras que “a gente não morre. Fica encantado.” A voz do encantado José Saramago se cala, por instantes. Mas volta a falar em seus livros, consistentes em quantidade e qualidade. Ele poderia não ter nos legado seu testemunho sobre o mundo, sobre as pessoas; poderia ter-se calado e não teríamos depoimentos sobre como via as gentes ao seu redor, fazendo parte, ele mesmo, dessa multidão. E estaríamos mais pobres sem o escritor que, discordando de muitas coisas, ousava expressá-lo pelo modo mais competente à mão: sua palavra literária.
Belo Horizonte, 19 de junho de 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

Blocos Caricatos

Ah, sim, te conheço
De outros carnavais
Não era um pierrô
Nem tu, porta-bandeira preferida
Não era eu um mestre-sala
Nem tu, colombina

Apesar disso, te reconheço
De outros distantes
Carnavais
Não iguais, que carnaval
Se parece, mas em detalhes difere
Dos demais

Te conheço de outros
Mais imperfeitos carnavais
Assim como eu, vivias
Outros trajes, outros papéis
Portando bandeiras de outros locais

(Trajes, papéis, bandeiras se desgastam
Não se prestam
A tantos e quantos temas
De carnavais)

Mas carnavais, alguns nada tropicais
Afinal, tão poucos dias duram
Que vistos assim, efêmeros, temporais
Talvez signifiquem muito mais
Que meros carnavais


Agosto de 2000

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Pesquisa revela índice de leitores no Brasil

Foi realizada, em 2007, pesquisa promovida pela Instituto Pró-Livro, sobre como anda a formação de leitores no nosso país. A boa notícia é que, num país onde tradicionalmente se lê muito pouco, os índices estão melhorando. Muito embora a média de 4,7 livros por habitante/ano não levem ninguém ao entusiasmo, mostra o esforço de políticas públicas e, sobretudo, das escolas.
De acordo com os dados divulgados, 3,4 de leitores apurados, em média, referiram-se à escola como elemento incentivador da leitura. Apenas 1,3 dos leitores analisados diz ler por iniciativa própria (sem indicação da escola).
Ainda mais: as mulheres são mais leitoras em relação aos homens. Elas são 55% da média encontrada.
Em primeiro lugar, o livro mais lido pelo público brasileiro é a Bíblia (nenhuma surpresa); o segundo, "O Sítio do Picapau Amarelo" (esse sim, uma surpresa). No campo dos autores mais lidos, pela ordem publicada: Monteiro Lobato, Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis.
Tal quadro, embora não configure algo de se entusiasmar, mostra um inequívoco trabalho positivo das escolas na formação de leitores. Num país que lê tão pouco é papel fundamental das escolas, de quaisquer níveis, facilitar e incentivar a leitura.

domingo, 22 de junho de 2008

Novidades...

Olá, amigos!

A cada experiência que vamos vivendo, agregamos valores. Este blog, tanto tempo parado, vai apresentar novidades. Algumas idéias novas, alguma noção a mais de como realmente funcionam estes importantes meios de comunicação.
Estou envolvido com um projeto sobre Ética na E. M. Presidente Raul Soares e, tão logo ele esteja um pouco mais amadurecido (provavelmente durante as férias de julho), farei uma sinopse.
Também estou pesquisando sobre a Síndrome de Burnout, mal que afeta profissionais liberais, notadamente os professores. Aguardem!

sábado, 5 de abril de 2008

Os Gêneros Se Entrecruzam

As especificidades dos gêneros são relativamente estáveis. Isso significa, por exemplo, que é possível apropriar-se de um determinado gênero para produzir um efeito totalmente inesperado. O texto a seguir é um exemplo.

Redação com estilo

Há quem considere escrever uma verdadeira tortura. Falar, tudo bem. Mas colocar no papel é uma árdua missão. Ter um bom texto é preocupação de muitos, principalmente no dia-a-dia do profissional. Para isso, nada melhor do que ler e treinar, sempre que possível. Abaixo, colocamos algumas regras que podem auxiliar na hora de produzir qualquer material.

1. Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser do conhecimento de V. Sª. Outrossim, tal prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisístico.
2. Frases com apenas uma palavra? Corta!
3. Evite abrev., etc.
4. Não abuse das citações. Como costumava dizer meu pai: “Quem cita os outros não tem idéias próprias”.
5. Frases incompletas podem causar
6. A voz passiva deve ser evitada.
7. Seja mais ou menos específico.
8. Anule aliterações altamente abusivas.
9. As analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
10. Quem precisa de perguntas retóricas?
11. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma idéia.
12. Não abuse das exclamações! Seu texto fica horrível! Sério!
13. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva. A repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.
14. Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação
15. Evite frases exageradamente longas, por dificultarem a compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-las em seus componentes diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular pelo uso de frases mais curtas.
16. “Não esqueça as maiúsculas”, como já dizia carlos machado, meu professor lá do colégio santa ifigênia, em salvador, bahia.
17. Palavras de baixo calão podem transformar seu texto numa porcaria.
18. Cuidado com a orthographia, para não estrupar a língua.
19. Seja seletivo no emprego de gíria, bicho, mesmo que sejam maneiras. Sacou, galera?
20. Nunca use siglas desconhecidas, conforme recomenda a A.G.O.P.
21. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
22. Seja incisivo e coerente. Ou talvez seja melhor não...
23. Exagerar é 100 bilhões de vezes pior do que a moderação.
24. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
25. Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises, evitá-las-ei!”
26. Nunca generalize: generalizar é sempre um erro.
27. Estrangeirismos estão out, palavras de origem portuguesa estão in.


Internet, por e-mail, circulou em janeiro de 2002.